Encontrei o Poeta

Encontrei o Poeta

por Soraya Souto (Brasil)

 

 

Ontem, caminhando pela praia, encontrei o Poeta.
Ele vinha devagar, deixando que vento agitasse seus cabelos e a areia brincasse com seus pés descalços.
Não sorriu, mas aceitou minha mão e seguimos juntos, dedos entrelaçados, caminhando lado a lado, dividindo aquele fim de tarde de céu rubro e brisa fresca.
Meu coração batia acelerado, pressentindo toda a agitação interior que ele trazia consigo.
Quando as estrelas chegaram, deitamo-nos na areia úmida para admirá-las. Acima do som do mar, ouvi a sua voz:
_ Já não consigo escrever sobre as estrelas, nem as decifrar, por isso não consigo acrescentar nada às noites escuras e solitárias. Passo os dias à espera delas, mas quando a noite chega apenas a angústia toma o meu coração. São tantas, e tão diferentes entre si, que minha escrita já não consegue dar-lhes voz.
_ Então vamos ficar aqui – respondi – sob esse céu, saciados apenas com a visão que elas oferecem.
Ali, no silencio, senti que as ondas chegavam, tocando de leve nossos pés. Seu riso fraco chegou aos meus ouvidos.
_ Quando eu era criança- disse –  fitava o céu à espera que uma estrela cadente cruzasse e realizasse meus pedidos. Fiz tantos, e grande parte realmente se concretizou.
_ Acredita então nas estrelas, Poeta?
Ele não respondeu de imediato, e quando falou tinha os olhos brilhantes e vidrados.
_Acredito nas estrelas e nos sonhos que elas guardam. Na esperança que os corações têm de atingi-las, e também na infinita distância de onde me observam.
Um tremor percorreu sua mão. Apertei mais forte seus dedos, lembrando-lhe que estávamos juntos, e eu sempre o apoiaria. O Poeta nunca me pareceu tão frágil, por isso tentei encontrar as palavras certas para aquela conversa.
_E por que precisa tanto delas?
_Para descrever a luz quando o mar se aproxima, e o reflexo que faz brilhar a areia da praia. Sem elas não se vê o arrepiar na pele, provocado pela brisa, ou o amor refletido no olhar do amante que espera. Sem elas meus versos ficam presos à terra, sem sonhos nem voos.
Virei-me para fitá-lo, e percebi as lágrimas que corriam pelo rosto tenso. Me ocorreu que elas também vinham em ondas, como aquele mar.
Senti um frio percorrer minha pele até à garganta, impedindo minha voz. Me faltaram palavras perante aquela dor.
Alí perto soaram acordes de um violão, e minutos depois uma voz iniciou uma canção. Era uma balada de amor, vinda de uma das casas ao longo da praia, e por alguns momentos ficamos ambos a ouvi-la, quietos e pensativos.
Ao final, ele voltou a falar.
_ Até mesmo a música precisa das mensagens das estrelas, percebe? Sem a poesia os corações padecem e se tornam infecundos…
Era possível perceber as aflições do espírito que faziam com que ele respirasse forte, como um gemido surdo.
Foi então que nossos dedos se soltaram, e o Poeta se levantou.
Não disse adeus, apenas me fitou com a ternura com que os poetas trazem nos olhos, e partiu sem olhar para trás.
Vi seu vulto afastar-se e lamentei a solidão que agora nós dois sentíamos, mas que não podíamos evitar. Ele tinha uma angústia dolorosa, difícil de descrever e, incapaz de suportá-la, perdoei sua partida.
Ao vê-lo já longe, pensei no preço que pagamos por não sermos apenas um, mas sim todos os que somos capazes de viver e interpretar. Uma eterna luta que atormenta aqueles que leem as estrelas ou escutam as ondas do mar.
As suas palavras marcaram meu coração com a mesma força, e da mesma forma com que a poesia sempre costuma fazer, em noites como aquela.

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A VARANDA DE VIDRO

A VARANDA DE VIDRO

En portugués y español – por Henrique Mendes (Portugal)

 

Os passarinhos costumavam entrar  na varanda para comer, e apanhavam minhocas nos vasos e migalhas no chão enquanto saltitavam alegremente dum lado para o outro, felizes e contentes.

A varanda rodeava toda a casa e, vendo como os passarinhos gostavam de brincar por ali, os donos da casa colocaram dois bebedouros para eles. Foi um sucesso, e em pouco tempo o lugar ficou famoso. Vinham passarinhos de longe, brincando uns com os outros, para comer e beber.

Eram de todas as espécies e de todas as cores, e coloriam o mundo enquanto batiam as asinhas e tomavam uns banhos agitadíssimos que espirravam a água longe.

Mas sempre que alguém se aproximava e entrava na varanda, os passarinhos fugiam com medo, sem perceber que ninguém pretendia  fazer-lhes mal.  Tristes com isso, os donos da casa resolveram fechar  com vidro as enormes varandas, deixando lá dentro os passarinhos.

Primeiro, foi um desespero. Os passarinhos não sabiam o que fazer, e voavam contra o vidro.  Muitos batiam com força e morriam. Muitos morreram.  Depois, aos poucos, alguns se habituaram a viver naquele espaço fechado por paredes que não se viam. E os filhotes que eclodiram dos seus ovinhos, já cresceram conhecendo os limites invisíveis daquele luigar perfeito que eram as varandas.

Havia muitas espécies de plantas, tinham água e comida, e não havia predadores. Mesmo os gatos da casa ficavam sempre do lado de fora, escondidos entre as plantas que cresciam encostadas à parede invisível.

Claro que os passarinhos de dentro olhavam com muita curiosidade os passarinhos que vinham pousar nos galhos dos arbustos do jardim, e acabavam chilreando uns para os outros em irmandades de passarinho.

