112 – Portada

 

Yo tengo en el hogar un soberano,
único a quien venera el alma mía;
es su corona de cabello cano,
la honra su ley y la virtud su guía.
En lentas horas de miseria y duelo,
lleno de firme y varonil constancia,
guarda la fe de que me habló el cielo
en las horas primeras de mi infancia.
La amarga prescripción y la tristeza
en su alma abrieron incurable herida,
es un anciano y lleva en la cabeza
el polvo del camino de la vida.
Ve del mundo las fieras tempestades,
de la suerte las horas desgraciadas,
y pasa, como Cristo el Tiberíades,
de pie sobre las ondas encrespadas.
Seca su llanto, calla sus dolores,
y sólo en el deber sus ojos fijos,
recoge espinas y derrama flores
sobre la senda que trazó a sus hijos.
Me ha dicho: “A quien es bueno, la
amargura
jamás en llanto sus mejillas moja;
en el mundo, la flor de la ventura
al más ligero soplo se deshoja.
Haz el bien sin temer el sacrificio;
el hombre ha de luchar sereno y fuerte,
y halla quien odia la maldad y el vicio
un tálamo de rosas en la muerte.
Si eres pobre, confórmate y sé bueno;
si eres rico, protege al desgraciado,
y lo mismo en tu hogar que en el ajeno
guarda tu honor para vivir honrado.
Ama la libertad: libre es el hombre
y su juez más severo es la conciencia;
tanto como tu honor guarda tu nombre,
pues mi nombre y mi honor forman tu
herencia”.
Este código augusto en mi alma pudo,
desde que lo escuché, quedar grabado;
en todas las tormentas fue mi escudo,
de todas las borrascas me ha salvado.
Mi padre tiene en su mirar sereno
reflejo fiel de su conciencia honrada.
¡Cuánto consejo cariñoso y bueno
sorprendo en el fulgor de su mirada!

 Juan de Dios Peza

Cosecha 112

 

PERPETUANDO-SE – Henrique Mendes

AL FIN LA PUDE ENCONTRAR. – Jorge Sierra

CADA VEZ QUE PIENSO EN TI. – Jorge Sierra

 Hoje quero te oferecer – Soraya Souto

EN LA CUSPIDE MAS ALTA. – Jorge Sierra

DE QUE LOS HAY LOS HAY. – Jorge Sierra

Não sinto mais nada! – Flor Brasil

NUESTRO AMOR. – Jorge Sierra

SE LAS DEJO EN REGALIAS. – Jorge Sierra

 TE QUIERO. – Jorge Sierra

AQUEL AMOR. – Jorge Sierra

A tí Poeta – Henrique Mendes

A RUA DA ALEGRIA – Henrique Mendes

NO ESPELHO – Henrique Mendes

QUE ES PARA MI UNA MUJER ? – Jorge Sierra

SEÑORA DE MIS ENCANTOS. – Jorge Sierra

 

 

Dá-me uma hora!

Dá-me uma hora!

 

HENRIQUE MENDES

 

 

 

Dedicatória:

 

A todos os que, encantados com os detalhes,
percorrem as trilhas dum tempo que fazem seu.

Henrique Mendes

 

Prefácio

 

Escrever um prólogo leva consigo um compromisso. Por um lado, porque é a apresentação de um livro ao qual o autor dedicou muito tempo para elaborá-lo e que merece a minha melhor leitura e dedicação.

Por outro lado, porque o autor que me confiou a tarefa é sobretudo um amigo e companheiro na estrada da poesia, desde há muito tempo, e me crê capaz de fazê-lo.

Este livro é uma expressão e visão de Henrique sobre um tema inesgotável: o amor. E fá-lo apesar de ter sido advertido a não tomar o amor como fonte de inspiração, pondo à frente dos olhos do leitor poesias e prosas poéticas cujo resultado gera emoções em matizes os mais variados, saudades e esperanças, e de alguma forma nos faz sentirmo-nos parte de suas histórias em muitas passagens.

Os vários grupos de textos estão companhados de uma introdução pelo autor, às vezes mais curta, outras mais extensa e trabalhada, que nos expressa as causas que levaram a escrever os parágrafos que se lhe seguem, e nos colocam frente a um espelho onde vemos reflectidos momentos com diferentes tonalidades, de acordo com o passar do tempo e os sentimentos que deram origem ao poema, numa comunhão entre palavras, silêncios, tempo e e sentimentos.

Uma novelista espanhola dizia que “A palavra é a arma dos humanos para se aproximarem uns dos outros”. Para Henrique , a palavra é uma ferramenta importante, sempre cuidada e polida, que nos aproxima ao seu estilo próprio de escrita, e apenas nos pede uma hora para adentrarmos esse mundo. Eu convido-os a essa hora de leitura, e asseguro que é amena e merecedora.

Leonor Aguilar

*

Uma razão para este eBook?

Bem…

Um dia,  alguém me apontou um dedo que eu não esperava  e cravou-me no peito esta acusação terrível:

– Nunca escreves versos de amor !

A frase atingiu-me como uma chicotada dada sem dó. E confesso, doeu-me. Pior ainda, surpreendeu-me!

Acredito que o amor é dos temas mais presentes em tudo o que escrevo, embora  não pense nisso como sendo versos apenas, mas poesia duma forma mais ampla.

Que me perdoem os que dizem que não existe prosa poética da mesma forma que não existe verso prósico. Concordo com ambos, acreditando que existe um espírito poético que, com sorte, se manifesta de diversas formas. Nessas duas, e em todas aquelas nas quais formos capazes de lhe dar corpo, tradicionais ou não – do soneto à lista telefónica.

Sabendo o que escrevo, resolvi pôr-me a caminho, sem ponto de chegada. Dei-me uma hora para procurar os meus “versos de amor”.

Dêem-me uma hora e tentem lê-los.

Poema de amor      

Quando houver como,
vou escrever um poema de amor
que seja da cor da noite.
Onde não apareçam as palavras alvas
dos  entendidos e dos cantadores,
para eternizá-lo naquelas  purezas
em que ninguém mais acredita.
Onde não haja tampouco
aquela sapiência juanesca
gritada em ecos nos palácios,
nem desesperos de virtudes arrebatadas,
imoladas nos altares
de solidões inconfessáveis.
E que o meu poema não tenha
nenhuns desses heróis antigos,
incansáveis combatentes
estafados em justas inúteis,
defendendo honras ténues,
que eles mesmos perdiam…

Quero-o escuro,
cor da noite cúmplice,
onde uma pitada de medo
possa acrescentar gostosos  perigos
àqueles longínquos passos inocentes,
que ninguém mais cogitou escutar.

E quero-o sujo do barro dos caminhos,
e impregnado dos segredos das sombras
de todas essas esquinas
onde  esperas intermináveis
temperaram sentimentos fortes,
com maravilhosos devaneios.

E espero ainda que tenha todos os ruídos
do papel dobrado, amarrado com fitas,
onde vagos vestígios de cheiros
ainda evoquem o perfume e os anseios
de esborratadas e sempre eternas juras.

Que meu poema
contenha o sonho e a vertigem,
o sobressalto e a insónia,
as memórias de lábios e de mel,
os brilhos de todas as intenções,
e a cumplicidade dos deuses,
para que nunca seja definitivo,
e eternamente se renove em fervor…

Poemas 

São como fotos, os meus poemas.
Tentam captar momentos,
todos eles únicos, de um tema
ou de um sentimento
que o substitua

Se fossem perfeitos,
teriam não só a imagem
mas a cor e os cheiros,
o toque e o sabor ,
o sentimento
e a aspereza quase táctil
da realidade…

Mas são só poemas,
a sua verdade é só a minha,
e a minha arte
é apenas um passo pequeno,
fugaz e miúdo,
em todo esse chão por percorrer.

São só oemas, e estão
tão longe dessa perfeição
que, escrevê-los,
apenas entorpece a dor
de não já saber mais
como fazê-los melhores,
e realça o travo amargo
do limite descoberto.

Mas eles são a mancha
amorosamente roxa
no meu braço nu.

