111 – Portada

Son de abril las aguas mil.
Sopla el viento achubascado,
y entre nublado y nublado
hay trozos de cielo añil.
Agua y sol. El iris brilla.
En una nube lejana,
zigzaguea
una centella amarilla.
La lluvia da en la ventana
y el cristal repiqueteo.
A través de la neblina
que forma la lluvia fina,
se divisa un prado verde,
y un encinar se esfumina,
y una sierra gris se pierde.
Los hilos del aguacero
sesgan las nacientes frondas,
y agitan las turbias ondas
en el remanso del Duero.
Lloviendo está en los habares
y en las pardas sementeras;
hay sol en los encinares,
charcos por las carreteras.
Lluvia y sol. Ya se oscurece
el campo, ya se ilumina;
allí un cerro desparece,
allá surge una colina.
Ya son claros, ya sombríos
los dispersos caseríos,
los lejanos torreones.
Hacia la sierra plomiza
van rodando en pelotones
nubes de guata y ceniza.

Antonio Machado

Mundo Escrito

Mundo Escrito

 

Soraya Souto

Copyright

Capa: Letycia Carolina Oliveira das Flores

Para minha mãe, leitora e incentivadora, sempre.

 

Prefácio

Mundo Escrito

Tesouro infantil
O amigo
O Banho de Mar
Estações
A Colecionadora de Pedras
A Senhorinha e as Colchas de Retalhos
Infância
Fotógrafo ou Poeta
Colorindo o mundo
Amigos – parte I
Amigos – parte II – Rosinha
Lição de Borboleta
Baião
O Passeio
O velho
Dança
Depois da chuva
A você que me inspira

 

Prefácio

Creio que prefaciar um livro exige de quem o faz algum esforço de contenção.

Isso porque acredito que, em tudo o que o autor escreve, ele se revela e se expõe, fala de si próprio mesmo quando na terceira pessoa, e que continua sendo ele mesmo quando vive as mais  extraordinárias situações sob a pele dos personagens que cria.

Acreditando nisto, estou a um passo de dizer que a escrita pode muitas das vezes funcionar como uma espécie de bússola. A mim sempre me ajudou a colocar as coisas em perspectiva, e disso sempre resultou algum Norte pelo qual me guiasse, não importando muito em que mares alterosos ou em paisagens distantes estivesse.

A escrita promoveu sempre algum tipo de crescimento interior que consigo perceber quando leio meus textos mais antigos, e que sempre reputei de mais importante do que a própria publicação dos mesmos – apesar do inegável sentimento de realização que daí advém.

Por acreditar nisso, sempre me dispus a ajudar e a incentivar, a trocar opiniões, ideias e ideais com os colegas que chegaram à escrita depois de mim. A todos desejei que encontrassem a sua bússola e, nela, o seu Norte pessoal.  A alguns terei talvez ajudado a, pelo menos, não desistirem. E dos que persistiram, persistem ainda, há os que desenvolveram vozes muito particulares, formas que lhes são peculiares de contar, dizer, narrar.

Prefacio aqui com prazer uma dessas vozes, a um tempo suave e melancólica, mas em simultâneo decidida e directa ao ponto. Que às vezes se alonga e nos surpreende, detendo-se sobre minúcias de maior sensibilidade por um período maior do que esperaríamos, e tornando-se breve em pontos que esperaríamos ver mais alongados.

Poderemos pensar que isso resulta de maior ou menor maturação dos seus temas, ou da forma de os tratar. Ou então, achar que já é plena, e encontrada, a sua forma, o seu estilo pessoal de dizer, e que esse estilo resulta precisamente duma maneira de ver que lhe é peculiar enquanto pessoa. Ambos os exercícios são pertinentes.

Mas pessoalmente, acredito que é o prazer do contacto com a escrita, enquanto forma de arte  e expressão, em todas as suas vertentes, que move Soraya Souto.

Ao longo de anos de contacto em blogs, nos social media, em foros literários e sites de poesia, participações em antologias poéticas e  publicações em revistas electrónicas, sedimentamos um conhecimento mútuo que hoje me permite dizer que a aparente suavidade dos seus escritos não denuncia hesitação ou pouca firmeza na sua pena.

Depois de uma leitura prévia ao seu eBook, atrevo-me a dizer que essa aparente suavidade é antes o caminho que escolheu para si, e que vem gradualmente aperfeiçoando com esmero e cuidados. À minha amiga e colega de letras, desejo o maior sucesso nos escritos que virão. E estarei entre os seus leitores.

 

Henrique Mendes

 

Mundo Escrito

 

Existe um pequeno mundo, como uma pequena ilha, especial entre tantas que não o são.

É repleto de seres encantados, luminosos e mágicos, que podem ouvir pensamentos e sonhos, mas que não são capazes de traduzi-los em palavras que o vento possa espalhar pelos horizontes.

Por isso, esses seres, como deuses, criam Poetas ao seu redor.

Chegam disfarçados de pequenas borboletas, ou barulhentos pássaros coloridos. Ou aproximam-se quase invisíveis, misturados nos sons de águas mansas ou de mares turbulentos.

Só são vistos por aqueles que conhecem suas linguagens e gestos, e, principalmente, por aqueles que também têm uma pequena luz no coração, que lhes permite iluminar passagens secretas e ouvir além do compreensível.

São eles que sussurram nos ouvidos dos escribas os poemas e as histórias que viram nascer nesse mundo que percorrem. São memórias de belezas e terrores, de duelos infindos e romances improváveis, de viagens fantásticas a mundos etéreos.

E assim, no papel nascem fadas e príncipes, amantes eternos, lutas por amor e batalhas repletas de glórias.

Quando visito a pequena ilha, leio sempre vários poemas. E em cada um deles, vejo uma parte minha descrita. Somando-os, conheço-me.

Todos são eu.

Penso nesses seres luminosos, sabendo que escutam todos os meus sonhos, e me acompanham em todos os meus anseios.

Talvez me iluminem sempre.

Então volto refeita, qual Poeta alimentada de emoção, e escrevo…

Um dia, quando eu era ainda criança, encontrei uma caixa de madeira entre as flores de um canteiro. De imediato me encantei com aquele pequeno tesouro.

Me lembro que na tampa tinha o desenho de uma borboleta azul, já desbotado, e embora estivesse trancada, alguém tinha amarrado a chave na própria fechadura. Tudo isso me pareceu, naquele dia, um sinal de que o dono não se importaria que eu descobrisse o conteúdo, então a levei comigo.

Cheguei em casa com o coração aos saltos, apressada e ansiosa para me trancar no quarto e saborear a descoberta, longe dos olhos de qualquer pessoa que pudesse reivindicar o achado.

Dentro da caixa havia um par de óculos, de armação tão transparente quanto as lentes, muito leve e delicado. Ao coloca-los, tive uma surpresa: eles ficavam quase que invisíveis no meu rosto, e poderiam até passar despercebidos.

Durante o resto da tarde vaguei pela casa, esperando que alguém elogiasse meus lindos óculos transparentes. Ninguém parecia notá-los, mesmo quando eu sorria e piscava insistentemente.

Devo ter dormido com os óculos naquela noite, não me lembro, mas no café da manhã estava com eles sobre o nariz, feliz e confiante. Eu tinha desistido de mostrá-los à família, e como ninguém comentou, passei a acreditar que só eu os podia ver. E passei a usá-los o tempo todo.

Já no primeiro dia, descobri o efeito mágico daquelas lentes: eram capazes de me mostrar o que ninguém mais via – seres encantados, amigos de todas as crianças capazes de sonhar e viver fantasias não imaginadas pelos adultos.

A partir de então, meus dias tinham cor e magia.  Por onde andava, via seres fantásticos, que eu conhecia dos livros de histórias. No jardim conheci fadas agitadas, voando para cá e para lá, em suas tarefas com as flores. Neste sequer se importavam com os unicórnios, que pastavam a grama sem qualquer cerimônia. Ao ir para a escola, um dos gnomos sempre me acompanhava, e ia ditando palavras estranhas pelo caminho. Também conheci os minúsculos homenzinhos que moravam dentro da tomada de meu quarto, e se sentavam nos meus livros de colorir. Eram eles que escondiam os lápis e borrachas que nunca mais eram encontrados.

Tamyra era uma “elfa órfã”, que tinha se perdido dos outros enquanto atravessava a rua. Eu a escutei chorando, e a procurei durante uma manhã inteira, até acha-la encolhida em uma moita junto ao muro. Depois disso, nos tornamos grandes amigas, e ela dormia bem ao lado da minha cama.

Algumas vezes minha mãe entrava no quarto, ou interrompia nossas brincadeiras no quintal, e perguntava com quem eu conversava tanto. Minha mãe não tinha óculos como os meus, por isso não via nenhum dos meus amigos, por mais que eu explicasse para ela.

Vivi anos de encantamento. Todos os dias, logo ao acordar, colocava meus óculos e com eles ficava até o momento de deitar, para que pudesse ver todos aqueles seres lindos e amigos. Com eles aprendi todas as histórias e canções, e também as danças da primavera, que faziam brotar as flores que coloriam nosso jardim.

Mas à medida que ficava adulta, meus óculos mágicos iam ficando pequenos e apertados para mim. Até que eu já não conseguia usá-los, e por não ver os amigos especiais, as conversas e brincadeiras foram se acabando.

Com o tempo já não via as fadas, nem unicórnios ou os outros seres que eram meus melhores amigos.

Guardei os óculos na mesma caixinha de madeira, e a coloquei entre as fotografias de minha infância.

Em algumas manhãs, ainda escuto o bater de asas das fadas sob a minha janela, ou perco pequenos objetos no quarto, mas nunca mais vi meus amigos encantados.

Espero que ainda existam muitos outros, para que toda criança possa, mesmo que por apenas um tempo, ver o mundo com o colorido mágico, e ter amigos fantásticos, como eu tive.

 

O amigo

 

Depois de vários dias de chuva, aquela manhã nasceu luminosa e fresca.

Pude então sair de meu abrigo entre as folhas.

Me estiquei naquela claridade e deixei que o sol secasse meu corpo úmido, até que o calor me estimulou ao movimento, e saí para um passeio solitário.