Também aos poucos se habituaram a conviver assim divididos, sem que nenhuns deles entendesse muito bem o que era aquela enorme vidraça que era algo assim como uma parede que não se via, e que os separava quando tentavam estar juntos. Apenas isso.

Assim mesmo, todas as manhãs, naquela hora em que os passarinhos decidem que o dia deve começar,  havia dois que sempre se buscavam e ficavam, um de cada lado no seu galho, piando, amigos de longa data.

Um deles era gordinho, com penas luzidias e lustrosas. Vivia dentro de uma casinha que alguém tinha escavado num pedaço de tronco de uma árvore velha, e que agora ficava num dos cantos da varanda.

O outro, do lado de fora, era mais magro mas muito mais forte, mais agitado, nervoso, sempre com as penas mais rebeldes eriçadas pelo vento. Vivia de olho nos insectos que passavam ao seu alcance, preocupado com comida, e aproveitava as gotas que pingavam da torneira do jardim para poder beber, disputando o lugar com os outros passarinhos ao redor da poça que se formava no chão. E claro que não entendia as queixas do seu amigo que vivia dentro da varanda.

-Tu tens tudo! – dizia-lhe – Não entendo o teu piar triste. Nunca precisas dormir na chuva, nem ficar preocupado com os gatos que nos querem comer. Não sabes o que é passar fome nem sede, e tens um ninho bem protegido. Queixas-te de quê, afinal ?

-Ah! – suspirava o passarinho de dentro – Eu queria poder voar mais longe, para onde eu quisesse. Brincar no meio das flores e apanhar insectos saborosos. Aqui, não posso. Conheço poucos cantos…

-Mas eu já te vi cantar, quando estás alegre! – argumentou o passarinho de fora.

-Sim! E também sei um canto  para quando estou triste. E outro para quando tenho medo do gato que fica só me rondando, tentando entrar.

-E só sabes esses ? Não sabes o canto de andar perdido ? Nem o canto de chamar os amigos, quando se encontra comida ? Nem o canto para acasalar ?

-Esse de acasalar, eu conheço. Conheço mais ou menos. Somos poucos, não é ? Então as femeas daqui atendem ao meu chamado mesmo que eu cante muito mal. Precisam de mim, e acabam por conformar-se…

-Hummm… Acho que entendo!- piou o passarinho do lado de fora- Mas tens tantas coisas boas, que eu queria ter…

-Mas a minha vida é desinteressante. Ninguém me dá valor, basta estar aqui. Não vivo melhor se caçar insectos. Nem de um belo canto nupcial eu preciso, já viste ? Basta comer os grãos que nos dão e estar aqui, enfeitando o mundo à força…

-É por isso que te calas, quando os teus donos se aproximam?

-Claro ! É a minha vingança de passarinho! Apenas me dão o necessário para eu estar aqui. Não me deixam ser livre, nem fazer tudo o que eu poderia fazer. Obrigam-me a ser menos do que eu sou, mas ninguém consegue obrigar-me a colaborar, e é por isso que a vida aqui é tão triste. Quando eles chegam perto, todos nós, passarinhos, nos calamos em protesto!

-Mas olha que a vida aqui fora é terrível. Perigosa e muito injusta. Os mais fortes é que se safam. Os mais fortes comem os mais fracos.Pensa nos gaviões! Quantos de nós já eles mataram com aquelas garras poderosas ? Nunca nos matam a todos para que nos possamos reproduzir, e eles sempre tenham quem caçar e quem comer…

-E achas que aqui dentro é melhor? A nós roubaram-nos tudo. Agora já somos apenas o que sobrou de nós.  Dantes, alegravamos o mundo, agora enfeitamos o espaço de alguém.

-Isso é verdade! – concedeu o que estava no exterior.

-Já nem seríamos capazes de viver aí fora, junto com vocês, nem fugir dos gaviões ou esconder nossos ovos das cobras que atacam os ninhos. Esquecemos os nossos cantos… E não temos fôlego para voar longas distâncias, nem para brincar no meio das flores do campo nas manhãs de primavera. Até na morte somos diferentes…

-Na morte ? Não entendo. Morte é morte…

-Sim, mas vocês morrem sendo comida para alguém. Nós morremos e somos deitados no lixo, não servimos para nada. Somos um colorido que desapareceu da varanda, não mais.

Sempre era esta a conversa dos dois amigos. E assim foi naquele dia, até que as núvens se juntaram prometendo uma tempestade muito forte, e o passarinho de fora teve de voar procurando abrigo. Depois veio a noite, e o vento do temporal, e um galho foi lançado pela  ventania quebrando os grandes vidros da varanda em mil pedacinhos.

No dia seguinte, o passarinho de fora aproximou-se novamente. Vinha com medo de não encontrar mais o seu amigo. Com toda a certeza ele teria aproveitado e fugido, mesmo sabendo que ia ter de voltar ou morrer.

Mas não. Lá no fundo, dentro da varanda, os seus amigos continuavam pousados nos pequenos poleiros de sempre. Mas estavam de costas viradas para a rua, e desse dia em diante, nunca mais cantaram.

Quem me contou esta história, acrescentou um pouco mais. Disse-me que assim são também os homens.  Alguns, vivem num mundo tão controlado pelos governos, quem já nem entendem mais o mundo, nem seriam capazes de viver noutros lugares. Acabam perdendo a vontade de serem o melhor que poderiam ser – o melhor de si mesmos.

Apenas não cantam, nos desfiles e paradas organizadas para mostrar que existem, felizes e gordinhos.

 

El balcón de vidrio

 

Los pajaritos tenían por costumbre adentrar en el grande balcón para comer, y cogian vermes en los vasos con plantas mientras saltaban alegremente por todas partes, felices y contentos.