A veia  repetidamente furada
rumo ao fim.
São o meu maior vício!

São um presente que,
vaidoso que sou,
partilho com os outros
– mas me dou a mim!

*

“Daqui de hoje te digo,

desta outra ponta do tempo,

de como tratei por tu noites longas

e dias sem sentido.

 

Posso contar-te, com a isenção dos felizes,

dos  mil livros que comecei, debruçado

sobre  mesinhas de cafés tranquilos,

estacionados na luz certa do momento.

 

Ou posso falar-te de bairros sem tempo,

nem pressas, horários, marcações,

nem qualquer outro compromisso

que não fosse estarem ali.

Neles aguardava o tempo passar,

enquanto esperava as vantagens da idade

e os comboios que tardavam,

as pessoas que queria perto,

os sorrisos que não via, e tudo o mais,

o conjunto dos detalhes preciosos 

e coisas que ainda me faltava aprender. 

Esperava tudo,

e guardava-me em  memórias. 

Engatinhava em textos curtos.”

Eram uma espécie de agenda que fazia,  tentando captar e guardar as emoções e os sentimentos envolvidos.

Com o tempo, esbateu-se a ideia de um livro, na concepção típica do termo.

Os textos curtos, cada vez mais singelos, foram ganhando espaço e conquistando um entusiasmo que eu nem saberia classificar.

Com eles fiz fotos de momentos. Retoquei-as. Percebi que as pintava como quadros e que isso era, em si mesmo, um acto criativo.

 Às vezes parecia-me poético e de extremo enlevo. Outras tantas me pareceu dorido e completamente afastado do que eu imaginava que fossem a poesia ou o sentimento poético.

Os textos foram-se sucedendo, num ritmo irregular e avassalador, cumprindo sempre o seu objectivo maior: dar-me prazer.

Fiz o que quis. Tentei um pouco de tudo o que me lembrei de tentar.

 

Desencontros        

Costumava sentar-se  num pedregulho enorme, mais alto que o muro do jardim, e dali, solitariamente, observar o final do dia, vendo o sol rodar por entre as árvores até sumir completamente, lá longe, por detrás do mar.

De lá, olhando para baixo, podia ver o velho jardim abandonado e, nesse dia, sentiu-o diferente.

Até o regato que o cruzava já não era a mesma velha presença de sempre, triste e murmurante, um lúgubre contador de  velhas histórias, contadas e recontadas durante dias e noites sem fim.

Imediatamente notou a presença  de uma mulher dentro do jardim, e, do lado de fora do muro, um homem. Não querendo ser visto, ficou muito quieto,  condenando-se a presenciar algo a que não queria assistir e  tornando-se um espectador involuntário de um quotidiano que não era o seu.

Aos poucos,  a luz dourada do final da tarde e  o insólito da situação criaram um momento especial, um momento mágico, que o levou a identificar-se com esses dois estranhos que agora observava.

Ela, extasiada, parecia sentir pela primeira vez a presença amiga do regato bordado a prata, e aqueles doces gritos de vida que eram as flores, a dádiva que o mundo do belo lhe oferecia em cada folha amarela e solta, rodopiando no ar até cair a seus pés.

E os sons, todo esse mundo inebriante dos sons, parecia apontar para coisas ignoradas, trazendo até ela cantigas de amigo no murmúrio das águas, carícias no suave hálito do vento.

Tudo, de uma forma absoluta e irredutível, parecia conduzi-la para dentro de si própria, para formas insuspeitadas de volúpia e ternura, para sensações e necessidades que  não sabia entender.

Sentada junto à água espelhada, receando ter-se atrasado mas esperando, assistia fremente e angustiada à passagem do tempo, vendo as flores que o regato transportava de vez em quando, trazidas já do outro lado do muro ao fundo do jardim, sob o qual as águas pareciam nascer…

E fora, do lado de outro lado desse muro estava ele. Mago sem cartola nem diploma, em pé e absorto, segurava um cigarro apagado entre os dedos e olhava o relógio distraidamente, certo de ter chegado demasiado cedo.

Tenso, encostado a uma árvore tombada junto do regato, e como que marcando os minutos, de vez em quando estendia lentamente um braço para trás de si e, colhendo uma flor, atirava-a para a água.

Depois ficava a segui-la com os olhos, observando o seu deslizar lento – demasiado lento – até ela desaparecer por baixo do muro que ele, passado um pouco, cheio de incertezas, iria transpor.

De ambos os lados do muro a tarde conivente esvaía-se,  preguiçosa…

 

*

Nunca estive no comando desse deambular, nascido dum improviso que surgiu sem que o esperasse, e que sempre me causou surpresas. 

Muitas delas vinham desse percurso errático, fruto de descobertas anotadas na margem de cadernos. Guardanapos. Qualquer papel… 

Outras que vinham de mim mesmo, das mudanças que ia sofrendo. Dos medos que nasciam por me ver iniciando a longa caminhada solitária de quem escreve. 

Não é aventura pequena, enfrentar a planície branca do papel imaculado. 

As hesitações foram muitas, e muitos os momentos em que parei e desejei ter começado outra coisa qualquer, causadora de menos dúvidas :

 

QUANTOS?      

Quantos poetas já fui?
E quantos deixei de ser?
Quantas, as vezes que escolhi,
entre o café da manhã
e as luzes do amanhecer?

( e quantos males temi
nesse afã? )

Quantas voltas já dei,
em mim mesmo,
e mais além?
Em quantas partes dividi a esmo
o quotidiano, e o futuro também?

( e quantos projectos esqueci,
nessas crises de antanho?)

Quanto deixei por fazer,
nesse receio de ser Poeta?
Quantas mágoas por sofrer,
planícies por cavalgar,
tendo o pão como meta?

( e quanto, do mundo por amar,
amei sem saber? )

*

Meu maior medo sempre foi o de não ter histórias para contar. As histórias dos outros, escritas ou não, pareciam-me tão diferentes do que seriam as minhas, se alguma vez as contasse…

As deles eram substanciais, concretas e datáveis. Falavam de pessoas e coisas que se enquadravam nos parâmetros de vida de quem contava, na sua realidade, no seu contexto.

As minhas jamais seriam assim, se ganhassem forma.

Por isso caminhei de forma errante nesse universo das palavras, até que consentiram em ser minhas, às vezes.

Caminhava, olhando em redor:

 

Madrugada

 

Caminhávamos como donos da rua,
àquela hora tão cedo.
Os carros, os táxis que passavam,
todos chegavam num repente,
ganhando maiores dimensões
em espalhafatosas surpresas
de luz e de ruído.
Duravam apenas o tempo
de focar os olhos,
depois, sumiam no fim das ruas,
entre fumaça e salpicos
das poças de água.
A noite continuava ainda,
fria e escura,
tardando a acordar.
Quem subia nos ônibus e bondes,
comprava bilhete-operário, mais barato,
pensado para os que começavam cedo,
em fábricas e padarias, e eram
como o sangue invisível da cidade.
Nessas horas de então,
o frio era mais frio,
e a chuva parecia que molhava mais,
caindo sem parar na frente dos faróis.
Mas não havia solidão,
e, por algum motivo já longínquo,
falava-se baixo e pouco,
talvez para não acordar ninguém.

A cidade por onde passávamos, passava
nas janelas laterais, conhecida,
iluminada por um momento apenas, fugaz.

E nas saídas dos prédios, nas portas onde
os casais que se beijavam em despedida,
separando-se, ia-se tecendo aos poucos
a regra da madrugada,
que não conhece pares, nem grupos
– apenas indivíduos, num esquema maior,
que lhes dá sentido e razão de ser,
mas  que os mói,  exaure e devora.

A cidade passava, conhecida,
nas nossas janelas brilhantes,
exibindo os seus  detalhes
como se nos saudasse a cada dia,
em alegrias de chegada.