Ainda era cedo, poucas pessoas passavam apressadas, me ignorando por completo. Atravessei o pequeno parque, cheguei ao velho banco de madeira perto da fonte, e fiquei por ali, vendo a grama verde e crescida.

Eu conhecia bem aquela região. Tinha crescido ali, e era capaz de identificar os moradores e seus hábitos diários. Um pouco antes da metade do dia, um movimento anormal, de pessoas indo e vindo, me conduziu até a última casa da rua. Chegava uma nova família, com muitos móveis, caixas e malas.

Nos dias seguintes, assim que acordava, eu voltava à casa, e em uma das pedras do jardim, esperava para conhecer meus novos vizinhos. Mas as portas permaneciam fechadas, apenas umas poucas janelas eram abertas, deixando que o vento agitasse cortinas brancas, e sons de falas abafadas chegassem ao exterior.

Foi então que, em tarde de calor, fui atraído para uma janela aberta no andar superior da casa. Pensei em chegar até o parapeito, rendendo-me à curiosidade. Com cuidado fui subindo pelos galhos da árvore mais próxima, até ficar frente a frente com as vidraças e poder olhar para o interior daquele quarto.

Um garoto, sentado e apoiado na janela, olhava fixo para o gramado do jardim. Era um olhar triste, pensativo, enquanto os lábios permaneciam cerrados e mudos. Ele não me viu a princípio, por isso me agitei e assobiei com energia.  Percebi o movimento lento das suas sobrancelhas, até que nossos olhares se encontraram, e a enorme surpresa que teve, quando bati as asas e fui até ele.

Nos tornamos amigos, com encontros diários e divertidos. Assim que amanhecia, eu voava até a janela, e esperava sua chegada. Aos poucos fui entendendo que ele vinha trazido pela mãe, que o acomodava em frente à janela, colocava uma manta em suas pernas, e abria os vidros, para que ele pudesse se sentir melhor e observasse o jardim. Depois do nosso primeiro contato, ele sempre trazia algumas sementes para me presentear, e ficávamos ali, um ouvindo o outro, até o sol esconder-se, e eu voltar para meu ninho de folhas.

Certa vez o convidei para irmos até o banco de madeira. Tive de descer e subir várias vezes, para que ele me entendesse, e por fim convencesse a mãe a leva-lo até lá. Sentado naquele lugar, ele tocava o gramado com os pés, podia ver de perto as lindas flores sob as janelas, e sentir o doce aroma das maçãs, acima de sua cabeça.

Esse passeio começou por ser frequente, e por fim se tornou diário para nós dois.

Para animá-lo, eu me escondia em diferentes lugares do jardim, e cantava alto, até ouvir a sua gargalhada infantil, indicando que sabia onde eu estava.

Fui, aos poucos, o apresentando a outros amigos: esquilos, outros pássaros, grandes borboletas, barulhentos grilos e cigarras.

Atraídos pela alegria do filho, em algumas tardes os pais do meu jovem amigo se juntavam a nós, traziam livros e cadernos de pintura e se sentavam no chão. Nesses momentos, eu os deixava e voltava para casa, feliz pela grande harmonia que nascia naquele lar.

Alguns dias atrás, o pai trouxe de presente um pequeno cachorro. Um animalzinho feliz, irrequieto, que pulava e mordiscava as perninhas do garoto, ganhando o coração de todos.

Agora já não brincamos juntos como antes. Vou diariamente até o jardim daquela casa, escolho um dos galhos e fico lá por um tempo. Meu amigo já não precisa tanto de mim, mas seu sorriso nasce fácil no momento em que começo a cantar, chamando todos os outros animais para brincarem com ele…

 

O Banho de Mar

 

O menino olhou para o mar, além da extensa faixa de areia da praia.

Já não era pequeno, mas aquela imensidão lhe pareceu desafiadora e inóspita.

Esperou, impaciente, a mãe abrir um tubo de protetor solar e aplicar o creme nos seus braços, rosto e costas.

Escutou, como todas as vezes, as recomendações quanto a força das ondas, a distância de segurança, e o tempo até a volta à sombra. A ansiedade era evidente: balançou os braços, desviou os olhos para o mar a todo instante, deu pequenos passos no mesmo lugar.

E quando a mãe sorriu e acenou com a mão, ele partiu em disparada.

Mas chegar ao seu destino não foi fácil. Nos primeiros passos sentiu que a areia quente queimava cruelmente os pequenos pés, e quando tentou correr afundou os tornozelos no solo fofo e traiçoeiro. Mas era corajoso e perseverante, por isso avançou sem olhar para trás.

Depois de vencer a etapa, parou por um instante e sentiu a brisa salgada e o ar úmido. Por um momento lembrou do pai, aconselhando-o a ser sempre cuidadoso. Pisou na areia molhada e começou a rir, antecipando a vinda da próxima onda. Ela veio com uma força inesperada, derrubando-o em meio a um turbilhão de sal, espuma e areia. Quando pareceu se afogar, levantou-se de pronto, e encarou a próxima. Apesar de resistir a princípio, foi novamente derrubado e jogado com força.

Daquela vez voltou à segurança da areia, fora da água, sentindo o joelho cortado por uma concha e o sal irritando os olhos e a garganta. Mesmo assim não desistiu, novamente avançou para água e se jogou na onda que se formava.

Mergulhou por alguns segundos e reapareceu um pouco adiante. Olhou ao redor, conferiu que tinha conseguido superar a primeira, e mergulhou novamente. Acenou para a mãe e mostrou, de longe, toda sua habilidade. Depois fez vários outros mergulhos, brincou com as ondas, e correu pela linha da água até se sentir cansado e faminto.

Voltou para perto da mãe falando sem parar e descrevendo as brincadeiras.

“eu adoro a praia, mãe, podemos voltar amanhã?”

A mãe o envolveu com a tolha, tirando o cabelo molhado daqueles olhos grandes e inteligentes. Sabia que ele não entenderia todos os seus sobressaltos, desde o momento em que ela o vira se arriscar pela areia quente e mergulhar no mar. Tinha assistido, fingindo estar lendo, ele se jogar nas ondas e comemorar cada vez que ficava de pé.

Algumas vezes tinha corrido assustada pela areia, contando mentalmente os segundos em seus mergulhos, temendo que ele se afogasse. Ao vê-lo em segurança, voltava ao seu lugar.

Sabia que ele tinha criado aventuras, se fazendo de mergulhador, herói e poderoso em lutas no mar bravio e ameaçador.

Mas, acima de tudo, tinha superado um medo inicial e tentara várias vezes até conseguir.

Voltara com mais segurança em si mesmo, e naquele momento esperava uma resposta.

“claro, filho, voltaremos amanhã !”

 

Estações

 

Gosto das estações de trem.

Me deixo ir por corredores, salões e plataformas, sentindo o piso liso sob os saltos e as correntes de ar, que entram pelas enormes janelas, tocando a pele do meu rosto.

Caminho sem pressa pelo terminal, ouvindo a voz que anuncia chegadas e partidas. Ela fala de horários e lugares que não consigo registrar na memória, pois minha atenção está sempre nas pessoas que vejo por ali.

Algumas passam com pressa, atrasadas na ida ou na volta, e mal me olham. Outras estão sentadas pelos bancos, cansadas pela espera. Umas poucas conversam nas bilheterias ou pedem informações com funcionários pelo salão. Vejo amigos compartilhando cafés em mesas ao redor dos quiosques, em frente à entrada principal. Ali também solitários leem jornais do dia, e pais tentam conter a agitação de crianças curiosas e impacientes. Nas plataformas vejo casais se despedindo com beijos e abraços intermináveis, mães chorosas e jovens empertigados com suas mochilas gigantescas.

Em meus dias de melancolia me sento no último banco da plataforma, com o corpo parcialmente escondido pelas sombras do túnel, e me imagino partindo naqueles vagões. Nunca penso qual seria o destino, me basta partir.

Mas tenho também dias de alegria, em que aceno feliz para os rostos desconhecidos que vejo nas janelas dos vagões que partem. Gosto das expressões de surpresa, e eventualmente gestos em resposta. São amigos que ganhei e perdi no mesmo instante, não importa.

As estações possuem ritmo próprio, estão vivas, e me contam histórias.

 

 

A Colecionadora de Pedras

 

Ela colecionava pedras.

Começou a juntá-las ainda na infância, quando se sentava na calçada em frente da casa, para brincar com as amigas um jogo alegre, em que as pedras eram lançadas para o alto e acolhidas nas mãos. Para o jogo, eram necessárias cinco pedras, tamanho mediano, e que se acomodavam nas pequenas mãos, apesar da rapidez dos gestos. Ela sempre tinha as melhores pedras, escolhidas entre as muitas que encontrava.

Com o passar dos anos habituara-se a sempre acrescentar mais uma à coleção, que guardava em nichos pelo quintal, entre vasos de flores ou em cantinhos especiais pela casa.

Dizia que não as escolhia pelas cores, ou pelos tamanhos, ou ainda pelos formatos. Eram selecionadas pelas histórias que contavam, mas que somente ela conseguia escutar.

Sendo assim, mostrava as que tinham vindo de riachos, com suas formas arredondadas e lisas. Explicava como tinham sido carregadas por correntezas, e as águas, por anos e anos, as tinham polido até serem encontradas e admiradas.

As pontiagudas protegiam e sinalizavam onde o homem não deveria pisar, dizia. Dessas tinha poucas, preferia deixá-las onde a natureza as colocara.

Gostava daquelas brilhantes, que sempre guardava onde poderiam ser vistas também durante a noite. Para isso tem tantos reflexos, explicava. As escuras, opacas, eram amontoadas perto de plantas pequeninas e frágeis, “para que possam sustentar raízes”, mostrava.

Mas se alguém pedia que ela escolhesse uma, apenas uma entre todas, seus olhos buscavam uma pequena cesta de palha, onde guardava pedregulhos de todas as cores, encontrados em diferentes lugares. De lá tirava uma pedra com contornos simétricos, incrivelmente esculpidos pelas águas de um rio da redondeza. Passava os dedos pela sua superfície e a mostrava na palma da mão. Tinha o formato de um pequeno pássaro com as asas abertas, e fora encontrada na margem, sobre a areia. Depois de um minuto de reflexão, ela explicava: “não sei dizer se foi um passarinho que virou pedra ao cair no rio, ou se foi uma pedra, que com o movimento das águas e reflexo do céu, se transformou em pássaro para voar…”

 

A senhorinha e as colchas de retalhos

 

Todos na cidade conheceram a história daquela senhorinha.