El gran balcón rodeaba toda la casa y, viendo que a los pajaritos les gustaba jugar por allí, los dueños de la casa colocaron dos bebederos para ellos. Fue un suceso, y en poco tiempo el lugar se hizo famoso. Venían pajaritos de lejos, jugando unos con los otros, para comer y beber.

Eran de todas las especies y colores, y coloreaban el mundo con sus alitas mientras bebían y se bañaban desparramando lejos el agua. Pero siempre que alguien adentraba el balcón para acercarse, ellos huían inmediatamente sin entender que nadie pretendía hacerles daño. Pesarosos con eso, los dueños de la casa tomaron la decisión de cerrar con vidrios los enormes balcones, dejando adentro los pajaritos. Así podrían vivir sin que nada les faltara y a la vista de todos.

Primero fue un horror. Pajaritos desesperados y sin saber qué hacer, se daban cabezazos contra los vidrios. Muchos lo hicieron. Muchos quedaron muertos. Pero poco a poco algunos se acostumbraron a vivir en aquel espacio cerrado por paredes que no podían verse. Y la generación siguiente, nacida de sus huevitos, crecieron conociendo los límites invisibles de aquel lugar perfecto que eran los balcones.

Había plantas de todos tipos, plantadas en vasos, y los pajaritos tenían agua y comida, y no había predadores. Los gatos de la casa quedaban siempre afuera, intentando esconderse entre las plantas que crecían junto a la pared invisible.

Claro que los pajaritos de adentro miraban con mucha curiosidad a las otras avecitas que venían a posarse en las plantas del jardín, y no dejaban de comunicarse entre ellos, en hermandades de pajaritos.

Poco a poco también se acostumbraron a convivir así divididos, sin que ninguno de ellos pudiese comprender completamente qué eran aquellos enorme vidrios, algo así como un límite mágico que los separaba cuando intentaban estar juntos. Apenas eso comprendían.

Así mismo, todas las mañanas en aquella hora que los pajaritos creen que el día debe empezar, dos de ellos siempre se buscaban y quedaban piando entre ellos, uno adentro y otro afuera, amigos del alma.

Uno de ellos era gordito y con plumas lustrosas. Vivía dentro de una casita que alguien había hecho en un agujero de un viejo tronco de árbol que ahora quedaba acostado en uno de los cantos del balcón.

El otro, del lado de fuera, era más delgado pero mucho más fuerte, más agitado y nervioso, siempre con sus plumas rebeldes erizadas por el viento. Quedaba siempre atento a los insectos que pasaban cerca de él, preocupado con la comida, y muchas veces los cazaba en un corto vuelo fatal. También aprovechaba el agua que goteaba del grifo, y disputaba duramente con los otros pajaritos en rededor de la poza de agua que se formaba en el suelo. Y claro que este pajarito no comprendía las quejas de su amigo que vivía dentro del balcón.

!-Lo tienes todo!- decía – No entiendo tu piar tan triste. Jamás necesitas dormir en la lluvia, como hago yo. Tampoco necesitas preocuparte con los gatos que siempre buscan cazarnos. No sabes qué es pasar hambre y sed, y tienes un nido perfecto, lindo y protegido. Entonces ¿de qué te quejas, amigo?

-Ah! – suspiraba el pajarito de dentro – Yo quería poder volar más lejos, para donde quisiera. Y me gustaría jugar en medio de las flores, buscando insectos sabrosos. Aquí no puedo. Y casi no sé cantar, conozco pocos cantos…

–  ¡Pero yo te he visto cantar, cuando estás alegre! – argumentó el pajarito de fuera.

– ¡Sí, de acuerdo! Claro. Y también sé un cántico para cuando estoy triste. Y otro para cuando tengo miedo del gato, que queda rondando por aquí…

–  ¿Y esos son todos qué sabes? ¿No sabes el cántico de andar perdido por ahí ? ¿Ni el otro para llamar los amigos cuando encuentras comida? ¿Ni el cántico para agradar a las hembras ?

– Bueno, ese para agradar las hembras creo que lo conozco más o menos. Somos poquitos aquí dentro. Por eso las hembras acuden a mi llamado lo mismo que cante mal, ¿no? Me necesitan y hay que conformarse…

-Hummm… ¡Creo que te entiendo! – pió el otro pajarito. Pero piensa bien, tienes tantas cosas que a mi me gustaría mucho tener…

-Sí, pero mi vida no es interesante. Nadie me da valor, basta que quede aquí sin hacer nada. No vivo mejor sin cazar insectos. Ni siquiera necesito de un bello cántico nupcial, ¿entiendes? Basta quedarme aquí ornamentando el mundo a la fuerza…

–  ¿Y por eso te callas cuando se acercan tus dueños?

-Seguro que sí. Es mi venganza de pajarito. Apenas me dan el necesario para que esté aquí. No me dejan ser libre, ni hacer todo lo que podría hacer. Me fuerzan a ser menos de lo que soy, pero nadie puede hacerme colaborar, y por eso la vida aquí es tan triste. Cuando ellos se acercan todos nosotros, los pajaritos, nos callamos en protesta.

-Pero no te olvides que la vida aquí afuera es terrible. Es peligrosa y muy injusta. Los más fuertes son los que se salvan. Acá, los mas fuertes comen los más débiles. Piensa en los halcones. ¿Cuántos de nosotros mataron con sus garras poderosas? No, no  matan a todos para que nos podamos reproducir y tengan siempre qué comer.

-Sí, ¿pero crees que aquí dentro es mejor? A nosotros nos robaron todo. Ahora somos apenas lo que restó de nosotros. Antes, éramos la alegría del mundo. Ahora adornamos el espacio de alguien, no más que eso.