E nós passávamos por ela, sempre,
em paixões de primeira vez…

Música antiga

Afinal, de onde veio a ternura?
Essa convicção subtil
de que nos desejamos o melhor,
mesmo quando o desajuste dos dias
nos proíbe caminhos comuns ?
Esse  conhecimento instintivo
Da verdade do outro que, sabemos,
nos sabe e nos adivinha?
Terá nascido  do outro lado
De uma qualquer esquina
onde já éramos nós dois ,
criando em detalhes
as memórias de hoje?

( lembro na rua as pedras quentes,
lisas de muitos passos,
onde nos sentávamos um palmo acima do chão,
levitando eternos e intocáveis, nas nossas crenças,
ensaiando rudimentos de algum artesanato.
Acreditávamos no amor, porque éramos o amor
assumido em gestos, vivido em estilo,
colhido em beijos de tamanha candura
que tornaram insuficientes
todos os outros beijos dos nossos dias, quando,
de lábios irrequietos, procuramos essências
nos remansos onde fomos curar fadigas
e terminar gestos inacabados.
Dessas esquinas, dessas pedras quentes,
trouxemos as nossas histórias, os nossos medos,
e também as nossas alegrias mais profusas.
Por lá vibramos cumplicidades, amores,
pudores e desejos desconhecidos,
e aprendemos a escutar a vida,
a acompanhá-la com sons de violão e ocarinas,
cigarros partilhados no carro,
e em passeios a pé, reparadores…
De então vieram todos quantos hoje estão aí,
disfarçados em status e roupas de rigor,
explorados pelos tempos modernos
já esquecidos dessas histórias pregressas
para onde,  num instante, regressas
quando me olhas, de olhos desencantados.
De alguns nos perdemos,
A outros nem queremos encontrar,
mas a todos somos capazes de reconhecer.
Vimos tudo, fizemos tudo,
acreditamos em todas as coisas,
e gastamos s nossa ingenuidade
olhando ao nosso redor.
Alguns experimentaram demais,
e já nem se fala deles.
Outros tocam até hoje,
variações das mesmas músicas
que tocávamos na praia
ao redor duma fogueira.

Reconhecemo-los.
Conhecemo-los pelos nomes.
Reconhecem-nos quando nos vêem.
Mas só isso.
O resto é compromisso. )

Mas é daí, desse outro lado
De uma qualquer esquina,
sentados no chão,
e do som desse  violão antigo
tocado  na praia
à volta duma fogueira…
É daí, dessas pulseiras e colares
que fabricamos tanto, que nos conhecemos.
O que sobrou de nós
foi essa ternura desencantada,
nos olhos com que nos olhamos.
Mas eternamente terna.
Ou ternamente eterna, não importa.

Mas reconhecemo-nos…
*

Quando penso nisso, acho normal que assim seja. Não há percursos lineares. Nem há uma forma única de nos aperfeiçoarmos num determinado tipo de actividade. Cabe a cada um descobrir a sua forma particular e única.

Talvez literariamente seja isso o estilo, embora haja definições provavelmente mais  rigorosas e primorosas também.

Nunca busquei um estilo como sendo algo necessário. Nunca busquei a escrita como uma forma de catarse ou de sublimação.

Hesitações houve muitas.

E creio que não terei conseguido o que pretendia, que era contar histórias. Não da forma que tinha imaginado.

Mas acredito que, depois de tudo, tenham sido as histórias a contar-me a mim:

 

As três pérolas

 

As montanhas, muito escarpadas, e os longos caminhos subindo sempre, tão cheios de perigos, faziam com que os povos daquelas aldeias na base da montanha, bem pertinho do mar, tendo sustento fácil  nas águas e na terra plana, simplesmente não subissem até lá acima.

Às vezes encontravam-se com as gentes lá do alto, quando viajavam por mar até aos outros povoados que ficavam do lado de lá da ilha e da grande montanha, para onde era fácil aos que viviam lá em cima descer quando queriam.

Mas no resto do tempo, viviam nas suas aldeias, tranquilamente. Olhando para cima, viam a grande lua no céu, magnífica, e na sua simplicidade achavam que era uma grande pérola. Os que viviam mais em baixo, erguiam para ela os seus olhos e os seus pensamentos e sonhos, fascinados com tanta beleza, e fantasiavam como deveria ser maravilhoso viver num lugar que fosse tão alto, mas tão alto, que a pérola jamais se escondesse por detrás de nenhuma montanha. Esse era o sonho de todos.

E como era bela, aquela pérola. Que enorme e que preciosa. Todos gostariam de tê-la, mas todos sabiam também como era impossível. Sabiam que no topo da montanha estariam mais perto, poderiam vê-la durante toda a noite, mas ainda assim não conseguiriam chegar-lhe.

Foi então, em algum momento que ninguém saberia já precisar, que começaram a surgir uns rumores sobre a existência de uma outra grande pérola escondida na selva, numa clareira mágica onde havia um pequeno lago. E as gentes lá do alto da montanha abeiravam-se do precipício para vê-la na selva, por entre as árvores,  muito mais abaixo.

E foi assim que, aos poucos, alguns buscaram descobrir o caminho  até essa clareira na selva, onde havia um lago com uma pérola bastante menor que a outra no céu, mas que podia ser alcançada.

Podia ver-se, nos olhos de quem adentrava o bosque assim tão profundamente, uma espécie de reverência crescente que já dizia tudo, e que ia aumentando com a compreensão de que esse lugar, onde ia chegando, era sagrado.

E  na entrada da clareira, perante aquele raio de luz crua onde oscilavam sugestões de todos os tipos, cintilando ora em brilhos de estrelas, ora em pó de fadas, olhavam para cima e viam-no rasgar a penumbra verde-folhagem  do lugar e a cair precisamente sobre o pequeno lago de águas transparentes, revelando, enorme e enigmática sobre a areia alva do fundo, uma magnífica pérola em repouso.

Talvez não houvesse em nenhum outro lugar uma luz assim, que tão bem revelasse a perfeição daquela pérola singular, evidenciada de uma tal forma, com tal pureza, que tudo mais se recolhia a um segundo plano, como se servisse apenas para acolchoar, como num estojo, o lugar onde ela se exibia em seu fantástico repouso.

Era enorme e singela, e estava ali, apenas, sobre a areia muito fina e pura do fundo do pequeno lago, cujas águas frias nada jamais parecia perturbar.  Não havia vento ou folhas errantes, nem poeira buscando outros caminhos, ou sequer um pequeno animal  sedento… Nada jamais fazia estremecer a sua superfície, ou diminuir a sua transparência.

O lugar era antigo, e cheio de lendas, e poucos eram os que conseguiam alcançá-lo, mesmo os que se dispunham a caminhar longas horas pela  floresta muito densa, tentando seguir trilhas praticamente invisíveis.

Mas mesmo pelo caminho, olhando em redor, era possível ir descobrindo vestígios da presença de outros. A vegetação ganhava um tom de verde um pouco mais dourado e, discreta, escondia pequenos objectos um pouco por toda a parte.

Aqui eram potes de barro, com tampa, muito ornamentados. Pratos com o que pareciam ser restos de oferendas. Pequenas caixas. Mais além uma pequena flauta de osso. Pequenas candeias de óleo, agora apagadas. Moedas. Algumas jóias. Algumas das coisas, nitidamente muito antigas.

Dizia-se que, mesmo nas noites mais escuras, havia na clareira aquele brilho especial, como o da pérola no lago, mas isso ninguém conhecido poderia garantir. E que esse brilho aparecia nos olhos daqueles destinados a conhecer a pérola no lago, e também nos olhos dos apaixonados quando se julgam a sós e ficam absortos, pensando na pessoa amada. Não sei.

Sei que , enquanto conversávamos, o velho pescador de pérolas, muito pobre, ainda estava abrindo algumas ostras com a sua faca de folha curta, de cócoras no fundo do barquito encostado  ao meu, no final da tarde que já corria para a noite, enquanto me contava estas velhas historias.

Dizia-me que a escutara pela primeira vez do seu bisavô. E de vez em quando olhava para terra. Não para o céu, como eu esperaria, mas para um ponto no meio da mata, junto à base da montanha. Por indução olhei também, mas não chegou a ser um brilho o que vi, e durou apenas um momento. Assim mesmo, chegou para me fazer interromper o que estava perguntando, e ele percebeu.