Contava-se que nascera em família abastada mas depois de recusar um casamento arranjado entre famílias, tinha preferido viver de forma mais simples, na pequena casa próxima ao rio.

Depois disso, fora professora por muitos anos, e pelas suas mãos de mestra tinha passado a da maioria das crianças da pequena cidade, e com isso acabara se tornando uma espécie de “conselheira”, que recebia a todos sempre com um sorriso amável e acolhedor.

Quem passava pela estreita rua de pedras, fosse em dias de chuva ou de sol, podia vê-la sentada na velha cadeira de balanço da varanda, costurando colchas de retalhos com grande habilidade.

Algumas vezes um antigo aluno, já um adulto, vinha cumprimenta-la. Chegava e sentava-se perto dela, no degrau de entrada, e começava a falar da própria vida. Ela ia assentindo com a cabeça, murmurando para que ele “seguisse o coração” ou, dependendo do assunto, que “deixasse nas mãos de Deus”.

Muitas moças vinham pedir conselhos para corações partidos e desilusões de amor. Ela ouvia quieta, olhos baixos na costura no colo, até que tudo fosse revelado e as lágrimas esgotadas. Então se levantava, buscava xícaras de chá bem doce, e iniciava uma conversa sobre o poder de cuidarmos de nossas próprias feridas, até se tornarem pequenas cicatrizes e serem esquecidas.

Outras vezes, mães traziam seus filhos pequenos e os colocavam em seu colo. Pediam uma “benção” de saúde, ou contavam proezas que a faziam rir espantada, e os abraçar como se fossem netos queridos, ou filhos que nunca tivera.

Embora muito querida, poucos visitantes chegaram a observar melhor os delicados trabalhos de costura feitos por ela. Por isso não viam a exatidão com que ela cortava cada retalho, depois de uma escolha entre os tecidos separados e guardados segundo uma lógica só dela, e que ia muito além da mera seleção de cores e padrões.

Assim, nunca souberam que cada colcha de retalhos contava uma parte de sua história, e que aquela tinha sido a forma que escolhera para retratar seu passado, e as emoções vividas ao longo dos anos. Ela guardava suas memórias costuradas e bem dobradas, transformadas em uma forma especial de livros, que só ela interpretava.

Em uma das primeiras, feita quando ainda era menina, via-se uma mistura de tecidos alegres: pequenos animaizinhos, flores e frutas nas estampas que escolhera junto com mãe, enquanto aprendia a costurar. Dessa época tinha outras em diferentes tamanhos, todas retratando algo de particular através dos desenhos e cores.

Em uma outra, tons cinzas e desenhos apagados registraram o ano em que perdeu os pais, e a lembravam dos longos meses em vigília ao lado de camas de hospital, em que só a costura lhe deu esperanças.

Uma das prediletas, guardada com carinho em um armário, fora feita com retalhos de tecidos presenteados pelas crianças da escola, e que era uma mistura de desenhos de flores, de todas as cores e formatos.

Junto dela, uma outra inacabada, pois a alegria com que começara, vista na escolha por estampas com corações e rosas, se desfizera com a partida de grande amor.

Ela nunca tinha pensado em se desfazer das colchas, e sempre que terminava uma, a dobrava e guardava com carinho, como a um livro escrito com muito esforço e sentimento, e que ninguém chegaria a ler.

Essa doce senhora ainda vive, e embora mais lentamente, continua a costurar seus retalhos e dar os seus conselhos.

Velha aluna, ainda ontem a visitei e pedi que me abençoasse. Senti nas suas mãos trêmulas uma fé inabalável, e as beijei em sincero agradecimento ao me despedir.

Quando saía, toquei a colcha quase terminada em seu colo, e observei que era de retalhos com desenhos de nuvens brancas, em um céu azul límpido e claro.

 

Infância

 

Ela era ainda muito nova, quando seus pais perceberam seu temperamento audacioso e a mente inquieta.

Única menina entre quatro irmãos, surpreendia a todos quando abandonava as delicadas bonecas, presentes caros que recebera, e corria pelo quintal em barulhentas brincadeiras com os irmãos. Sem sentir medo, subia até os últimos galhos das mangueiras, e trazia consigo doces frutos para ofertar à mãe.

Outras vezes saía a perseguir calangos, para transformá­los em seres mágicos, com quem conversava por horas, antes de soltá­los no jardim.

Algumas vezes voltava para casa com cicatrizes dolorosas: sinais de quedas ou aventuras pela vizinhança. Nessas ocasiões, ouvia de cabeça baixa as infindáveis recriminações dos pais, e aceitava sem rancor o castigo imposto: dias sem sair de casa, em que ficava à janela olhando o jardim.

Mas depois de algum tempo, durante uma tarde com o pai, bastava que o envolvesse pelo pescoço e prometesse se comportar, para que ele cedesse às suas vontades, e de novo a libertasse para o sol do quintal, e inúmeras brincadeiras que aquele ambiente proporcionava.

Até que um dia, a idade de estudar chegou, e os pais decidiram que a menina de cabelos desalinhados, joelhos marcados e sujos, iria, como todas as meninas na época, para o colégio interno. Nem mesmos as lágrimas derramadas, e o pavor estampado nos doces olhos da criança, foram capazes de comover a família.

Quando partiu, deixou para trás todos os sonhos e fantasias infantis, e enfrentou com um mínimo de coragem a nova vida que lhe foi apresentada.

Trocou o quintal pelas salas de estudo, e as brincadeiras pelas orações e tarefas da escola. Aos poucos deixou de lembrar do pomar, dos pequenos animais e as corridas com os amigos. Se esqueceu das flores que colhia e prendia nos cabelos, e da fonte do jardim, onde se sentava e mergulhava os pés na água fria.

E quando, por fim, voltou, já mulher feita, andou pela casa à procura de lembranças. Visitou os quartos, abriu janelas e gavetas à procura de antigos objetos.

Ao fim do dia se sentou perto da janela, e abrindo um pequeno caderno que trouxera consigo, começou a escrever. Contou a história da menina que amava a liberdade e o sol no rosto, e vivia em um quintal encantado, de onde não precisava sair nunca, e onde estavam todas as alegrias que uma criança devia viver.

 

Fotógrafo ou Poeta

 

Eu o vi a caminhar pela praia.

Não olhava apenas para o mar, mas também para a areia, e as nuvens estavam refletidas nos seus olhos como eram vistas no céu, nos braços do vento.

Talvez fosse fotógrafo, ou poeta, pois registrava detalhes que outros não viam.

Seus olhos descobriam cores e nuances, e seus dedos percorriam com carinho todas as formas e tamanhos que encontrava.

Seguia contando histórias embriagadas de doce melancolia,e sua voz pairava no ar por um momento apenas, antes de ser diluída pela brisa.

Fazia paradas, erguia os olhos para o céu, e acompanhava admirado o voo sem limites das gaivotas.

Parecia caminhar sem destino, mas no fim de cada dia voltava ao seu lugar, ese entregava à dor de tudo ver e tudo sentir, deixando que lágrimas caíssem de seus olhos exaustos.

Nessas horas, não reclamava dos pés feridos por longas caminhadas, mas da rapidez com que os dias chegavam ao fim.

Para que nada se apagasse, escrevia poemas, de todos os olhares que o mundo lhe dera.

 

Colorindo o mundo

 

Um dia, o mundo amanheceu todo cinza e triste. As árvores, as casas, as ruas e os carros, todos ficaram da cor cinza. Parecia que o sr. Vento tinha soprado pó de cimento sobre todas as coisas.

Quando a menina acordou, olhou pela janela e ficou assustada por ver o mundo tão feio.

Então perguntou para o sol o que devia fazer, mas o sol era apenas uma luzinha amarela, muito fraquinha no céu cinzento, e respondeu­lhe com uma voz baixinha, vinda lá de cima dizendo:” Ah, menina, você tem pintar o mundo de novo!”.

Ela apressou­se para lavar os dentinhos, o rosto e, ainda antes de comer e ir para a escola, quis deixar o mundo bonito outra vez.

Buscou dentro da gaveta da sua mesa do quarto a caixa de lápis de cor, foi à janela para ver bem como era o mundo, voltou para a mesa e desenhou tudo numa folha de papel. Depois começou a colorir o mundo.

Fez a casa da frente azul outra vez, e a sua boneca voltou a ter cabelos vermelhos como tinha antes do mundo mudar de cor. Também pintou bem branquinho, como um floco de neve, um cachorrinho vira­lata que sempre passava muito sujo, para parecer que tinha tomado banho. Assim, talvez mamãe a deixasse trazê­lo para o quintal e brincar com ele.

Depois foi pintando as árvores, os carros de todas as cores, as flores dos jardins, uma de cada cor, o céu de azul muito bonito, e o sol de amarelo muito forte e brilhante, como era antes.

E tudo o que a menina desenhava no papel, ia mudando lá fora na rua, deixando de ser cinza e ficando colorido como no desenho. Mas logo a menina ficou muito cansada, porque o mundo era muito grande e tinha muitas coisas para pintar. Ela tinha de ir para a escola, já estava atrasada e não podia pintar mais.

E ela chorou, chorou, até aparecer uma borboleta mágica, que voava para cá e para lá, e que tinha todas as cores do mundo reunidas nas suas asas.

“Voa comigo, que eu te ajudo a pintar!”, disse a borboletinha.

“Mas eu não posso voar”, lamentou­se a menina.

Foi então que a borboleta teve uma idéia: bateu as asas rapidinho, para chamar todos os animais do jardim. Logo chegaram o esquilo serelepe, a abelha zum­zum, os passarinhos piu­piu e as lagartixas corre­corre. O último a chegar foi o cágado molenga, muito dorminhoco, que de vez em quando parava, encolhia as patinhas para dentro da carapaça, escondia a cabeça e tirava um cochilo.

Foi uma confusão na janela, porque todos queriam entrar no quarto, e falavam todos ao mesmo tempo. A menina, coitadinha, não sabia o que fazer.