-Eso es verdad…

-Piensa que ya no podríamos vivir fuera de aquí, junto con ustedes. No sabríamos cómo escapar de los halcones, o cómo esconder nuestros huevitos de las cobras que invaden los nidos…. Olvidamos nuestros cánticos…y no tenemos aliento para volar largas distancias, o jugar entre las flores del campo en las mañanas de primavera. Mismo en la muerte somos diferentes…

-¿En la muerte? No entiendo. Muerte es muerte…

-Sí, pero ustedes mueren siendo comida para otros. Nosotros morimos y nos ponen junto con la basura de la casa, pues no servimos a más nada. Somos un colorido que desapareció del balcón, no más…

Siempre era esta la plática de los dos pajaritos. Y así fue en ese día, mientras las nubes empezaron a concentrarse con la promesa de una gran tempestad, y por eso, el pajarito de afuera tuvo que buscar donde abrigarse. Después llegó la noche y el viento muy fuerte, y una rama fue lanzada contra los vidrios del balcón, destruyendo algunos.

Al día siguiente el pajarito de afuera se acercó otra vez. Venía con miedo de no encontrar más a su amigo. Seguramente habría aprovechado para escapar, a pesar de saber que iban tener que volver o morir. Pero no pasó así. Dentro del balcón, sus amiguitos estaban posados en sus ramas acostumbradas. Apenas habían vuelto las espaldas para el exterior, y después de ese día no volvieron a cantar.

Quien me contó esta historia, agregó un poco más. Me dijo que también así son los hombres. Algunos viven en un mundo tan controlado por los gobiernos que ya no entienden más el mundo que los cerca, y no serían capaces de vivir en otros lugares. Pierden las ganas de ser lo mejor que podrían ser – lo mejor de ellos mismos.

Apenas no cantan en los desfiles y paradas organizados para mostrar cómo existen y están felices y gorditos…

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O MEU AMIGO PIPOCAS

O MEU AMIGO PIPOCAS

por Henrique Mendes (Portugal)

 

Pede-me Leonor para falar de um dos meus cães. Imediatamente me veio à cabeça o Pipocas, mas como falar dele ? O seu diminuitivo era Pocas, e fomos inseparáveis desde o dia em que nos conhecemos numa petshop.

Na loja havia havia um pequeno recinto onde brincavam uns doze cachorrinhos cocker spaniel. Divertido com as suas travessuras, baixei-me para acariciá-los. Quando me levantei, um deles veio pendurado na minha gravata e recusava-se a largá-la. Era o Pocas. Preto, barrigudinho, com uma pequena mancha branca no peito.

Enquanto o comprava descobri que tinha um longo pedigree, e que se chamava realmente Kodak, mas isso eram apenas detalhes de um acontecimento maior: -Tinhamo-nos conhecido e agora ele era meu. Pelo menos, isso era o que eu achava.

Mas óbviamente ele tinha algo a dizer sobre o assunto e, logo nesses primeiros momentos, ficou claro que ele achava que eu que agora lhe pertencia, para ter e cuidar. E, talvez para marcar bem o seu ponto de vista, foi todo o caminho até casa sentado no meu colo, enquanto eu dirigia o carro – meio pendurado, mas sem me soltar  a gravata.

Depois, quando chegamos e o coloquei no chão da sala, finalmente soltou-me. Mas foi apenas para avançar rosnando e correndo de lado, muito trapalhão, sobre a Estrelinha, uma cocker spaniel dourada já quase adulta, com uma estrela branca na testa,  que, surpreendida por se ver assim atacada por aquela ínfima criatura, fugiu.

Então ele deu-se por satisfeito e regressou para o meu colo com aquele ar muito orgulhoso de quem tinha afastado um inimigo. Claro que voltou a  abocanhar a minha gravata que, nessa altura, já estava toda marcada dos seus dentes afiadíssimos. Acabei por oferecer-lha, e ele corria por todo o lado arrastando-a atrás de si, brincando, tropeçando nela e caindo, mas sem nunca a soltar.

Rápidamente entendeu que a Estrelinha não era inimiga nem representava  nenhum perigo para mim. Tornaram-se grandes amigos, e logo nessa primeira noite ele já dormiu enroscado entre as patas dela. Com a minha gravata na boca, evidentemente.

Como o Pocas era muito pequenino e sempre perseguia os atacadores dos meus sapatos, eu receava pisá-lo. Então coloquei-lhe ao pescoço um pequeno guizo que ia sinalizando a sua posição. Graças a isso percebi que ele ia várias vezes por noite ao meu quarto apenas para ver se eu estava bem. Eu acordava com o ruido do guizo e lá estava ele, sentado nos quartos traseiros como se fosse um cão adulto, olhando-me com toda a atenção. Depois voltava para a cama da Estrelinha. A dele, nunca a usou.

Os anos passaram, e o Pocas cresceu. Não foi preciso ensinar-lhe nada, a Estrelinha encarregou-se disso. Não subia para os sofás, não fazia barulho dentro de casa, e buscava o canto certo do jardim para fazer as suas necessidades.  Creio que nunca ladrou a ninguém, excepto quando ficava no carro e entrava em modo de cão de guarda. Nessa altura, se alguém se aproximava demais, ou se mexia no carro, ele transformava-se numa fera, com os dentes muito grandes e muito brancos batendo nos vidros do carro – e era realmente intimidante.

Ele e a Estrelinha tiveram uma linda ninhada de sete crias, uns pretos como ele, outros dourados como ela. Todos lindos, barrigudinhos e saudáveis, com uma energia e uma curiosidade avassaladoras. O Pipocas revelou-se um pai formidável, com uma paciência a toda a prova.

Como a casa tinha sido construída em socalcos, havia várias escadas dentro e fora, no jardim. Isso era um problema para os bébés, claro. Por isso o Pocas agarrava-os pela pele do pescoço e levava-os, um a um, escadas acima e escadas abaixo, sempre que era necessário. Foi assim até eles conseguirem fazê-lo sozinhos. Demorou!