– Você também viu, agora mesmo, não foi ? – e o seu riso desdentado era cúmplice e não permitia negativas. – Quando se olha do alto da montanha para baixo, também se pode ver, ás vezes, pelo meio das árvores. E é uma pérola grande, posso dizê-lo sem dúvidas. Uma vez subi até lá acima de propósito, para nunca mais ter dúvidas… Sim… É grande!!!

Surpreendido, tudo o que consegui fazer foi interrogá-lo mais.

– Então é verdade, tudo o que dizem ?- perguntei, olhando no rosto. O velho, olhando-me também, sorria uma resposta. Entretanto o dia já se fora, e ficara quase noite. E o seu sorriso tornara-se mais largo. Nos seus olhos, duas pérolas brilhavam agora, olhando para mim.

– Meu filho, eu sou só um velho ignorante que apanha pérolas. Escolhi não viver lá em cima na montanha, porque não suportava ver a maior das pérolas tão perto de mim e, ainda assim, não poder alcançá-la. E tampouco quis ficar num desses povoados na base da montanha, e viver correndo atrás dum brilho por caminhos na selva, que a própria natureza vai mudando de lugar,  e onde  alguns  homens já se perderam para sempre… Não…

O velho fez uma pequena pausa, sem falar nada. Depois, emocionado, retomou o que dizia:

-Por isso vivo lá, na minha cabaninha na praia, e aqui neste  barquinho velho. E tenho todas as três pérolas ao mesmo tempo.

O velho estendia o braço e apontava com a mão.

– Tenho aquela gigante, lá em cima, que a montanha esconde depois de um tempo, se a olhares muito. Tenho a outra, que a selva  abriga no lago, e que às vezes brilha para mim um sorriso rápido por entre a escuridão da mata, como você viu também, há pouquinho. E tenho estas pequenitas aqui – mostrou uma, erguendo mais a outra mão – que as ostras me vão oferecendo, uma de cada vez, e que, para mim, não valem quase nada…
*

A mim, as escolhas impuseram-se sempre, conscientes ou não, e o tempo foi passando.

Os textos que produzi – vejo-o hoje sem qualquer rigor cronológico muito especial – revelam que não fiz uma opção de fundo por poesia ou prosa, nem por este ou aquele daqueles formatos mais característicos.

Continuei sempre a registar momentos.

Mantive-me fiel a eles, recorrendo a quaisquer ferramentas que me servissem para os retratar, ou colher, guardar, enaltecer.

Hoje, acho que me mantive rente ao que queria, sem saber que era isso. E estou contente. Sempre falei de amor, não necessariamente entre pessoas.

 

E como fazê-lo sem falar de memórias?

 

Havia um cais

Havia um cais.
Ficava lá depois da última praia.
Depois do último molhe de pedras amontoadas,
que amansavam às ondas o seu avanço.

E nós esperávamos, ainda longe,
que chegasse a hora certa.
Depois caminhávamos às pressas,
e ríamos quando a espuma que vinha
já nos chegava aos pés.
E sempre acabávamos a correr muito,
com a água cada vez mais perto,
apertando-nos contra as rochas
num contra-relógio juvenil,
insano e perigoso.

E quando o areal ia terminando,
e já não havia mais lixo
senão aquele que o mar trazia,
nem se viam outras pegadas
que não fossem as que deixávamos
-sabíamos que o momento ficava sério.

Parecia que gritavam avisos, as ondas,
e havia grasnados de protesto
nos ninhos das rochas mais altas,
das falésias cheias de sol.

Mas então já não podíamos voltar atrás,
era o mar que nos empurrava para o cais,
de medo escondido nos olhares
e nos risos nervosos com que desafiávamos
o momento, apesar de não haver outros
tão alegres nesse mundo,  onde julgávamos
que Deus nos deixava ousar destinos.

Por fim chegávamos,
já com a água espumando nas coxas,
sabendo que não havia  outro caminho.
Ninguém nos seguiria, mas quem viesse
precisaria esperar que vazasse
essa maré que só agora começava a encher.

E se isso  fazia de nós prisioneiros,
voluntários e contentes,
também nos tornava donos do tempo
por todo um dia de marés.

Sim, havia um cais.
Tinha um sossego que era todo seu,
mesmo com os gritos das gaivotas
e o marulhar das águas,
o cheiro húmido do sal nas rochas
e o ruído distante da cidade que teimava
em fazer-se ouvir.

Ouviam-se nas tábuas velhas
vozes que vinham do fundo,
onde ondas rolavam pedras.

Apaixonados,
pensávamos que eram beijos
ou segredos entre mar e seixos,
e tudo o que rimasse
com abraços escondidos
das águas com os pilares.

E havia também um ranger antigo
de madeira que se espreguiçava ao sol,
sorria ao sol e, estalando de quente,
nos embalava  os sonhos lentos
de quem só pensa em céu azul,
sem nuvens e sem pressas,
e naqueles beijos fantásticos
que só troca
quem é dono do tempo,
e maior do que a vida
– e pouco se importa com as marés…

Entre gaivotas

 

Na areia
onde as ondas se espraiavam
marulhando rumores do mar,
viam-se sombras passarem,
das gaivotas por cima de mim.
Voavam canções no vento,
que o sol não nos deixava olhar
mas que se liam no areal,
como se ele fosse uma tela
onde a vida projectasse
sonhos de gaivota
em cânticos de luz,
só para se poderem ver…

E nesse manso movimento,
entre os nossos passos
perseguindo sombras,
e as suas asas
abertas nas alturas,
havia um tempo,
um desfasamento,
que a brisa usava
para apagar a história
-que os nossos pés escreviam
e o mar escondia-
da nossa vida
entre gaivotas.

*

Há nos meus escritos, mesmo nos de hoje, elementos inegáveis que transcenderam o tempo, e que são fruto de uma memória emocional que, passo a passo, desconheci.

O tempo foi sempre o meu aliado mais precioso, e o meu carrasco também.  Vou e quase volto, em espirais intermináveis, que sempre me forçam a passar perto e quase reviver momentos e  lembranças.

E se, por um lado, isso torna mais lenta a minha progressão na escrita, a verdade é que descobri que estou sem pressa.

E que adoro este quase repisar, não importa em que modalidade de escrita o faça.

 

As palavras que se expliquem. Ou não!

Na verdade, que importância tem?

 

Ou silêncios

 

Queria que fossem as palavras, a fazê-lo.
Que falassem das emoções e dos anseios,
do tempo  esculpido  em horas de pedra.

Que trouxessem à memória e à claridade
as profundezas mais guardadas dos baús.

Que exorcizassem  todos os mal entendidos,
e expurgassem o mundo de todas as dúvidas.

Que simplesmente tivessem
o peso do que dizem, e se revelassem
o produto de escolhas felizes.

Queria que fossem as palavras, a fazê-lo,
mas não objecto a que sejam os silêncios.

Desde que,  depois deles,  haja histórias
a partilhar na intimidade cúmplice de alguma fogueira.

Desde que mantenham  as mesmas certezas
daquelas palavras que algum motivo
conseguiu impedir.

Desde que façam parte daquele hino
que à vida se canta o tempo todo…

 

Isso é amor !

Ali mesmo, na parede,
a ampulheta antiga mostra em amarelos de latão

outras faces do tempo.
Fala de quando havia tempo,
e mãos disponíveis para virá-la.
Disponibilidade para o sentimento.
Luz de velas, nos castiçais dourados.
E os sons, cheiros e sabores
que, hoje, são de época…

Baixinho, um cravo tocando, tecnológico,
envolve-me como um beijo lento,
e a noite, lá fora, querendo impor-se,
aprofunda-se, argumentando brilhos.

Falta-me uma bebida forte,
e uma pena grande,  vermelha,
na mão suja de tinta,
saindo duma manga pregueada,
obscenamente alva,
eternamente elegante…

Do lado da ampulheta,  severo,
um astrolábio também brilha,
em cânticos de latão e charme
feito de memórias…
Por detrás do cravo, insuperável,
conta-me das ondas antigas
e dos horizontes cinzentos do mar.