Como ninguém escutava, ela subiu em cima do banco de pedra e começou a gritar: “atenção, atenção”, e quando todos fizeram silêncio, a dona Coruja sabe­tudo, que era a mais sábia, lá do alto da árvore, explicou como fariam para ajudar a menina a pintar o mundo. Distribuiu tarefas a todos e explicou que, se todos fizessem a sua parte, o mundo ficaria bonito outra vez.

“Você, abelha, chama todas as suas irmãs para irem pintar todas as flores, porque vocês já voam sempre, de flor em flor, vai ser muito fácil, não é? E vocês conhecem todas as cidades e são muito rápidas. Para você lagartixa, vou pedir que pinte os muros, as paredes das casas e as ruas.”

O esquilo logo se adiantou: ” e eu? e eu?” . “Você, meu amiguinho, vai pintar os troncos das árvores e todos os lugares onde conseguir entrar, porque você é muito esperto!”.

Sem nem precisar mandar, os passarinhos já foram pegando os lápis com os biquinhos e bateram as asinhas voando para colorir as folhas das árvores e as nuvens, lá no alto, onde só mesmo os passarinhos chegam.

A menina correu para a escola, aflita porque já estava atrasada e nesse dia havia coisas muito bonitas para aprender.

Mas os animaizinhos continuaram a colorir o mundo.

E assim foi o dia inteiro. Pintaram, pintaram, até tudo ficar colorido de novo.

E quando o sol já estava se recolhendo, amarelinho que era uma beleza de ver, a menina chegou da escola e deitou­se no gramado verdinho, feliz por tudo estar tão bonito. Olhava o céu, as nuvens branquinhas, as flores em redor, quando uma vozinha baixinha e arrastada a chamou:

“Ei cuidado comigo!”

A menina levou um susto e procurou no meio da grama quem estava gritando. Era a joaninha pequenina, tão vermelhinha de bolinhas pretinhas, debaixo da folhinha de grama.

“Você? Desculpa, não estava te vendo, amiguinha. Suba aqui no meu braço para eu ver como são lindas as suas cores.”

A joaninha veio depressa e subiu, e fez questão de contar: “quem me pintou foi cágado molenga, com um pincel bem pequeninho”

“você ficou bonita!”

Aos poucos os animais foram chegando e sentando perto da menina e da joaninha, para descansar.

O mundo já estava todo colorido de novo.

O jardim ficou cheio de flores, com som de abelhas e passarinhos, e os esquilos pulando por todo lado.

Só quem ainda trabalhava era a borboletinha. Pousada numa caixa de lápis, ela sacudia as asinhas e coloria cada um deles, para que depois pudessem pintar todos os desenhos que as crianças fazem.

 

Amigos – parte I

 

Era um dia quente, e o sol forte tornava ainda mais cansativa a tarefa de Bento. Dirigindo o trator, em lento vai e vem, ele sentia o suor lhe banhar o rosto, enquanto arava o solo fértil e promissor da sua fazenda, à margem do rio.

Trabalhava sozinho, concentrado, sem se importar com mais aquele domingo sem descanso. Não queria atrasar-se, para que a terra já estivesse pronta quando a primeira chuva caísse, então ele poderia se sentar na cadeira da varanda e assistir, tranquilamente, o brotar da plantação, resultado do seu esforço.

Tinham sido anos de muita dedicação, desde que usara todas as usas economias para comprar aquela fazenda. José Pedro, seu amigo, a tinha recebido de herança dos pais, e logo no mesmo mês se propusera vende-la, em troca da liberdade de partir para cidade grande, e deixar a pequena cidade do interior.

Depois do negócio feito, ele correra pela estrada de terra até a fazenda vizinha, ansioso para contar à companheira de infância, mas ela também partira e ele ficara ali, mudo de tristeza e com o coração partido.

A grande decepção o tornara mais resistente e forte, com o coração fechado para qualquer sentimento que não fosse a vontade de trabalhar a terra, e faze-la produzir cada vez mais. Evitava outras companhias, e só procurava os vizinhos quando necessitava de alguma ajuda nas mais tarefas difíceis da fazenda. Aos poucos, esses contatos também deixaram de acontecer, já que os nomes dos antigos amigos eram sempre mencionados nas conversas pela cidade, e então ele logo se afastava.

A amizade entre os três tinha começado na infância, nas brincadeiras nos pomares, nas aventuras pelas ruas da pequena cidade, nas salas de aula que compartilharam, e nas longas conversas, à margem do riacho da região.

Nas fantasias infantis, cada um era seu próprio herói: José Pedro seria um doutor muito rico, que teria um carro grande e brilhante, e viajaria de avião pelo mundo, para ajudar as pessoas de todos os lugares.

Bento planejava ter a maior fazenda da região, com plantações a perder de vista e uma casa muito bonita, onde viveria com a moreninha mais linda do mundo: Rosinha.

Já ela, sem saber dos planos do amigo, sentada no balanço e trançando os cabelos com ar sonhador, imaginava os lindos vestidos que iria vestir, no palácio em que viveria com seu grande amor, que a levaria para a cidade grande, em algum dia de verão, no futuro.

Eram lembranças que acompanhavam Bento havia muitos anos, e tinham feito dele um homem calado, mas sensível e solidário.

Depois de algumas horas, desligou a máquina e caminhou na direção do rio, na intenção de se lavar na água límpida e fria. Junto da cerca parou surpreso: perto dali, aproveitando a sombra da mangueira junto ao riacho, Zé Pedro pescava tranquilo.

Bento não se aproximou. De longe observou as roupas de bom corte, os sapatos mais finos e a expressão de prazer daquele amigo que nunca mais mandara notícias, mas que agora continuava parecendo inteiramente à vontade naquele lugar que frequentavam quando eram meninos.

Olhou para suas próprias mãos empoeiradas e calejadas, as botinas gastas e sujas, e se escondeu. “Ele agora é um rico da cidade, não precisa trabalhar como eu e pode se divertir o dia todo”, pensou.

Tímido como sempre, retornou ao trator, antes que o outro o visse e percebesse que mesmo sendo o dono da terra, ele nunca tinha sido feliz. O trabalho não lhe trouxera o que mais desejara em todos aqueles anos.

Ao subir no trator, estava profundamente emocionado. Uma dor atingiu-o no peito, e percebeu que caía sobre a terra que tanto amava. Perdeu a consciência sabendo que não tinha medo de morrer ali.

Zé Pedro, no entanto, sem ver o amigo, sentia uma alegria genuína, pescando como fazia na infância. Nos últimos meses vivia em constante tensão, à procura de trabalho, para que pudesse manter a família. Tinha passado por outras cidades, mas acabara propondo à Rosinha que voltassem ao lugar onde tinham crescido, e tentassem retomar suas vidas.

Durante todo aquele dia havia percorrido a fazenda que fora sua, mas sem coragem de procurar o velho amigo. Como iria contar a ele dos gastos impulsivos, que tinham acabado com tudo que ele levara? Deslumbrado com a cidade grande, tinha deixado de lado os estudos e o sonho da medicina, vivendo de empregos temporários, ganhando pouco e com muitos gastos, até que todo dinheiro acabara.

E como falaria de Rosinha, que fora o amor secreto de ambos? Ainda se lembrava do dia em que lhe mostrara o dinheiro recebido pela venda da fazenda, e lhe fizera o convite de leva-la junto com ele para longe. Intencionalmente, não lhe dera tempo para pensar melhor, desenhando o sonho de uma vida nova e confortável para ambos. Quando ela mencionou o nome de Bento, ele disse que já tinha se despedido   e não o veriam de novo.

Ela acreditara e tinham sido felizes por um tempo. Mas depois de tantas dificuldades, aceitara voltar. Tinha a esperança de um recomeço ainda incerto, e quem sabe um lugar para morar, mas perdera o sorriso junto com os sonhos. Passava os dias cuidando do filho pequeno, Antonio, e a possibilidade de cria-lo onde ela mesma fora criada, mesmo sem luxos, já não lhe soava tão ruim.

Com esses pensamentos, Zé Pedro ficou por ali mais algum tempo, até que a proximidade do fim do dia o alertou para voltar. Ao se levantar, porém, uma cena lhe chamou à atenção: o trator, ainda ligado, continuava parado no meio do terreno. “Algo está errado”, pensou. Sem saber explicar porque, correu até lá, sentindo o coração acelerado e preocupado.

Encontrou Bento desmaiado, muito pálido naquele chão revolvido e seco. De imediato trouxe uma água fresca, que ofereceu ao amigo, chamando-o insistentemente sem conseguir reanimá-lo.

Sem perder tempo, levantou o amigo nos ombros e com dificuldade o levou até a casa, pedindo a um vizinho que passava para que trouxesse o médico da cidade.

Nos dias que se seguiram, enquanto Bento se recuperava, Zé Pedro trabalhou a terra sem descanso. E quando por fim as chuvas chegaram, ajudou o amigo a chegar até a varanda, e juntos contemplaram o serviço pronto.

O reencontro trouxe uma vida nova aos três amigos. Depois de um abraço contido, abriram o coração para a antiga amizade.

Zé Pedro aceitou com humildade o emprego que Bento lhe ofereceu, e ambos passavam os dias nos trabalhos da fazenda. Juntos também reformaram uma pequena casa na cidade, para que o casal morasse até poder comprar uma outra.

Rosinha fazia e vendia doces para a quitanda, e aos poucos refez amizades pela cidade. Nunca soube dos sentimentos do Bento no passado, e sentia enorme gratidão pela ajuda do amigo. Trocara os sonhos adolescentes pela vida de esposa e mãe, e se divertia contando ao filho as aventuras dos três amigos na infância.

Aos domingos, ela preparava uma cesta com bolos e frutas, e junto com Zé Pedro e o filho se encontravam com Bento sob a velha mangueira à beira do rio. Lá colocavam uma manta sobre o capim e faziam um piquenique que durava a tarde toda. Enquanto os homens pescavam, Rosinha colocava o pequeno Antonio no antigo balanço e o ensinava a brincar.

Foi em uma dessas tardes, que anunciaram a Bento que seria o padrinho do garoto, selando uma amizade que tinha sido capaz de resistir ao tempo e às desventuras da vida…

 

Amigos – parte II – Rosinha

 

O nome era Rosa, ou Rosinha, como todas a chamavam. Tinha sido escolhido pelos pais, ambos professores na única escola da pequena cidade, antes mesmo do nascimento.