Com o passar dos anos, atravessámos juntos um divórcio. A Estrelinha  ficou com a dona, e nós dois buscámos outros ares. Daí em diante, ele passava muito tempo dentro do meu carro, acompanhando-me enquanto eu visitava clientes, numa permanente busca por sombras onde estacionar.

Também ia-mos juntos ao café onde, logo de manhã, eu tomava a primeira refeição do dia em pé, de frente para o balcão. Ao meu lado, sentado sobre as patas traseiras, o Pocas copiava os meus gestos, e ficava olhando os bolos através do vidro. Acabámos descobrindo um bolo de arroz, quase sem açucar, que o dono do café passou a trazer para ele tal como trazia para mim as coisas que eu costumava comer: sem perguntar. Ele comia duma vez só, quase sem mastigar, e continuava olhando o balcão, compenetrado e tranquilo.Os outros clientes viam e achavam graça. Diziam que éramos iguaizinhos.

Aos poucos tornámo-nos conhecidos, ali e na praia, onde o Pocas se especializou em abordar as moças que apanhavam sol deitadas de barriga para baixo. Normalmente estavam sem a parte de cima do bikini, que tinham tirado e deixado sobre a toalha, ali do lado.  O Pipocas aproximava-se com aquele ar de quem quer meter conversa, simpático, deixava-se acariciar sem problemas, e ainda ganhava umas batatinhas fritas de vez em quando. Depois,  quando faltavam as batatas ou quando ele achava que estava na hora, abocanhava o pedaço do bikini e fugia para junto de mim.

Um amigo meu, que costumava estar presente, ria-se e elogiava-o: ” Good- boy!”, dizia enquanto o coçava detrás das orelhas, como ele gostava. Não sei se foi isso que o incentivou, mas era muito frequente  a presença de moças embrulhadas em toalhas, reclamando enquanto apanhavam o biquini todo enrolado e cheio de areia, parecendo um croquete.

Todos os meus amigos adoravam o Pocas por causa das moças que ele trazia até junto de nós, mas elas também. Claro que lhe davam restinhos de sorvete, e ele adorava o pessoal todo. A propósito de sorvete, lembro das vezes que, correndo os olhos pela praia, fui encontrar o Pocas sentado em frente a uma criança, comendo o sorvete a meias com ela. Mas educadamente, que é que julgam ??  Agora lambes tú, agora lambo eu! Não roubava o sorvete das criancinhas nunca. Claro que os pais, normalmente, quando se apercebiam do que se passava, compravam outro sorvete para os seus filhos e deixavam o primeiro para o Pocas comer sozinho. E nessa altura sim, quando percebia que era só para ele hesitava um pouquinho e depois comia tudo de uma só vez.

Quando mais tarde voltei a casar, morava em apartamento. Receei que ele se tornasse demasiado cioso do espaço e não acolhesse bem a nova dona, que nao estava habituada a ter cão dentro de casa. Mas, ao contrário, ele rápidamente arranjou uma forma de se deitar sobre os pés dela ( e não mais os meus…) trazendo com ele uma bola de borracha rosa pink que ela lhe tinha oferecido algum tempo antes. Depois disso, passou a ser ali o lugar habitual dele dormitar enquanto viamos televisão.

Adoptou de tal maneira a nova dona que durante uma semana em que ela esteve doente, ele deitou-se no quarto, perto da cama, e deixou de comer, desanimado e desgostoso. Aos poucos, recuperaram ambos.

Mas aos poucos o tempo passou. O Pocas começou a não ser capaz de saltar sozinho para dentro do carro, depois começou  a não me acompanhar, quando eu me movimentava dentro de casa. Por fim começou a ficar parado em pé, arquejando. O seu coração fraquejou, com a idade, e não houve o que fazer. A morte aproximou-se a passos largos, rápidamente.

Por fim, tivemos de dizer adeus, num momento pungente em que ele foi pesando nos meus braços até chegar ao fim. Escolhi para ele um lugar que eu sei que seria do seu agrado, bonito e inacessível, junto das ruínas duma ponte antiga, que ficou parada no tempo, entre auto-estradas.  Sempre que passo de carro consigo ver de longe, por um instante, flores e borboletas, e passarinhos brincando em liberdade, e torna-se fácil imaginá-lo brincando por ali com uma velha gravata na boca.

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Vizinhança

Vizinhança 

por Soraya Souto (Brasil)

 

 

Ele soube que teria problemas com a vizinha logo na primeira semana na nova casa.
Naquele domingo, depois de poucas horas de sono, foi acordado pela voz de um locutor de rádio que parecia estar muito longe dali:

“_ Bom dia amigos do campo, bom dia gente da cidade! Vamos levantar e tomar um cafezinho!”

Então, como fundo musical ao cumprimento, o canto estridente de um galo.

Ele colocou a cabeça sob o travesseiro, na tentativa de voltar a dormir. Foi inútil. Depois de alguns segundos, com o volume ainda mais alto, uma música que ele desconhecia o despertou definitivamente.

Levantou-se, abriu parte da cortina, e espiou a casa vizinha ao lado. Através da janela também aberta viu que uma senhora, cabelos brancos e gestos alegres, circulava pela cozinha. Cantarolava junto com a música no rádio e, ao se virar, seus olhos se encontraram.

Ela abriu um sorriso bondoso, e acenou para ele.

“_ olá vizinho! Lindo dia, não acha?”

Não respondeu. Fechou a cortina com rapidez, resolvido a ignorar a pessoa. Estava visivelmente aborrecido. Mas ao longo daquele dia foi observando sua vizinha pelas janelas e acompanhando a sua rotina. Era algo que não conseguia evitar, por mais que estivesse irritado com o barulho que ela fazia, e com o cachorro que latia freneticamente, cada vez que o via espiando a casa.