Das alturas do astro-rei
anotadas nos pergaminhos,
em sons crepitantes de escrita
e arranhados de pena, insubstituíveis
neste contexto de memórias
confortáveis, quase minhas.

Mais além,
os meus cachimbos raros
olham-me em ardumes de língua,
dispostos a esperar, condescendentes,
crendo-me servil…

E eu aqui, de mãos crespas,
nos gestos da escrita.
Vendo-me em todas as histórias
que compõem a minha história,
em repetições inevitáveis de anseios
e ínfimos afagos doloridos,
tão íntimos como pequenos desconfortos…

Falta-me mais, muito mais,
do que uma bebida forte.
Falta-me o ritmo ardente da África,
cantando em dialectos, ao amanhecer.

Falta-me o silêncio dos peixes,
em cores distorcidas
no vidro líquido.

Faltam-me as velas
e o vento caçado,
fazendo força contra a cana do meu leme.

E o deslocamento sem som
espirrando salpicos salgados,
nos meus olhos focados longe.

Tão longe,
que a saudade disso
não é isso …

-Isso é amor !

Onde ? 

Onde o guardei, ao gesto repousado da tua mão?
No quotidiano evanescente das doces memórias,
por entre os sentimentos e as pequenas histórias,
ou naquele ermo gelado onde  escondo a solidão?

Há nele um remate, algo de conclusivo, serenidade.
Talvez  aquilo com que se desfecha um momento,
o cariz inapelável do que se deixa escrito no tempo,
ou a raiz daquilo que o tempo transforma em idade…

Como pensar que, lembrado, possa estar perdido ?
Que, num passo a passo, a vida tenha continuado,
tenhamos escrito as marcas dum futuro já traçado,
e deixado para trás, congelado, o momento vivido?

 Sendo assim

Perco-me nas palavras.

As palavras
empurram pressionam
e desprendem-se
soltam-se
ganham vida
às vezes
outros rumos
que não os meus
só seus

Às vezes
são-me fiéis
dizem o que quero
dizem-me
traduzem-me
dão-me aos outros
dão-me os outros
trazem-mos enfim
sendo assim

às vezes
fogem-me
as palavras
rebeldes
areia entre os dedos
fugas e medos
jogos e fúrias
riem de mim
sendo assim

Às vezes
noutras bocas
as minhas palavras
encontradas
servindo bem
indo além
como quem diz
fica feliz
sendo assim.

( às vezes
perco-me nas palavras
mas sempre fico feliz )

*

 Pesquisei razões e motivos. Ausência e abundância. Teci conjecturas e teorias. E muitas foram as vezes em que ensaiei uma visão de topo.

 

E quem nunca o fez ?

 A partir de que ponto já nos sentimos tão  sábios que deixamos de nos fazer perguntas?

 Com quais detalhes, um dia deixados à margem, deixamos de aprender ?

 Quando deixa o quotidiano de nos encantar ?

 Detalhes, minúcias, pormenores, registos e apontamentos, sempre. Sempre!

 A vertigem insaciável do papel em branco…

 

Bom é isto!

 

Bom é isto!
Quando de quase tudo
recolhemos os pequenos detalhes
que, assim espalhados pela imensidão  dos tempos,
por si sós, não são nada.
Mas que, somados,  se agigantam
e nos mostram muito além
dos meros episódios do que fizemos
naqueles momentos menos cruciais,
antes das palavras.

Não que, depois das palavras, brilhem outras estrelas
numa outra abóboda de sonhos…
– se bem que, para isso,  há os que são Poetas !

Não que, depois das palavras,
se tornem mais claras as intenções dos deuses,
la nos ermos de algum Olimpo,
jogando num imenso tabuleiro celeste
aquilo que imaginamos serem destinos… Não…

Não…
Mas bom…é isto!
Quando nos juntamos num pedaço só,
e nos damos ao luxo de ser um pedaço só.
Uno, monolítico, e convicto como um pedaço só.

E dizemos coisas, sofremos coisas, sentimos coisas
dessa forma especial  e singela,
a cada momento mudada, sofrida, remediada,
adequada ao instante como um acorde insubstituível
tornado necessário à harmonia perfeita.

Sim… Bom é isto…

Um espaço de ser,
onde palavras nos recriam, no que dizemos,
vez após vez, simbioticamente,
repetitivamente,
como passos tantas vezes dados
que acabam criando um caminho !
( e quem sabe se alguém, um dia, o seguirá …)

Ou talvez um caminho,
tão liso, tão nítido e claro, puro,
evidente, no seu rumar desconhecido,
( e quem sabe se alguém, um dia, o seguirá…)
que se torna um convite ao caminheiro
– e  àquelas  primeiras pegadas,
experimentais  mas já firmes,
que, para todo o sempre, lhe marcarão a alma a fogo,
e lhe porão nos olhos um fulgor de eternidade…

Sim… Bom, é isto !

Foi por isso

 

Foi por isso que fiquei. Precisava paz.
Na outra margem
iriam continuar por muito tempo
os meus passos revigorados
até que um outro rio os detivesse
em algum momento, já quase
a perderem-se em novas águas.
E talvez daí ainda ponderassem
uma outra margem distante,
onde um outro coqueiro inclinado
daria início a mais mistérios verde-sombra,
ciliares a mais praias de areias brancas
-que acabaria reclamando para mim
apondo-lhes o meu nome
em caracteres antigos,
numa runa escrita com o calcanhar.
Foi por isso que fiquei.
Para que não me vissem do espaço,
como um aleijão em todas as praias,
os satélites.
( Marquei a paisagem com uma flâmula vermelha
num apelo ondulante aos deuses desse vento
que tão bem conhece o som da minha voz.
E entoei baixinho um cântico de morte
cada vez mais fraco, até que o silêncio
dissesse mais do que eu sabia… )

*

Compondo o quotidiano, junto com tantos outros detalhes, há o fascínio intenso da intimidade.

 Há nela toda uma poesia intrínseca, subtil, muitas vezes subliminar, que vai muito além do corpo e do momento.

 Tem uma voz própria. Um encanto feito de expectativas e de desejos,  de encontros e desencontros.

 Várias vezes busquei essa voz usando as características únicas desse momento, circunscrevendo-o a um ambiente jamais descrito mas impondo-se sempre, onde desejo e ternura se envolvem e fundem.

Todo o erotismo é pessoal.

 

Fim de dia

 

Chego sem saber que aqui estavas,
cansado do meu dia,
sabendo-me descrente de tudo
o que não seja dormir.

Quando entro no quarto,
e um resto de sol coado em cortina
te revela derramada sobre a cama,
avermelhada, dourada,
renasço em outros humores,
mas com a certeza de estares dormindo.

Dou por mim imaginando banhos,
agitando martinis, acendendo velas
para um jantar de vinho e queijos,
à média luz.

Dou por mim pensando no que fazer
enquanto me vou despindo,
e saio do banho já preparado
para te surpreender, e te dar
o despertar libertino, memorável,
que adormeceste esperando.

E tu ali, nua sobre a cama,
em total ignorância de mim
e do agito que matou o meu cansaço,
pareces-me subitamente frágil,
pequenina, mais garota travessa
que mulher ladina…
– Quase inocente !

De seios esmagados contra o colchão,
ganhas novas curvas e relevos,
e as tuas nádegas, nessa posição,
sobre o lençol escuro e brilhante,
eternizam-se como numa pintura antiga,
e gritam-me chicotadas aos sentidos.

Chego mais perto,
ainda sacudindo um resto de água,
para um beijo quase casto sobre os cabelos,
numa quase-esperança de que despertes,
e me poupes o remorso de te acordar.

Beijo-te suavemente, cheirando-te,
enquanto te viras e me olhas
por um momento, sem me veres,
já de regresso ao teu soninho gostoso.