Menina franzina de pele muito clara, crescera entre livros e cadernos e, contavam os pais, aprendera a ler e escrever sozinha, sentada em um banquinho no canto da sala de aula da mãe.

Enquanto crescia, observou que nem todos os amigos se interessavam pelas histórias fantásticas que ela aprendia com o pai, ou pelos contos de fadas que ouvia da mãe antes de dormir. Se acostumou a brincar sozinha, recitando falas de personagens dos livros que lia em casa, ou se sentando no balanço à beira do rio, cantando canções que ela própria criava.

Na escola fez amizade com Zé Pedro e Bento, os únicos que não a mandavam “brincar com as outras meninas”, e ouviam com atenção as incríveis aventuras de Dom Quixote que ela contava. A caminho de casa, se divertiam com adivinhações e imitações que faziam das pessoas que conheciam.

Quando Bento contou que um dia seria um grande fazendeiro, ela o incentivou, descrevendo tudo que ele seria capaz de possuir: muitas terras, rebanhos e plantações. Mostrando maturidade, o aconselhou a economizar e trabalhar muito, para um dia ter tudo aquilo que queria. Da mesma forma, ouviu com atenção os planos de Zé Pedro, que pretendia ser médico, e teria que estudar bastante e viajar para cidade grande. De seus próprios sonhos, falava pouco.

No último ano da escola, uma tristeza a invadiu. Para continuar os seus estudos, teria que se mudar para a cidade grande, o que naquela época era inviável para sua família, e inaceitável para a maioria dos pais das moças de sua idade. Como não podia ir, teria que renunciar a tudo que queria conhecer e aprender. Então, e para fugir dessa realidade, passou a criar fantasias românticas, em que sua espera seria recompensada por um personagem salvador, com quem ela iria para bem longe.

Nessa mesma época os pais de Zé Pedro morreram, deixando a grande fazenda como herança. Logo após o velório, o amigo lhe confessara que chegara o momento de partir e a convidara a acompanha-lo. Surpresa e insegura, levara pouco tempo para consultar os pais e pedir a benção, prometendo que se casariam na primeira cidade, e, quem sabe, voltariam depois de algum tempo.

A partir de então, a vida de Rosinha se transformou. A cidade grande a envolveu, com suas ruas cheias de gente, lojas e carros. Sem preocupação, deixou que Zé Pedro conduzisse todas as ações:  permitiu que ele adiasse a procura de uma casa, e se hospedarem um bom hotel. Ele deixara os estudos para o ano seguinte. Tinham se divertido e comprado roupas, sapatos e muitos artigos com que sempre sonhara.

Também o casamento ficara adiado, ao contrário do que tinha prometido aos pais. Tudo que se referia à antiga vida, aos poucos fora ficando no passado. As ligações telefônicas aos amigos e mesmo aos pais foram se tornando raras até que, dois anos depois, soubera por acaso da morte de ambos.

Levaram uma vida de diversões por quase três anos, e então o dinheiro acabou. Zé Pedro mudava frequentemente de emprego, procurando assegurar a condição de vida de ambos.

Ela, que nunca trabalhara, e estava despreparada, passava os dias no pequeno apartamento que tinham alugado depois de abandonarem o hotel, relendo antigos livros e assistindo filmes na televisão. Em meio à crise, percebeu que estava grávida.

Depois de uma gravidez com problemas, o filho nasceu em uma noite quente, de um parto difícil e doloroso. Rosinha o chamou de “Antonio”, mesmo nome de seu pai.

Nos anos seguintes, ela se dedicou integralmente ao filho. E quando ele já tinha idade para entender, ela lhe falava da própria infância no campo, das brincadeiras, no rio e dos amigos. Algumas vezes, Zé Pedro a escutava calado, sentado no canto da sala, com o olhar perdido em suas próprias lembranças.

Nas poucas horas que tinha para si mesma, visitava um pequeno parque próximo, onde se sentava à sombra das árvores, com um dos antigos livros do pai. Refletia sobre o rumo que tinha dado à sua própria vida, e o fim dos seus sonhos juvenis. Ela e Zé Pedro pouco falavam sobre Bento, mas ela sabia que ambos sentiam saudades.

Quando Antonio completou 5 anos, Zé Pedro propôs que voltassem à cidade natal. Naquele dia ela concordou com um aceno da cabeça, olhos fixos no companheiro e o coração angustiado. Sabiam que seria mais do que um regresso. Podiam ver nos olhos um do outro os arrependimentos, e que agora enterravam sonhos.

Um mês depois, juntaram o pouco que tinham e partiram. Ao avistarem as primeiras casas da cidade, deram-se as mãos comovidos. Rosinha já se sentia madura e consciente que naquele lugar iria criar seu filho, onde continuava sendo a sua terra. José Pedro, por sua vez, aprendera muito com os erros, e dentro de si sentia enorme vontade de recomeçar.

Ao chegar, não procuraram Bento. Sabiam onde encontra-lo, mas preferiam se acomodar primeiro, antes de visita-lo e apresentar o filho. Rosinha lamentava agora não ter se despedido do amigo de infância, e tinha receio que a antiga amizade já não existisse.

Ela sabia que Zé Pedro costumava andar pela antiga fazenda, e pelos lugares que conhecia tão bem, mas quando, certa tarde, lhe avisaram que algo tinha acontecido a Bento, ela teve certeza de que os dois estavam juntos. Sabia que o marido se preocuparia com o amigo, e faria qualquer coisa para ajudá-lo.

Nos dias seguintes, assim que acordava e vestia Antonio, caminhavam até a casa da fazenda de Bento onde Zé Pedro tinha passado a dormir, esperando que o amigo se restabelecesse. Durante todo o dia se empenhava nos afazeres da casa, no preparo das refeições e nos cuidados das roupas do enfermo. O marido cuidava dos trabalhos na fazenda, e todos os dias parecia mais animado com os resultados.

Quando Bento passou a caminhar, e se sentar com Zé Pedro na varanda, nos finais de tarde, ela chegava e se juntava a eles. Não falavam muito do período em que tinham estado distantes, mas das lembranças da infância, e de aventuras compartilhadas. Aos poucos estabeleceu-se uma rotina na vida dos três, e quando Bento ofereceu um emprego a Zé Pedro este aceitou de imediato.

Foi Bento também que a apresentou aos donos da quitanda na cidade, recomendando que comprassem os doces bolos feitos por ela. Com o emprego e novas amizades, Rosinha voltou a sorrir e a tecer planos, sentia-se querida e importante. Sempre que conseguia juntar umas economias, encomendava alguns livros ao comerciante que sempre ia à cidade. Ler continuava sendo seu maior prazer, e agora também fonte de muitas informações na sua nova vida.

No último domingo, preparou uma grande cesta com guloseimas para o piquenique à sombra da mangueira, e quando Bento se sentou ao seu lado, com Antonio no colo, fez o convite para que o amigo batizasse o filho. Percebeu que ele segurava lágrimas, embora abrisse um largo sorriso, mas não perguntou a razão. Eram amigos novamente.

 

Lição de Borboleta

 

Chego e fico a observá-la enquanto vai revolvendoraízes e folhas entre os dedos.

Cercada de flores, como crias suas, ela trama arranjos e marca o tempo.

Parece perdida em pensamentos para si mesma, por isso permaneço borboleta, disfarçada entre folhas.

Vejo que murmura cuidados, e junta a eles o perfume de uma recém nascida orquídea, como um doce feitiço para diluir no ar.

Da perseverança da mulher, à resistência da planta, não existe pressa, pois a natureza tem seu próprio ritmo, e para cada flor um único cuidado.

E quando a chamo, batendo asas, “mãe!”, no levantar de olhos e abrir do sorriso, aprendo mais uma lição:

Boas lembranças são flores que precisamos cultivar sempre, para  que o mundo mantenha  esse cheiro de mãe-jardineira…

 

Baião

 

Meu pai gostava de dançar o baião.
Assim que a música começava, sempre Luiz Gonzaga, ele se levantava e me estendia a mão, em convite.
Embora eu já soubesse de cor todas as instruções, ouvia com alegriaenquanto dançava: “arrastando os pés, vamos lá”.

Ele cantava baixinho, acompanhando o cantor, e muitas vezes eu fui a testemunha daqueles olhos marejados…
“por farta d’água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão”…

A saudade não tem ritmo.

É impossível acompanha-la, ou se alegrar com ela.

E hoje, sem meu par, deixei de dançar o baião.

Penso que ele está lá, cantando enquanto me vê:

“…então eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração…”

 

O Passeio

 

Assim que amanheceu, depois de tomar o café forte e sem açúcar, pegou o velho chapéu de couro e desceu pelo pomar, até o velho paiol. Encontrou facilmente o laço de corda, que jogou por sobre o ombro e tomou o rumo do pasto, à beira do pequeno riacho. Os dois cães o seguiram, acostumados ao significado do assobio do dono, sempre que tomava aquela direção.

Voltou meia hora depois. Trouxe consigo a égua Paloma, a mais mansa da fazenda, e a prendeu com a corda no tronco da grande mangueira do quintal.

Estudou o céu claro de domingo. “Manhã de Deus, o menino vai gostar”, conversava com si mesmo.

Começou a rotina que conhecia bem, de escovar e preparar o animal para montaria. Ele mesmo a tinha adestrado, desde potrinha nova, e tinha com ela uma atenção especial. Poucos sabiam que a égua tinha nascido no mesmo dia que seu primeiro neto, e por isso tinha sido escolhida para ser  sua  primeira montaria hoje, no aniversário de 5 anos. Tinha o pelo castanho e brilhante, crina comprida quase dourada, e quando corria pelo campo era vista de longe, por causa das patas brancas que se destacavam no verde do chão.

Depois de escová-la, colocou a manta grossa e prendeu bem a sela . Tomou cuidado em colocar os arreios, e também em regular a altura certa dos estribos, para que os pequenos pés do garoto tivessem apoio e segurança. “Vê como se comporta, viu Paloma?”, falou alto. Paloma balançou a cabeça em resposta, mostrando os olhos vivos e brilhantes, como se entendesse a importante missão do dia.