Naquela manhã de domingo ela parecia ocupada, entre panelas e portas do armário, que abria e fechava a todo instante. Viu quando preparou a mesa para o almoço e foi para a entrada da casa. Ali ficou por muito tempo, afagando o cão e com olhos fixos no portão, como se esperasse alguém.

Ele foi testemunha da sua decepção, visível no rosto triste, quando depois guardou os pratos postos, dobrou o forro florido da mesa e o guardou na gaveta. O rádio continuava em alto volume, mas ela já não acompanhava as canções, e logo o desligou.
No fim da tarde percebeu quando ela, arrumada e penteada, pegou uma pequena bolsa e saiu de casa. O cãozinho ficou no portão, obediente à ordem de sua dona.

Algum tempo depois ouviu o portão sendo aberto. Chegou à janela a tempo de ver o pequeno terço lhe caindo das mãos, ao tentar abrir a porta de entrada. Foi à missa, pensou. Ao acender as luzes ela o viu à janela, mas desta vez não fez qualquer gesto, e desviou o olhar.

Ele acabou se acostumando a levantar muito cedo todos os dias, despertado pelos ruídos na cozinha vizinha, e o cheiro do café que atravessava as janelas. A senhora era pontual, e antes mesmo do sol nascer era possível ver as luzes acesas e janelas abertas na pequena casa.

Quando ele voltava, ao final do dia, sempre a via alimentar o cachorro e apagar as luzes. Depois tudo silenciava, e só então ele se deitava para dormir.

Aos amigos, ele contava das noites curtas, da senhora inquieta e do rádio que o incomodava. Reclamava da vizinha, e dizia querer se mudar o quanto antes.

Mas para si, embora não admitisse, sentia simpatia pela senhora solitária. Assistiu angustiado a todos os domingos de espera por convidados que não chegaram, e esperava paciente as chegadas após as missas semanais. Achava divertido ouvi-la cantar sozinha, e até já reconhecia algumas músicas.

Algumas vezes, quando sabia que ela não estava, ia até o portão para afagar o cãozinho e admirar o jardim bem cuidado, com a pequena calçada de pedras. Depois voltava para casa e se perdia em lembranças da infância e de sua própria família, agora distante.

Assim se passaram várias semanas. Ele a observando à distância sem, no entanto, tentar um contato. Ela quieta e metódica, mas consciente do vizinho que estava sempre à janela.

Determinado dia, ao chegar do trabalho, ele viu a casa toda fechada. O cachorro também não estava por perto, e não notou qualquer movimento. Foi assim durante vários dias, e ele passou a sentir a ausência da vizinha.

Acordava no horário habitual e ficava no escuro à espera da música, do latido ou do ruído das panelas, mas nada se ouvia. Sentiu falta dos aromas de café e biscoitos. Vigiava as janelas e portão, mas nada mudava.

Foi tomado por uma preocupação crescente. Se lembrou que sequer sabia o nome da senhora, ou de qualquer pessoa que pudesse lhe informar. Começou a compará-la com a mãe, a avó, as tias que não via desde que se mudara do interior.

Passou a dormir mal, acordava ao menor ruído na rua e se levantava várias vezes durante a noite, para olhar pela janela. Passava os dias irritado e cansado, ansioso para voltar para casa.

Só então percebeu como a simples presença dela, na casa ao lado, lhe trazia a sensação de pertencer a algum lugar, de proximidade com alguém, mesmo com os limites que ainda tinham. A falta dela provoca uma sensação de abandono como nunca sentira.

Então, certa manhã de domingo, ainda sonolento, ouviu o latido. Pulou da cama em um salto e abriu as janelas. A senhora tinha voltado!

Podia vê-la andando pela cozinha, abrindo e fechando gavetas como sempre fazia. Sentiu uma grande alegria, e um alívio por perceber que ela parecia bem e animada.

Ficou por ali, indo e voltando à janela, até que ela o viu. Sorriram um para o outro. Quando ela lhe acenou alegremente, ele a cumprimentou de volta.

“Saudades de você!” – ela falou

“Senti sua falta!” – ele respondeu, já resolvido a ir até a casa vizinha.

Feliz se apressou no banho, se vestiu e correu até o portão da vizinha. Sem pensar muito bateu na porta. Escutou o arrastar de sandálias, e a porta se abriu. Ela sorria, como se soubesse que ele viria, e lhe ofereceu ambas as mãos, com carinho.
“_ Bom dia! Acabei de preparar um cafezinho, venha…”

Ela arrumou as xícaras enquanto ele tirava os biscoitos do forno, como se fosse um hábito entre eles.

Antes de começarem a refeição ele atravessou a cozinha e ligou o rádio, pois já estava na hora do programa que ela gostava. Ele imitou o canto do galo para faze-la rir, e se deliciou ao vê-la cantar algumas canções.

Ficou por ali até o final da tarde, depois a acompanhou à missa e a trouxe de volta.

Foi assim por muitos outros domingos, e essa é a história que ele conta até hoje, quando se lembra de sua querida vizinha.

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PRESENÇA PORTÁTIL

PRESENÇA PORTÁTIL

por Henrique Mendes (Portugal)

 

 

(Ensaios –  Manual do Tergiverso 1)

Sussurros conspiram em ecos
palavras gritadas em becos,
para ninguém ouvir.

Ainda soam nas pedras, crepitantes,
os passos rendidos, afastando-se
do que podia ser,

( Adentrando uma escuridão feita de pedras frias,
ensaiando um caminho descoberto em porfias,
onde parecia não haver caminhos. )

e já abutres procuram corpos,
carniça, sentimentos mortos
onde enfiarem seus bicos bisonhos…

Mas triunfarão os sonhos !

( Caminharão sobre os imensos aterros,
feitos sobre pântanos onde fétidos erros
se dissolverão… )

E nos lábios haverá mais doçura,
suavidade, carinho, ternura,
do que açúcar nas palavras…

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PAPEL DE SEDA

PAPEL DE SEDA

por Anajara Lopes (Brasil)

 

À Olallá
(Personagem de Robert Louis Stevenson)

Ah!… Escrevi, assim, em folha solta, para acaso queira jogue fora.