E nesse olhar, que foi tão rápido,
brilharam estrelas escuras, só para mim,
prometendo prazeres e loucuras
que a fadiga da espera apenas adiou.
No teu sono, ainda me aguardas
– sem saberes que já cheguei.
E que te amo, pelas promessas
que fizeste, sem saberes que fazias…

 Emergência

 

Cubículo.

Tempo. Escasso.
Urgência. Abraço.

Fome. Vontade. Anseios.
Peito. Pressão. Calor. Seios.

Beijos. Profundos. Quentes.
Roupa. Lã. Carícias. Dolentes.

Coxas. Firmes. Delícias. Abertas.
Pressões. Encostos. Afloras. Apertas.

Mãos. Roupa. Fechos. Alças. Cetins.
Curvas. Quentes. Meios. Fins.

Porta. Medo. Gente. Pouca.
Encosta. Costas. Fria. Louca.

Botões. Calças. Tropeços. Apressados.
Unhas. Costas. Dedos. Molhados.

Olhos. Brilho. Escuro.
Tato. Húmida. Pronto. Duro.

Vertigem. Urgente. Sexo.
Encaixe. Relaxe. Amplexo.

Combate. Embate. Gemido.
Grito. Refreado. Contido.

Pernas. Torres. Raízes.
Modos. Jeitos. Matizes.

Boca. Aberta . Arfando.
Clímax. Momento. Eternizando.

Risos.
Sisos.

Rua. Cidade.
Diferente. Realidade.

PELE QUENTE

 

Hoje caminho pelas sombras
como se enterrasse mais a cabeça entre os ombros
e avançasse contra a ventania do fim da tarde
sem querer perder o meu chapéu.

Aos poucos, a chuva ensopa-me a teimosia
e gela-me o corpo.
Fujo para casa, como um animal qualquer,
buscando o conforto da toca…

As vozes que me chegam, soam em surdina
como se as ouvisse ao longe,
repetindo antigos detalhes
de um outro dia qualquer.

E o meu corpo, age em gestos artificiais,
como se fosse eu, e não ele,
a marcar o ritmo dos meus passos leves.

As horas que, lentamente, me aconchegam,
são feitas de esperas maiores que as palavras.
São pausas no movimento do dia.
Algo que foi suspenso por um átimo,
aguardando o meu retorno à normalidade.

Mas o tempo vai passando, devagar,
e a vida, aos poucos,  retoma as cores do frio.

( Há um restinho de cerveja no copo, escura,
preconizando sabores acres.
Uma bola de Natal brilha na parede,
desactualizada, irreverente em seu fio felpudo.
Do outro lado dos vidros embaçados,
um bonde crepita sob os fios
e espalha faíscas de cores eléctricas
pelas ruas da cidade.
Na madeira preta do balcão,
artefactos brilhantes
sorriem inquietos dourados
como outrora… )

Puxo um pouco mais o cobertor,
e lembro-me de como era, ficar assim…

Nós dois enrolados, o velho coberto vermelho,
a lã vermelha picando nas costas nuas,
a espuma de cerveja entre os teus seios,
e a gripe demorando a passar…

Chocolate

 

Eu vi quando a gota de chocolate se formou, no bolo que ela acabara de morder, à minha frente, do outro lado da mesa.

Deslizou para o canto da boca, devagarinho, um traço castanho riscando o vermelho brilhante do baton.
De mãos ocupadas, a desconhecida procurou limpá-la com uma lambida engraçada.

Vendo-me a observá-la, encolheu a língua e ficou muito vermelha, enquanto a gota prosseguia desenhando o seu caminho castanho pelo queixo dela abaixo.

Instintivamente, peguei num guardanapo de papel e tentei impedir o pior, mas não deu tempo, e a gota de chocolate escorreu até que, finalmente, pingou para  dentro da sua camisa branca, alastrando por debaixo dela, escurecendo, e lentamente desenhando um seio…

Então, eu percebi que ela me olhava, olhando para ela, e , confesso, foi a minha vez de ficar sem graça. Mas não havia mais o que fazer e, sem outra saída, procurei sorrir, algo encabulado, de guardanapo na mão à altura do seu queixo, olhando aquele seio de chocolate que se revelava.

Foi nesse momento que os seios dela se empinaram e pareceram aumentar de volume, captando definitivamente a minha atenção. Quando a olhei nos olhos, já um brilho irreverente, divertido,  substituíra a anterior expressão de embaraço por uma outra totalmente diferente, de puro desafio feminino.

Rimos os dois. Conversamos muito, nessa tarde, e comemos ainda vários bolinhos de chocolate, talvez na vaga esperança de que mais alguma gota nos aproximasse …

Acabámos amigos, rindo bastante, e quando saímos para a rua fria, lá fora, juntos, eu levava na mão uma caixa cheia de bolinhos de chocolate, ainda quentinhos, e no peito, toda a esperança do mundo.

Tardando 

Ergue-se das pedras do chão.
Levanta-se com as brumas,
ao dissiparem-se pela manhã,
e estende-se. Espraia-se
num insustentável fascínio
de mistérios vários,
que alonga as horas
e faz do tempo um cúmplice,
mais do que um aliado,
ou parceiro nas batalhas
doces do amor.

Nasce das fontes primárias
desse sangue espesso
que me corre nas veias,
em convulsões antigas,
de desejo forte.

Surge em actos de vontade,
nos embates do querer
contra a barreira amorfa
dos outros.

Progride em detalhes
feitos de consentimento,
e nos pequenos nadas
das texturas suculentas
com sabores subtis
de quase todas as coisas…

Descubro-lhe os segredos
em pequenos passos
que já foram mais inseguros,
como se raízes mais grossas
cravadas no tempo
escorassem melhor
o velho tronco
em cuja casca rugosa
as histórias se acumulam
para o enrijecerem…

Todos os dias,
o meu dia
tarda a apresentar-se
como é…

*

Os meus versos, a minha escrita, o espírito poético que possa eventualmente encontrar-se nas minhas palavras, de que vos falo. 

Também não é o dos blogs e dos comentários, dos livros publicados ou  daquela outra parte ligada aos resultados, ao numero de publicações e de leitores. Não tem a ver com sucesso nesse plano, mas com diversão e crescimento. 

Tem a ver com tudo o que não deixei de lado e com tudo o que ganhei. Os contos de Natal que continuo escrevendo. Os amigos que fiz graças à escrita, no mundo inteiro. 

Tem a ver com os novos espaços, arenas de entendimento, que me foi necessário criar para ser apenas o que sou:

Espaço de ser

Criei um novo espaço,  feito em condições
nas quais nem sequer depositava esperanças.
Criei caminhos, que se abriram em emoções…
-despertas umas, adormecidas outras tantas.

E nesse espaço as palavras eram de uma doçura
onde não havia vantagens nem outros prémios.
Apenas um remanso, em caminhos boémios…
Despidos de enfeites, cruzados em vontade pura

que aconteceu além de hesitações e medos
e dos projectos de amanheceres vários,
das tecnologias nas pontas dos dedos
palavras-passe, endereços, códigos binários…

Criei um novo espaço condicional, feito de tempo
onde a vida não se escoasse rapidamente,
inflado dos segredos das coisas e do seu alento,
um lugar além dos outros, onde ser eternamente

Um lugar onde a vida sempre me achasse
quando estivesse em alguma eventual procura
de memórias, e onde um futuro aindase mostrasse
como uma certeza, em palavras de ternura.

Alter-ego

 

Sempre há um tempo
( um momento congelado entre tantos )
para se riscar na poeira acumulada pelos silêncios
( como quem o traça em fluidos golpes de esgrima )
o caracter antigo e de simplicidade inexcedível
( de outra forma iria destoar )
com que nos assinamos realmente.
( embora a areia mostre outros passos ensaiados ).

Sempre há um tempo
( o suspense dolorido entre duas batidas de coração )
em que a distância é como uma estrada ao longe
( onde nos vemos passar acenando gestos de adeus )
por onde desfilam os vultos de todos os outros
( demoramos a ver que não somos apenas nós )
olhando-nos num gesto de soslaio apressado
( repletos dessa mesma inveja que sentimos )
que só nos avalia a serenidade exterior
(ah ! como é doce a tranquilidade dos outros )
enquanto rumam a lugares onde não queremos ir.
( embora assolados por vagas de desejos ).