Pouco tempo depois, viu o neto chegar. Vinha de mãos dadas com a mãe, falante e alegre, entusiasmado com a grande aventura.  Apesar de tão pequeno, vinha vestido com camisa e calças compridas, botas até o joelho e um belo chapéu. “Parece um cowboy”, pensou o avô. Tinha no rosto um sorriso contagiante, próprio das crianças. Ao ver a montaria preparada arregalou os olhos, e instantaneamente procurou os braços do avô.

Ele o recebeu no colo com carinho, e chegando bem perto da cabeça de Paloma, pediu que o menino conversasse antes com a égua, e lhe fizesse um carinho, pois assim ficariam amigos. Também o lembrou de tratá-la sempre bem, para que ela o levasse em segurança. Receoso a princípio, mas confiante no avô, o garoto afagou a crina, e a cabeça do animal. “Agora monte, mocinho!”.

Saíram pelo quintal, avô na frente puxando o cabresto, e o neto firme e corajoso sobre a Paloma. Conversaram sobre cavalos e meninos. O neto ficou sabendo que cavalos eram fortes e inteligentes, e podiam correr pelo campo. “Igual na televisão, vovô?” “Sim, igual na televisão”. Também aprendeu que bastava bater com as perninhas, e a égua acelerava o passo, ou então, se puxasse as rédeas, ela parava de imediato.

As perguntas não tinham fim, e a cada resposta do avô um mundo fantástico era descoberto pelo neto. Ali, no alto da montaria, já tinha esquecido dos desenhos animados e jogos eletrônicos, e aprendia com o avô uma nova linguagem: “eia Paloma, upa, upa…”.

No fim do passeio, antes de descer, o garoto enlaçou o pescoço da égua: “obrigado Paloma, você me carregou direitinho!”. Ao avô, deu uma recomendação: “quando você estiver com saudade, é só pedir para a Paloma te levar correndo pra me ver…”

Mais tarde, levando a égua de volta ao pasto, o homem foi pensando nas grandes alegrias que tivera naquele dia. Ensinara ao neto coisas simples, aprendidas ao longo da vida, e então o escutara rindo.

Nada se igualava à risada de uma criança montando o seu primeiro cavalo …

 

O velho

 

Eu acabara de abrir o meu novo livro, disposta a ler enquanto esperava o trem, quando o velho senhor sentou ao meu lado. Eu já o tinha visto no lado oposto da plataforma, e havíamos trocado um cumprimento. Observei que ele tinha uma dificuldade para se locomover e sentar, talvez pela idade, por isso abri um sorriso e lhe estendi a mão para ajudar.

Ele tinha um sorriso tímido, mas os olhos brilhavam. Depois de um minuto em silêncio perguntou meu nome, e o que eu fazia ali. Escutou balançando a cabeça, e começou a me contar sua história.

Tinha vindo encontrar o filho único, que partira da cidade pequena para estudar. Se passaram vinte anos, sem qualquer notícia, até receber o chamado para visita-lo.

Me contou que o convite veio através do recado de um parente que morava em uma cidade próxima, já que onde vivia não tinha sequer rede elétrica ou telefônica, e mesmo cartas não eram entregues pelos correios. Tinha viajado durante toda a noite, e deveria esperar mais algum tempo até a chegada do filho.

Perguntei-lhe se reconheceria o filho, depois de tanto tempo. Ele pensou um pouco antes de responder, como se não tivesse pensado na possibilidade:

“meu coração vai reconhecer, com a ajuda de Deus”

Ele segurava uma mala pequena, que não abandonou nem mesmo quando busquei cafés e retomamos a conversa.

Falou do seu garoto magro e sério, sempre carregando os cadernos da escola por onde ia, mostrando aos amigos o que aprendera naquele dia. Um dia chegara acompanhado da professora, e ambos explicaram a oportunidade oferecida pelo internato em uma cidade longe dali. Não custaria nada, mas ficariam muito tempo sem se encontrar.

O tempo foi muito maior do que ele imaginava. Depois da escola veio um trabalho ainda mais longe do lugar, e algum tempo depois deixou de receber notícias. O filho não soube da doença e morte da mãe, e nem mesmo do ferimento que o pai sofreu em ambas as pernas enquanto trabalhava na roça.

O velho tinha medo dos trens, mas se arriscara a vir. “Quero ver meu filho antes de morrer…”

Nossa conversa foi interrompida por um garoto, vindo não sei de onde, que ao tocar o braço do senhor, perguntou: “Vovô?”

É impossível descrever a emoção que vi em seus olhos naquele momento. O tempo pareceu se dissolver enquanto pai, filho e neto se abraçavam, e as palavras não eram necessárias.

Foram caminhando da mesma forma, juntos e silenciosos, mas eu pude ouvir, de longe, os corações repletos de alegria.

 

Dança

 

Ele reconheceu aqueles sons, que pareciam fazer fluir toda sua energia.

Primeiro tamborilou com os dedos, depois balançou as pernas,

e antes que a música terminasse, girou feliz no meio do salão.

Não viu olhos censores, nem ouviu críticas afiadas.

Em momento único, acreditou que o mundo era só eu,

E nele, o que importava era bailar.

O homem se liberta quando faz por si mesmo o que o torna feliz.

 

Depois da chuva

 

Quando o sol voltou, a criança ainda se divertia no quintal.

Chegava perto, olhava a poça de água da chuva, via o céu azul refletido, e pulava para dentro dele.

Ser feliz é como brincarno céu limpo após a chuva:pular nas nuvens claras de verão,escolhendo o azul límpido renascido,molhando os pés e esquecendo as lágrimas que molharam o chão.

 

A você que me inspira

 

Do que sentes, faço tinta para a minha pena,e busco dentro de mim as imagens dos sonhos que me contas.

Te sigo pelos dias, um passo atrás de cada passo teu, lendo nas pegadas a aridez do caminho.

Aprendo contigo segredos de viver, e, de tanto guardá-los comigo, sigo mais plena.

E quando mostro a outros olhos o que registrei de ti,me alimento de novas letras e recomeço a minha sina.

Se tua força me abandonar, os dias serão mais tristes,e todas as aves voarão em um outro céu,em rumos sem sentido,de meus olhos contornando lágrimas.

 

Agradecimentos

 

Meu profundo agradecimento a todos que com incentivo, amizade, e disponibilidade me trouxeram até essas páginas.

Sempre grata, especialmente, a Henrique Mendes, amigo, mestre de letras e revisor, a Leonor Aguillar e toda a equipe do Poetas Trabajando, incentivadores ao longo do caminho.

 

Sobre a autora

 

Soraya Souto é brasileira, nascida em Morrinhos (GO) e mora atualmente em Brasília(DF), com a família.

Seus trabalhos tem sido publicados nos sites de escritores “Poetas Trabajando”, “Recanto dos Escritores” e no blog de sua autoria www.palavrasqueescrevi.blogspot.com.br.

Participou das seguintespublicações  eebook:

AntologiaRede de Palavras – volume I – EditoraScortecci, 2015.

AntologiaPoética – PoetasTrabajando, ForosPoéticosLiterários – 1a Edição, 2015.

Ebook – E QUE VIVA O NATAL, Coletânea, váriosautores. Edição Especial, 1a. Edição, Helena Frenzel Ed., Dezembro de 2014

 

Estoy enamorado

Estoy enamorado

por Facundo Quiroga (Argentina)

Una vez, sufrí un tropiezo en el amor. Fue algo nuevo para mí, pocas veces había pasado por ello, mas esta vez fue la más difícil, la que más llegué a sentir.

Hablando con un amigo, él me animaba a seguir adelante, diciéndome que eran etapas, momentos de mala suerte. “-Lo tuyo es cuidar el medio ambiente, no es enamorarte”, fue uno de sus tantos comentarios. Entonces, respondí: “-De todos modos, estoy enamorado”.

“-¡¿De quién estás enamorado?!”, exclamó sorprendido, ya que a él le contaba todo.

“-Estoy enamorado de la vida”, respondí. “-De poder levantarme todos los días, correr la cortina y observar mi jardín. Recorrer mi casa haciendo las tareas diarias o las acciones rutinarias y ver a mi familia que pasa junto a mí y me da el saludo del día. Sentir los lengüetazos de Benito sobre mi rostro mientras su cola se mueve de un lado a otro. Tomar mis cosas, salir en busca del auto y detenerme unos segundos a ver el amanecer. Notar las distintas gamas de naranja, amarillo, rojo, rosado, muchos colores en pocos segundos. Arrancar, pasar por la entrada del barrio y que el guardia te salude con una sonrisa contagiosa. Buscar a una de mis mejores amigas para ir a la facultad y que, apenas se asome por el portón, comience a hacer poses graciosas para empezar el día riendo.

Estoy enamorado de mis amigos, de poder juntarme con ellos en la universidad, a tomar unos mates, salir a bailar, hacer el ridículo sin importar lo que digan los demás. Encantado de esas situaciones que nos hacen olvidar que somos adultos y disfrutar como cuando éramos niños, yendo a un parque de diversiones, revolcándonos en el césped, gritando en el medio del parque y que los demás se den vuelta.

Estoy enamorado de los pequeños gestos, que en el fondo son grandes. De que sepan que no es el mejor momento de tu día, de tu semana o de tu vida y poder sentir el apoyo de los más queridos. Que te saquen a dar una vuelta por el barrio, por la montaña, por la playa, por donde sea, disfrutando de poder estar callados pero sabiendo que podes contar con alguien.

Estoy enamorado de la música que nos acompaña como soundtrack de nuestra vida. En medio de la carretera con alguien a quien quieres mucho se escucha Coldplay, saliendo de ver una película de vuelta a casa canta Rihanna, en momentos de reflexión oímos un lento y en un momento previo a salir se escucha una cumbia, un reggaeton o un cuarteto. Cuando lloramos juega Lana del Rey¸ cuando nos sentimos fuertes Sia y cuando nos sentimos poderosos, algo como Guns N’ Roses.

Estoy enamorado de la naturaleza, de esa obra de arte que Dios y el universo crearon. De poder maravillarse de ella en cada segundo, ver cómo un día nos ofrece una luna luminosa, en otro momento una cordillera nevada y hasta un lago con agua cristalina. Poder observar miles de especies de animales y plantas, todos con diseños originales.