Não preciso mais dessa pele de alma que me compõe agora.

Quero a forma material que colocaste dentro de mim: – vida com sentimento e que se pode tocar – Foi do lado de fora que te amei. Com o toque, o abraço e com os beijos embebi-me de ti.

E agora? O que fazer? Tu vais embora! É com a alma que aprendi a te amar. Alma composta de pele que ajudaste a construir.

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PAGAR O PREÇO

PAGAR O PREÇO 

por Henrique Mendes (Portugal)

 

 

Todos pagamos o preço de ser quem somos. Saibamos disso ou não!
Eu pago o preço de ser quem sou. Tento viver de acordo com minhas escolhas. E tento que estas sejam escolhas informadas, colhendo visões de vários angulos até, finalmente, compôr a minha  e formar uma opinião sobre um determinado assunto. E escolher depois os caminhos que se adequam melhor ao que penso e à opinião que formei.

Fujo da visão de clube, de time. Fujo de ir com a manada, com o bando,  como fujo do prato feito. Prefiro deter-me nos ingredientes, escolher os sabores e os tempos oportunos ao “cozinhado”. Em resumo, prefiro pensar e escolher por mim mesmo. Tento não adotar ideias prontas sem me deter sobre elas.

Não fazer isto, para mim, é passar a mão na cabeça à sorte, e entregar-me a ela sem tentar sequer curvá-la a alguma escolha possível. E sempre há uma escolha, evidentemente. Pode é não resultar como queremos, ou a nossa escolha ser errada, mas escolher sempre podemos.

Podemos falar de muitas coisas como o livre arbítrio, que mais não é do que o reconhecimento disto que defendo. Podemos falar de arrogância, mas jamais aceitarei que seja arrogante quem não se presta a seguir o grupo e prefira pensar sozinho. Abomino a “galera” pelo convite à impunidade e à irresponsabilidade. A galera não tem corpo, não se pode responsabilizar, não é ninguém. Dali pode saír tudo e qualquer coisa.

Admito que possam até, eventualmente, saír dela coisas boas. Há acidentes felizes, excepções que justificam a regra. E a regra, para mim, é que a galera é acéfala, não tem cabeça visível e age no impulso do momento. Mas a galera é comandável, e quem souber comandá-la tem em mãos uma capacidade destrutiva gigantesca.

Por isso são temíveis as “torcidas organizadas”. Por isso existem, para serem temíveis.  Por isso se contratam a peso de ouro os marketeiros políticos, que trabalham para quem pagar mais. E que são temíveis. E que temos de temer, pois são usados para criarem em nós a vontade de seguir com a galera, atrás de um determinado lider que talvez nem escolhessemos se não fosse a influência deles, marqueteiros. Os condutores da galera.

A galera é a turba, a multidão sem rosto. Aquilo que os sábios romanos mais temiam, por lhe conhecerem a violencia e a veia truculenta e incontrolável.

Mas a galera também é carne para canhão. E devemos pensar nisso tendo em mente que, ao pertencer à galera, podemos estar a ser usados para ir para a primeira linha da batalha. Ser carne para o canhão do inimigo, seja ele qual for. E estar entre os primeiros a tombar.

Ou então ser da galera pode significar estar entre aqueles que pisoteiam os da linha da frente oposta à nossa, que podem ser nossos amigos e parentes, irmãos, vizinhos. Apenas porque não fazem parte da nossa galera e sim de outra que se pensa diferente e se opõe à nossa.

Recuso a galera. Prefiro pensar sózinho. Escolher com a maior humildade. Mas sem dúvida: sem aceitar que isso seja arrogância ou elitismo. Não é mais do que necessidade. O mundo é feito de galeras com interesses muitas vezes opostos. E deveríamos juntá-las para que se conciliassem, não para que brigassem cada uma por sua vitória.  Todos os governos deveriam conter elementos de todas elas, governando na proporção dos seus votos.

Onde estiver errado, onde isso possa lesar os outros, é algo que tenho de aceitar como fazendo parte do preço a pagar por ser quem sou e por acreditar nas escolhas pessoais. Informadas!  Não apenas aquelas tomadas depois de se ler apenas os argumentos da galera a que se pertence. É nisto que creio. Assim, simplesmente.

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Bom humor

Bom humor

por Soraya Souto (Brasil)

 

 

Admiro pessoas bem humoradas.

Elas parecem possuir luz própria, e mesmo no dia de céu mais ameaçador conseguem demonstrar otimismo e, mais fantástico ainda, riem da tempestade. O bom humor parece vir de uma fonte inesgotável, talvez no coração de cada uma delas.
Os bem humorados não se abandonam à frustação de um dia ruim, apesar de reconhece-lo. São capazes de sorrir e repetir: “foi mal, hein?”.

Pessoas humoradas, principalmente aquelas que optaram por não fugir dos problemas, são descontraídas por natureza, diante de dificuldades brincam dos próprios tropeços e não desistem. Acreditam que sempre é melhor rir do que chorar, esquecer do que se apegar…

Sinto falta de mais pessoas bem humoradas por perto. Elas me fazem bem.

E lamento que o mundo não esteja repleto delas.

O fardo dos momentos ruins é muito pesado, quando não brincamos ao carregá-lo.

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A doadora de palavras

A doadora de palavras

por Soraya Souto (Brasil)

 

 

Ela era conhecida por sempre falar as palavras certas às pessoas.

Sabia quais serviam para um afago, um consolo, um pensamento reanimador onde havia inercia, ou um estimulo onde se instalara a desistência. Para aqueles que se perdiam em conflitos internos, escolhia palavras de fé e amparo.