Sempre há um tempo !
( embora às vezes falte tanto…)

Quando chegares

Quando chegares para almoçar
irei abrir-te a porta, e saudar-te-ei
como se fosse normal ter-te aqui,
para que não te sintas uma visita.

Apenas me importa que sejas, amigo ou amiga,
parte de um preciosíssimo instante.

E único,  como sempre o devem ser
os amigos e as amigas e, com eles,
os preciosos instantes.

Iremos comer naquela varanda olhando o rio
e ficaremos santamente bêbados e alegres,
abençoados pela tarde que passa, terna,
prolixa  em cores tintas de vinho e sol
reflectidas nessas águas que se vão indo…
Indo! Afastando pedaços de espelhos e de céu,
e de nuvens que, passado um pouco, já não estão…

( tal como tu não estarás, dentro em pouco,
e continuarás não estando, até que te sintas convidado  e voltes a este preciso instante, quando
beber vinho na varanda, vendo as águas indo-se,
te torna bendito pelos deuses antigos
que ainda vivem nos finais de tarde
de algumas tardes assim,
de alguns dias,
nos dias de alguns Poetas… )

 Sempre há um momento

Sempre há um momento
-madrugada que seja, ou não, que importa?-
em que  começa todo  esse pulsar de coisa nova,
tudo isso que sabíamos que ia acontecer…

E do lado de lá do rio que então nasce,
-de lágrimas que seja, ou talvez de risos,
ou apenas céu disfarçado de rio, ( que importa?),
tão largo, tão fundo, tão cedo ou tarde já… –
vemos os nossos céus nos reflexos  mais diversos
dessa imensa  água única que vai indo, indo,
e que aos poucos se agiganta e se afasta,
ainda tão próxima ao gesto, ainda tão nossa,
e,  apesar disso, já tão vasta…
que um futuro  recém deixado de o ser
desaba finalmente, decididamente,
já com ares de agora -ou de há pouco, que seja.
Talvez de ontem. Será que importa?-

Cabe num instante do rio, a mudança das nuvens
que levam escondidos na água os mistérios
desses céus  tão maiores que nós.

Cabem os destinos das chuvas e das colheitas,
e os olhos cintilantes das noites traindo
os sonhos distantes que as estrelas têm
quando nos contemplam lá de cima,
abstractamente…

– e, além de tudo isto,
ou  de algo que assim seja,
o que haja, se o houver,
será que importa ?

Chão e Caminho

Às vezes, o tempo
é só essa amplidão deslumbrante.
Uma espécie de silêncio vago
com que nos embotamos,
enquanto desfocamos os sentidos
de quase tudo o que nos rodeia.

Restante fica uma essência,
uma partícula de nós que segue,
indo sempre,  sempre, e que muda,
sobrevive  e se adapta
no improviso mal compreendido
que a vida traz.

Como cumprir destinos ?
Acaso o chão divide com os passos
o peso de ser caminho?

Se fosses instante

Se fosses instante,
só contarias de mim  a história
que o teu manto mínimo cobrisse.

E talvez morresses cedo,
como uma palavra que só começa
e logo se afoga em emoção.

E talvez depois fosses lágrima,
não importando que olhos
te reconhecessem a impermanência.

Ou talvez um pequeno degrau
já bem alto, nessa escadaria imensa
onde equacionamos a eternidade.

Mas se fosses instante,
só contarias de mim uma história
que tivesse o teu tamanho.

Já eu, conto em palavras permanentes
lágrimas e histórias  de eternidades
em emoções de qualquer tamanho…

Soneto do tempo

Se houver na vastidão desse horizonte sem abrigo
outros  caminhos  por onde  soem os meus passos
talvez não seja só a vida, que me leva  nos braços,
e me descubra também cumprindo um fado antigo.

Algo assim como se fosse um destino, só mais forte.
Voz  troante  de dentro, impossível de desobedecer,
indo além da razão, da ponderação, e até do querer
– sortilégio profundo forçando-me  a um outro norte.

E erra quem me escutar algum lamento ou queixa.
Não temo  ser um dos tantos que também  que sou,
nem fujo do destino que me leve para onde eu vou.

E se houver no vento alguma voz, ou alguma deixa,
que importa como se desenrola a peça, ou se acaba?
Se é destino, ou se é fado – ou mesmo se não é nada…

Medo do Tempo 

Por algum tempo tive medo do tempo.

Olhava tudo com aqueles olhos cansados
que só tem quem acha que sabe muito
de si e das coisas.

Deambulei de acordo com a vontade dos momentos.

Achei que, na curva  do rio,
a água cantava contra as pedras,
enquanto se perseguia a si mesma para longe de mim,
canções de despedida que eu não voltaria a escutar.

Caminhei pela cidade
acariciando-lhe aqueles  recantos
que a tornavam especial
aos meus passos errantes,
abrigos de vento e chuva,
cantos para repousar  tranquilo.

Lembro nas costas das mãos
da temperatura das pedras
E sinto ainda na boca
o sabor da água correndo incessante
em antigos chafarizes de bronze.

Olhei aquela rocha lá no alto,
junto ao castelo, e despedi-me
da vista que de lá se tem,
de barcos cruzando rio,
numa luz que não é tão dourada
em mais lado nenhum.

Pouco a pouco fui entendendo
o que procurava entender.
Voltei a encantar-me
com as mesmas pequenas coisas
que o tempo não me deixará repetir.

Haverá gentes fazendo coisas,
cores colorindo instantes,
barcos navegando ondas
ao fim de um qualquer magnífico por do sol,
que eu não voltarei a ver
simplesmente  porque não estarei lá.

Pensei sobre tudo isto, em vagares inusitados.
E medos também.

Depois , a lua apanhou-me descuidado.
Usou a pulsação das  ondas,  a efervescência da areia,
e os piados secretos das aves nocturnas ,
e empurrou-me sem aviso
para memórias de outras noites  ventosas
na praia brilhante, quando quis estar só.

E eu sei como é essa areia gelada.
Os jeans molhados nas pernas.
O crepitar efervescente
quando as ondas se recolhem.
Um silêncio rico de som,
onde os outros não estão.
Eu sei como é…

Então sobreveio uma vontade
feita daquilo que não sei ainda.
Feita daquilo  que não aprendi
em primeira mão.
Daquilo que não fiz.
E o tempo fica menor,
se pensar em quanto é isso tudo.

Retomo devagar os meus passos.
Não repiso.
Observo, guardo.
Cuido.

Estou!

Semeamos

Somos assim, semeadores…
Quem nos olha não vê, nem imagina que exista,
nos gestos com que enchemos os dias,
esse algo mais, composto da subtil essência
com que os dias nos enchem a nós.

Vistos de fora, somos apenas mais uns…
Sentados nos degraus de pedra quente,
no improvável silêncio da noite mais improvável,
nada nos ressalta nem enaltece,
nem ninguém  nos aponta com o dedo,
em estranheza ou  em estranho receio.

E também ninguém sabe,
nem ninguém adivinha, que,
no calor da pedra,
absorvemos a história da escadaria.

Nem é visível, nos nossos passos erráticos,
o carinho com que tornamos nosso
o percurso dos passos com que tantos outros,
lhe subiram os degraus, antes,
ou os desceram rapidamente,
em  fortuitas lógicas de vida,
e que depois se espalharam pela cidade
como se fossem inconsequentes…

Por isso, tantas vezes, não se entendem
os sorrisos vagos , nas nossas faces,
ou os cenhos carrancudos da nossa zanga…

Por isso, tantas vezes, nos criticam
os braços erguendo  alto algum brinde,
sem verem que é o momento único,
que mais ninguém viu ou cantou,
que queremos congelado
antes que passe e se esfume
sem que nada lhe dê voz…

Porque é isso que somos:
-Testemunhas.
E, do nosso testemunho,
semeamos histórias.