Y por último, estoy enamorado de mí. De poder ser quien soy y saber que cuento con la capacidad de darme cuenta de que estoy enamorado de todo lo que mencioné anteriormente.

Y vos, ¿de qué estás enamorado?”, le pregunté.

Día internacional del libro

23 de Abril – Día Internacional del libro

 

Libros extraños que halagáis a la mente
en un lenguaje inaudito y tan raro,
y de que lo más puro y lo más caro
hacéis brotar la misteriosa fuente;

Inextinguible, inextinguiblemente
Brota el sentir del corazón preclaro
y por él se alza un diamantino faro
que al mar de Dios mira profundamente…

Fuerza y vigor que las almas enlaza,
seda de luz y pasos de coloso
y un agitar de martillo y de maza

Y un respirar de leones en reposo
y una virtual palpitación de raza;
y el cielo azul para Orlando Furioso…

Rubén Darío

El Origen del día del libro se remonta a 1926. El 23 de abril de 1616 fallecían Cervantes, Shakespeare e Inca Garcilaso de la Vega. También en un 23 de abril nacieron – o murieron – otros escritores eminentes como Maurice Druon, K. Laxness, Vladimir Nabokov, Josep Pla o Manuel Mejía Vallejo. Por este motivo, esta fecha tan simbólica para la literatura universal fue la escogida por la Conferencia General de la UNESCO para rendir un homenaje mundial al libro y sus autores, y alentar a todos, en particular a los más jóvenes, a descubrir el placer de la lectura y respetar la irreemplazable contribución de los creadores al progreso social y cultural.

La elección de esta fecha surgió en París, en 1995, durante una Conferencia General de la UNESCO. Se proclamó el 23 de abril como el Día Mundial del Libro y del Derecho de Autor. Este homenaje universal a las letras tiene también la finalidad de alentar a la lectura y recordar el aporte de los grandes escritores a la cultura.

La idea surgió por parte del escritor valenciano Vicente Clavel Andrés, en 1923, y tres años más tarde, la iniciativa fue aprobada por el rey Alfonso XIII de España. El 7 de Octubre de 1926 fue el primer Día del Libro, poco después, en 1930, se instaura definitivamente la fecha del 23 de abril como Día del Libro, donde este día coincide con Sant Jordi – San Jorge, patrón de Alemania, Aragón, Bulgaria, Cataluña, Etiopía, Georgia, Grecia, Inglaterra, Líbano, Lituania, Países Bajos, Portugal, Eslovenia y México. Es tradicional regalar una rosa al concluir una lectura y que los enamorados y personas queridas se intercambien una rosa y un libro.

En 2001 por iniciativa de la UNESCO se nombró a Madrid Capital Mundial del Libro. Desde entonces cada 23 de abril, un comité de selección, integrado por representantes de la Unión Internacional de Editores (UIE), la Federación Internacional de Libreros (FIL), la Federación Internacional de Asociaciones de Bibliotecarios (IFLA) y la UNESCO, elige a diferentes ciudades del mundo que realizan durante el año actividades culturales relacionadas con los libros. En 2002 ocupó el puesto Alejandría, Nueva Delhi en 2003, Amberes en 2004, Montreal en 2005, Turín en 2006, Bogotá en 2007, Ámsterdam en 2008, Beirut en 2009, Liubliana en 2010, Buenos Aires en 2011, Ereván en 2012, Bangkok en 2013, Port Harcourt en 2014, Incheon en 2015, Wroclaw en 2016 y Conakry (Guinea) para este año 2017

 

Día internacional de la danza

 

El Día Internacional de la Danza se celebra el 29 de abril desde que fue establecido en 1982 por el Comité Internacional de la Danza del Instituto Internacional del Teatro (ITI). Esta fecha conmemora el nacimiento (en 1727) de Jean-Georges Noverre, bailarín y maestro  considerado el creador del ballet moderno.

Cada año el ITI encarga a una personalidad conocida del mundo de la danza la redacción de un mensaje que es leído en todo el mundo. El objetivo de esta celebración y de ese mensaje es el de unir todas las danzas en este día, para celebrar esta forma de arte y mostrar su universalidad.
El Mensaje del Día Internacional de la Danza 2017 le fue encargado a la coreógrafa Trisha Brown antes de su fallecimiento (acaecido el pasado 18  de marzo), por lo que finalmente ha sido elaborado utilizando sus escritos, reflexiones y declaraciones y se publica además como homenaje a la gran artista americana.

 

‘Me convertí en bailarina por mi deseo de volar. Trascender la gravedad fue algo que siempre me emocionó. No hay un significado secreto en mis obras. Son un ejercicio espiritual que toma una forma física.

La danza proyecta y amplía el lenguaje universal de la comunicación, dando lugar a la alegría y a la belleza, al avance del conocimiento humano.

La danza es la posibilidad de crear…, una y otra vez…., en el pensamiento, en la acción, en la puesta en escena, en la interpretación.

Nuestros cuerpos son una herramienta para la expresión y no un medio para la representación. Esta sensación libera nuestra creatividad, que es la esencia y el don de la capacidad artística.

La vida de un artista no termina con la edad, como creen algunos críticos. La danza esta hecha de personas, por personas e ideas. El espectador puede llevarse a casa el impulso creativo y aplicarlo a su vida diaria’.

Trisha Brown

BENITO

BENITO

por Leonor Aguilar (Argentina)

 

Llegó como llegan todos los animales que jamás han tenido un hogar, acostumbrado a ser rechazado en todas partes, con la cola entre las patas, la cabeza gacha, las orejas hacia atrás, medio encogido en señal de sumisión, como un mendigo que clamaba por un pedazo de pan y un poco de agua.

Su mirada, esa mirada que implora por corazones y manos generosas, eligió a la señora que entraba a su casa. Y no se equivocó, fue quien le ofreció el agua que calmó su sed. Se conformó con eso, si no había nada más no importaba, estaba acostumbrado a sentir hambre, pero al menos ya no lo atenazaba el deseo imperioso de beber.

De la casa salía un olor que sabía reconocer a la perfección: comida. Podía olerla mientras oía la risa de la familia y el ruido de los platos, pero estaba muy lejos de su alcance. Se hizo un ovillo, descansó bajo la sombra del árbol que daba al frente y durmió como duermen los perros sin amo, con una oreja atenta a los peligros. Soñó con un hogar y el abrazo de un niño que le pidiera que traiga el palito que tiraba, el que tantas veces buscó para gente grande y al volver feliz con el trofeo descubría que era el modo en que alguien desaparecía y se había quitado de encima su triste existencia.

El ruido de la puerta que se abría lo despertó asustado. Pero el temor no duró demasiado esta vez. Una voz suave le decía vení, tomá, y le ofrecía un plato que cargaba el aroma que había percibido un rato antes. Midió la distancia entre la persona, el plato, y el espacio para la huida necesaria por si fuera alguna trampa, y  devoró el manjar que le regalaban. Se sintió reconfortado y feliz. Llevaba mucho tiempo sin sentirse de ese modo y sacudió la colita en señal de agradecimiento.

Y así pasaron los días. Había dado con su árbol. Tenía donde resguardarse un poco, le dejaban un baldecito con agua limpia y fresca para que pudiera beber cuando deseara, y la frase mágica que oía un par de veces a diario: vení, tomá. Esa suma era un tesoro que por primera vez en su vida podía disfrutar.

Una mañana llegó un viento helado y su colchón de hojas secas no lograba quitarle el frío. Una llovizna finita lo fue mojando hasta que no pudo dejar de tiritar. La brisa  penetraba sin compasión en el pelaje húmedo. Cuando llegó el dueño de casa siguió  al auto y se ubicó debajo, al menos no se llovía y el calor del motor abrigó un poco su cuerpito.

La puerta de la casa se abrió con el vení, tomá, pero aún no era la hora acostumbrada, y esta vez no era la voz que conocía. Se animó a arrimarse lentamente para ver de qué se trataba el llamado. Si hay algo que un perro sabe, es leer el color de las almas de los niños, y en esta oportunidad era un niño quien le ofrecía una manta para dormir en un rincón bajo techo.

A la mañana siguiente lo llamaron, lo cargaron y partieron con rumbo desconocido. Estaba resignado a ser abandonado en algún lugar lejano, pero las cosas fueron distintas a lo esperado. Un señor con cara muy seria cuya chaqueta portaba un olor extraño lo pinchó, lo obligó a ingerir unas pastillas feísimas y pronunció severamente una palabra que nunca había oído: bañarse. Y otra vez estuvo mojado entero, pero esta vez,  si bien no le gustaba, era distinto. Después su corazoncito saltó de alegría porque lo llevaron nuevamente a la casa, y tuvo permiso para entrar a jugar con el niño a traer palitos y pelotas

Conoció también algo que nunca le habían dado: caricias. ¡Qué lindo era sentir esa mano que pasaba por su cuerpo y le decía cosas que no entendía pero sonaban muy bien!. Y nunca más faltó comida, ni agua, ni tuvo calor, ni frío, ni miedo.

Supo que la vida le había regalado una familia porque le dieron un nombre. Y para un perro eso es muy importante porque le da certeza de pertenecer, de tener hogar. ¿El nombre escogido? Benito, porque era el sonido al que más rápido respondía, sonaba a sus oídos muy parecido a vení, tomá.

A Gaby Lucero

ROSA PRETA

ROSA PRETA

por Anajara Lopes (Brasil)

O telefone tocou. Era Rosa. Penso nela todos os dias, desde que a conheci. Queria aprender a ler. Seria até engraçado se não fosse trágico. Porque é inimaginável, pelo menos para mim, que uma pessoa adulta não saiba ler. Era um desejo como qualquer outro. Mas para Rosa isso não passava de uma questão de sobrevivência.

Ela tem os olhos arregalados, como que para enxergar mais e melhor. Como na história de Chapeuzinho Vermelho tinha medo de ser devorada pelo fantasma da ignorância. Também por lhe faltar o essencial como se o desejo fosse um sexto sentido perdido, que ela compensava com a visão. O desejo era de “ser” porque ela pensava que tinha tudo, ou, quase tudo.

Rosa é uma mulata, de seios fartos e dentes alvos e largos. O seu corpo exibe uma fortaleza interior de mulher preta que dá vida e leite doce.