Conta-se que ela tinha aprendido a ler e escrever sozinha, para grande surpresa da família.

Desde muito nova se encantara com as palavras, mesmo com aquelas que ainda não sabia o significado. Sempre que aprendia alguma, cantarolava baixinho, repetindo para si mesma, testando a sonoridade das letras, como se degustasse um doce. Depois, quando aprendeu a escrever, habituou-se a anotá-las em um pequeno caderno que levava sempre consigo, e mostrava a quem encontrasse.

Com o passar do tempo, à medida que crescia e ia aumentando seu repertório, passou a ver uma função especial nas palavras: a de trazer, no momento certo, as respostas ao espírito de cada pessoa. Sentiu que para isso ela precisava conhecer muitas, pois cada pessoa tinha sua própria história, e carregava medos, angústias ou alegrias.

Já adulta, era procurada por aqueles que precisavam escutar um alento, ou achar uma força que não se explicava de onde vinha. Nessas horas ela esquecia de si própria, de suas dores e dúvidas, e iluminava os corações aflitos com esperança de orações que aprendera e risos que só ela conhecia.

O mundo ficou silencioso quando ela se foi, e muitos, até hoje, se sentem desamparados por não encontrá-la quando precisam.

Toda pessoa precisa de palavras que lhe abram as cortinas e deixem entrar a luz, para trazer nova paz.

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Madrugada…

Madrugada…

por Dorothy Carvalho – Brasil –

 

 

Madrugada
A madrugada a mim se dá em lenta solidão.
Solidão que me é cara, pois é quando tiro a vida a limpo.
Revejo minha condição da ave que nunca aporta.
Esplêndidos sons noturnos, enquanto vou alinhavando.
Cortando e medindo a vida na leveza dos que tiveram pedras nas sandálias,
agora quietas e tristes, neste que é o meu chão.
Sempre reparei na tristeza dos calçados sem a força inebriante dos donos.
Mas, é só na madrugada que minha acuidade se aprimora, e, repara detalhes.
E sei que sou assim, qual vampira que ao raiar o sol, se recolhe.
Manhãs de sol são meninas mui traquinas e barulhentas.
Enquanto que a madrugada..esta senhora bem trajada, séria, concisa.
Senhora bondosa e silenciosa que me entrega uma certa chave,
com a qual adentro recintos vários do intrigante mundo noturno.
E se anômalo é meu caso de amor pelo silêncio e a introspeção.
A madrugada trás como lenitivo, uma uva para o enquadramento à bagunça lá de fora.
O sol se acha, já nasce estiloso e narciso.
Em rompantes, e põe todos os reinos ao seu dispor para saudá-lo.
Portentoso e espalhafatoso com sua fralda amarelo gema.
Até aceito seus afagos sob minha pele. Mas, que não passe das nove horas,
que é quando ele ainda engatinha nas diabruras.
Ou, às dezessete horas, quando ele já dá sinais de cansaço.
Trocamos algumas idéias. Coisas de pequena monta.
E, a noite é tão gentil, que silenciosa e graciosa chega aos pouquinhos.
Não sem antes namorar o cansadão.
É quando eu fico rubra ao ver dela a delicadeza.
Pois nos oferta ao olhar, seu doce encantamento de fêmea no ato Divino da entrega.
E o céu é um véu de várias tonalidades.
O sol se vai e ela cuida o universo de cá para o retorno do esposo tão incompatível.
E se faz madrugada.
E suavemente, sem que percebamos ela se faz manhã..e se vai..prenhe do Rei!
Então, vou regar as plantinhas…

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Entre gatos e vivências

Entre gatos e vivências (crônica)

por Soraya Souto (Brasil)

Tenho duas gatas, Tica e Bela, a primeira mãe da segunda.
Foram separadas pouco tempo após o nascimento da Bela, e a partir de então viveram muito tempo em ambientes completamente diferentes. Enquanto a Tica envelheceu sem limites de espaço, tendo outros filhotes, se fortalecendo e conservando hábitos de caça e de defesa, Bela, sua cria, foi confinada em ambiente menor, com janelas gradeadas, em ambiente totalmente controlado.
Agora, depois de anos, voltei a reuni-las, e o caos se alojou aqui em casa. Passo o dia evitando que se matem, separando brigas e as afastando uma da outra.
Fico pensando se terá sido a minha interferência, ao separa-las, que fez com que a mãe e sua cria agora não se reconheçam mais e não possam mais viver juntas.
Não sei como se processam as emoções dos felinos, mas por um momento trago a experiência para o lado “humano”.
Será que ao sermos levados pela vida para direções inesperadas, nos transformamos a ponto de desfazer laços que julgávamos fortes?
Imagino que sim, em alguns casos.
Creio que laços emocionais são construídos e alimentados dia a dia, e quando deixamos de cultiva-los se enfraquecem e, muitas vezes, são completamente eliminados. Mesmo que algum dia retomemos a proximidade física, talvez as experiências vividas tenham sido transformadoras e definitivas, e não nos deixem retornar a um ponto anterior.
No entanto, quando compartilhamos, em algum momento, sentimentos fortes e maduros, as ligações parecem não se desfazer. De certa forma, as nossas memórias, vivências familiares e companheirismo de grandes amigos são impermeáveis ao tempo e distância, mesmo quando percebemos as sutis diferenças introduzidas por uma ou outra mudança de itinerário.
Por mais que a vida nos empurre e nos transforme, ainda somos capazes, na fração de um abraço ou em um toque das mãos, de refazer a conexão que nunca foi rompida no coração.
Pode ser que minhas gatas se habituem e passem a viver pacificamente, aceitando a presença uma da outra. A natureza tem mecanismos de adaptação surpreendentes.
Quanto a nós, ainda temos que aprender a fortalecer e aprimorar laços de amizade, solidariedade e convivência, por exemplo.

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