Ao ouvir-te, Rosa Preta, lembrei-me dos Doze Trabalhos de Hércules, dos deuses e heróis gregos, da pintura rupestre, das grutas, das cavernas, das histórias dos filmes que me contavas enquanto Pedro dormia com a cabeça encostada nos bracinhos pequenos para uma causa grande. E o meu filho corrigindo-te as palavras e lendo os textos antes que a tua voz pronunciasse.

A tua voz, Rosa, está grave, bonita, suave, angelical como alguém que canta.

Deverias chamar-te  Rosa, Rosa Preta; Rosa de Rosário que tece Rosângela.

Coppelia

Coppelia

 

Coppelia es una obra de ballet  con música de Leo Delibes y coreografía de Arthur Saint Léon. Fue estrenado en el Teatro de la Ópera de París el 25 de mayo de 1870. Su libreto de ballet lo realizaron Saint-Léon y Charles Nuitter y está inspirado en el cuento de Hoffman “El hombre de arena” (Der Sanderman).

El estreno tuvo lugar ante una brillante audiencia que incluía a Napoleón III y a la emperatriz Eugenia. El ballet fue un triunfo en todos sentidos. El romanticismo, para entonces, había muerto y fue significativo que en el ballet hubiera personajes que representaran la vida real, y no personajes fantásticos como se acostumbraba en esa época.

Con esta obra Delibes adquirió fama de ser uno de los mejores compositores de ballet y situó esta clase de música a mayor altura de lo que jamás estuviera.

El coreógrafo elegido para colaborar con el compositor Léo Delibes en esa producción, Arthur Saint-Léon, fue quien creó todas las danzas y montó las escenas de pantomima. Una importante innovación de su parte fue la introducción de la Mazurka y las Czardas en escena. El uso de danzas nacionales se volvió un esquema para subsecuentes ballets completos.

Saint-Léon murió de un ataque cardiaco durante la guerra Franco-Prusiana, tres meses después de la primera presentación de su obra maestra. Coppélia fue el último ballet producido en la Ópera de París antes de que el teatro fuese forzado a cerrar sus puertas. La guerra marcó el final de una época para el ballet y para muchas otras cosas en Francia.

El éxito de los ballets de comedia ligera es raro, pero nadie puede objetar que Coppélia es uno de los más característicos del género. Es uno de los pocos ballets del siglo diecinueve que han sobrevivido hasta nuestros días sin perder continuidad; es un trabajo que se sigue produciendo en el mundo a través de las mejores compañías, sin dejar nunca de divertir al público.

n un pueblo rural y alegre viven la traviesa Swanilda, su novio Franz y el juguetero Coppélius, quien habita en una misteriosa casa donde guarda sus creaciones desconocidas para el resto, muñecas de tamaño humano. Entre esas maravillosas muñecas está su máxima creación: Coppélia.
Es tal su perfección que Franz se enamora de la muñeca provocando los celos de su prometida. Swanilda y sus amigas deciden entrar a la casa de Coppelius dispuestas a averiguar qué oculta el juguetero. Swanilda decide reemplazar a Coppelia, ante el asombro del doctor que cree que su muñeca ha cobrado vida.

Ella, después de divertirse un rato, le confiesa la verdad y el juguetero no soporta la desilusión. Finalmente es rescatada por su novio, Coppelius los perdona y deciden celebrar su boda en un entorno de alegría generalizada del pueblo, imagen característica de las obras de la época, enmarcadas en gran parte en ámbitos rurales.

ACTO I

La acción transcurre en la plaza de una aldea donde viven, entre otros, la traviesa Swanilda, su novio Franz y el artesano Coppelius. Este último habita en una misteriosa casa donde guarda sus creaciones : muñecas de tamaño humano. Su pieza preferida tiene forma de muchacha, Coppelia, y es tan realista que todo el mundo que la ve sentada en el balcón cree que se trata de una chica de verdad.
Swanilda se enfada porque no consigue atraer la atención de Coppelia, aunque haga todo tipo de aspavientos y de voces desde la plaza. Pero su enfado pasa a la ira cuando descubre a su novio Franz intentando flirtear con Coppelia.
Entran los aldeanos a la plaza y con ellos el Terrateniente, anunciando que habrá una fiesta para celebrar la presentación de una nueva campana para el pueblo y que todos los que estén prometidos en ese momento serán obsequiados con unas monedas. Swanilda quiere probar la fidelidad de Franz, quien sin mucho convencimiento le asegura su amor.

Por la noche, Coppelius sale de su casa y en el camino se le cae la llave. Swanilda y sus amigas la encuentran y la curiosidad les empuja a entrar en el taller. Cuando el artesano se da cuenta de que ha perdido la llave, vuelve, al ver la puerta abierta, entra sigilosamente para descubrir al intruso.

Mientras tanto, Franz ha decidido subir al balcón para conocer a la chica misteriosa que tanto le atrae.

ACTO II

Dentro del taller, Swanilda descubre que Coppelia es solo una muñeca y las chicas se divierten con los diferentes autómatas que encuentran : vestidos de escoceses, chinos o españoles, bailan pasos típicos que ellas imitan. Hasta que irrumpe el doctor y las echa a todas, excepto a Swanilda, que se ha escondido en la alcoba de Coppelia y se ha puesto sus ropas para que no la reconozca.
En ese momento entra Franz y Coppelius logra atraparlo y dormirlo con una droga. Se le ocurre entonces que podría utilizarlo para llevar a cabo su obra maestra : transferir el espíritu del joven a su muñeca para que esta tenga vida propia. Swanilda le sigue el juego y le hace creer que la muñeca puede moverse, hasta que vuelven sus amigas y Franz despierta. Entonces Coppelius se da cuenta de que todo es un engaño.

ACTO III

De nuevo en la plaza del pueblo, en la presentación de la nueva campana. El Duque hace su regalo a las parejas de prometidos y también a Coppelius, quién se queja de que sus muñecos quedaron destrozados la noche anterior. La obra concluye con una fiesta donde se representan las horas del día y los esponsales. La boda de Swanilda y Franz es el final feliz de la velada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

La Sílfide

La Sílfide

La Sílfide es un ballet en dos actos con coreografía original de Filippo Taglioni, música de J. Schneitzhoeffer y libreto de Adolphe Nourrit. Está basada en un relato de Charles Nodier – “Trilby, ou Le Lutin d’Argail” -. Fue estrenada en 1832 en la Académie Royale de Musique de París.

Con esta obra se creó una antológica idealización del ballet romántico: la etérea sílfide, símbolo, además, del amor inalcanzable.
En 1834, el coreógrafo Auguste Bournonville descubrió la obra de La sílfide de Filippo Taglioni y Adolphe Nourrit. Acompañado por su pupila, la bailarina Lucile Grahn e inspirado en ella plagió la obra para utilizarla en Dinamarca y realizar con base en la coreografía presentada, una nueva versión para el Ballet de Copenhague. Bournonville cambió la coreografía a la obra original de La sílfide, respetando exclusivamente la historia del ballet y fue entonces cuando la obra recibió el nombre de La sílfide y el escocés.
Con el nuevo montaje de la obra, Bournonville no logró obtener los derechos de la partitura de Jean Schneitzhoeffer, así que decidió comisionar a un compositor noruego; el barón Hermann Severin von Lovenskjold; para la realización de una nueva música para el ballet; y así el 28 de noviembre de 1836, el Ballet de Copenhague estrenó La sílfide y el escocés, bajo la interpretación de Lucile Grahn como la sílfide. La función fue un éxito, contando con la nueva coreografía de las danzas en la parte principal de la historia y a pesar del número tan pobre de sílfides que aparecieron en el 2º acto, así como la presentación del primitivo escenario, pues en la versión de la Ópera de París éste resultaba impresionante. Varios años más tarde para la producción del 4 de febrero de 1865, el divertimento de las sílfides en el 2º acto fue completamente recoreografiado por Bournonville.
La versión original de Taglioni se perdió al dejar de representarse, pasó al olvido hasta que Pierre Lacotte pudo recomponer la obra gracias a los documentos, dibujos y materiales de archivo de la época. Fue estrenada en 1972 en la Ópera Nacional de París.

 

Acto I
 
La acción transcurre en un habitación. Comienza con James, un joven escocés, durmiendo en un sillón, en vísperas de su boda con Effie. Se le aparece una Sílfide, que baila a su alrededor y le despierta con un beso. James quiere retenerla, pero ella desaparece.
Llega la novia, con su madre, unos vecinos y Gurn, amigo de James pero secretamente enamorado de Effie. También está entre ellos una bruja que lee el futuro en las líneas de la mano y le dice a Effie que su novio no la quiere de verdad y que se unirá con Gurn. James furioso, la echa de la casa, pero ésta promete venganza.
James se queda solo en la habitación y se le vuelve a aparecer la sílfide que le confiesa su amor. James se resiste al principio pero finalmente no puede resistirse a su belleza sobrenatural. Gurn le observa escondido y cuando vuelven Effie y los invitados se lo cuenta, pero no le creen. En medio de las celebraciones, se le vuelve a aparecer, pero él es el único que puede verla, y bailan los tres (gran pas de trois). En un descuido le quita el anillo de casado y huye, perseguida por James.
Acto II
 
La acción transcurre en el bosque. Comienza con la bruja en compañía de otras brujas bailando a la luz de la luna, y como venganza por la afrenta decide tenderles una trampa a James y la sílfide. Saca un velo del caldero y le hará creer a James que es una prenda mágica y que solo con ella podrá atrapar a la sílfide.
James y la sílfide entran en el bosque y ella le muestra su reino encantado, aparecen otras sílfides, y bailan. Desaparecen todas y James se queda solo, aparece la bruja, le pregunta si la ha visto, le suplica que le ayude, ella aprovecha para entregarle el velo y se va. Aparece la sílfide, ve el velo y él se hace de rogar antes de envolver los hombros de la sílfide con él, rompiéndole las alas, por lo que acaba muriendo en sus brazos. La bruja aparece y le muestra que lo que ella había leído en la mano era verdad, apareciendo entre los árboles Effie y Gurn juntos, seguidos de los invitados, que le siguen buscando, pero no le ven. Mientras un grupo de sílfides se llevan volando el cuerpo sin vida de su amada. James se derrumba y muere, mientras la bruja disfruta de su venganza. El mal ha triunfado.