Semeamos algum sentido…

O autor

 

 

Tenho por influencias as minhas leituras. Steinbeck, Hesse, Eça, Pessoa, García Marquez, Rilke, Remarque, Camus, Neruda, Sarte, Jennings, Kobo Abe, James Clavell, Pearl Book e muitos outros que não menciono. Sou fascinado pelos autores amaericanos modernos, de prosa, e pelos poetas, contemporâneos ou não , da America do sul e Europa. Faço aqui, este ponto, a minha homenagem e reverencia a alguns autores africanos que agora despontam, contra todas as dificuldades. São gigantes num esforço hercúleo que é necessário apoiar.

Escrevo porque, de alguma forma,  necessito de fazê-lo. Ou seja, creio que escrever é uma  forma atenta de diálogo comigo mesmo, ordenada e sincera. Um registo de pensamentos y sentires que certamente olvidaria, se não o fizesse.  Os meus escritos vão-me escrevendo, definindo, tanto quanto eu a eles. Escrever é uma grande parte do que sou hoje. Será sempre, creio. “Sempre” é talvez tempo demais…

Não sei exactamente quando tudo isso começou. Mas os meus escritos mais antigos, de que tenho originais, foram feitos em cadernos escolares quando tinha um pouco menos de 15 anos. Participei de provas literárias, creio que sempre com prosa. Creio que nunca o fiz com poesia. Alguns de meus trabalhos, contos, ganharam a televisão e trouxeram-me os primeiros ganhos financeiros, modestíssimos  mas de sabor inigualável, com a escrita. Participei de vários e fundei um pequeno jornal na pré-universidade. Não era bom, y ninguém sabia muito bem como levar adiante um jornal impresso em stencil, mas isso não era muito importante. Éramos um grupinho divertido e anárquico de pessoas que respiravam  escrita e  literatura, e o nosso projecto plenamente conseguido era “improvisar sempre !”

Da nossa inabilidade não nasceu nada de significativo, a não ser a sedimentação do nosso amor pelas letras e o nosso amor incondicional à literatura. Y uma fidelidade que se mantém  até aos dias de hoje. Por outro lado, a idade que tínhamos, a revolução no nosso país, e o que fazíamos, colocavam-nos no centro de um turbilhão de informação, politica, social e cultural. Y isso foi marcante e fantástico, assistir de perto aos meandros de uma nova cultura que nascia, e de um novo país que emergia das aguas demasiado tranquilas de uma longa ditadura.

O meu primeiro livro, “Quotidiano subtil” foi publicado em Portugal em 2009 quando ainda vivia no Brasil, e é uma compilação de textos poéticos. O último, tenho-o agora em fase de publicação, é o primeiro de uma trilogia de romances, e uma tentativa de publicação simultânea em três países. Creio ser demasiado cedo para falar dele, a não ser para dizer que existe e se chama “Folha de Água”. Já foi escrito em Portugal. Entre o primeiro e o ultimo há mais dois livros, já vendidos, mas não publicados ainda.

Tenho em Poetastrabajando o meu rincão favorito, muitas amizades, muito esforço feito y por fazer resgatando contos de Natal. Sou muito grato aos  fundadores do site, que hoje são amigos especiais e companheiros nesta viagem fantástica que é a vida.

Quanto a minha vida, não há muito o que dizer, Vivi um pouco por toda a parte, em três continentes diferentes, absorvi influencias de todos esses lugares y gentes, línguas e microcosmos, culturas específicas. A África, no geral, e o Brasil, foram e são quase um vício. Minha esposa é brasileira,  e conhecemo-nos no México – outro país fascinante, com um enorme peso específico na minha vida, e onde tenho amigos formidáveis.

Gosto dos blogs literários, das gentes dos blogs, e sempre tento ajudar os que começam a blogar. Creio que disse tudo. Obrigado aos que me lerem.

 

Henrique Mendes

 

YO AMO

YO AMO

Por Marta Roca  (El Salvador)

Yo amo lo puro, lo auténtico, lo verdadero

Yo amo la virtud, la dulzura, la sencillez

Yo amo lo imposible, lo etéreo, lo sublime y elevado

Yo amo la candidez, la inocencia, lo espiritual

Yo amo aquello que esta cerca mas no es mío

Y que sus ojos dulces y desconcertados me ven y quieren disimular

Y así te acepto y así te amo Besarte suave muy suavemente

Decirte queda muy quedamente

Tú eres mi sueño, mi gran ideal

Con sólo verte yo soy feliz

Jamás serás mio, es imposible

No porque haya otra, es un gran abismo

que nos separa

En cada extremo caminando en solitario

Porque eso eres, un intangible

Eres abstracto y así te amo…

¿SEÑALES DIVINAS?

¿SEÑALES DIVINAS?

por Martha Larios (México)

El Gran Misterio
siempre nos contempla.
Aquello está en nosotros,
y nosotros en aquello.
Algún día, conocerlo podremos…
o quizás nunca

En la fresca mañana de marzo, Guadalupe se encontraba con Eli, la guía en un lugar sagrado, las magníficas montañas y edificaciones de Machu Pichu, hablando de sus respectivos países, cuando muy de cerca pasó volando una enorme águila con las alas extendidas en toda su magnitud.

Y Eli, quien es una experta historiadora y conocedora de tradiciones y secretos prehispánicos, expresó con gran emoción… mira Lupita este lugar te recibe con beneplácito. Nosotros pensamos que cuando una águila se aparece en este lugar y en esta hora, es de muy buena suerte para la persona que no es de aquí, especialmente que es uno de los símbolos importantes de tu país.

Siguieron conversando, disfrutando y aprendiendo mutuamente. Al finalizar el recorrido decidieron que el día siguiente volverían a estar juntas, pero en otro lugar mágico, el corazón del condor y el templo de la luna. Acordaron que harían una ofrenda a la Pachamama, madre tierra y Nanantzin Tlalli, la madrecita tierra. Combinación de ambas culturas. Cada una ofrecería elementos correspondientes a sus costumbres y orígenes.

Así fue, hacía frío, parecía que llovería y después de una larga caminata, llegaron al lugar. Todo cambió, el sol tenue pero estaba presente, el frío se calmó, no llovió, así que todas las condiciones parecían ser favorables para lo que planeaban hacer.

Colocadas de rodillas, con las manos, empezaron a hacer un hoyo en la tierra, de aproximadamente quince cms. de profundidad y treinta cms de diámetro. Cada una iba colocando lo que correspondía. Eli inició con hojas de coca, luego con una capa de hojas de maíz frescas. Posteriormente flores blancas y rosas. Eli preguntó por qué rojas y moradas. Guadalupe explicó… porque en los temazcales de mi país, se ofrecen rojas para el camino de los guerreros y moradas para los seres queridos que se han ido. Procedieron con las semillas de quinoa y maíz. Después ambas colocaron pasitas o uvas deshidratadas, pequeños dulces y chocolates, tequila y pisco, que corresponden al mestizaje. Cubrieron la ofrenda, ofreciéndola al Creador del Universo en agradecimiento por ambos países. Terminaron cantando en quechua y náhuatl.

En ese momento y no supieron de donde, aparecieron dos águilas. A lo que Eli expresó: El Creador y la Pachamama agradecen la ofrenda.

Al otro día Guadalupe salió a las dos de la mañana en autobús para llegar después de las ocho a observar el vuelo del condor, la guía de ese día indicó que hacía tres días que el no aparecía, era posible que no pudieran verlo, solo esperarían media hora y si no regresarían. En el largo camino vieron una inmensa planicie donde había miles de ofrendas hechas con piedras que indicaban peticiones que los Incas hacían al Creador.

Al llegar al Colca, ella se aisló del grupo y fue a hacer una pequeña ofrenda similar añadiendo flores, para pedir les permitiera ver el vuelo. Regresó al mirador, y para su sorpresa, empezó a escuchar un silbido maravilloso y característico, el condor estaba en camino y gran espectáculo, poco a poco inexplicablemente fueron llegando, eran siete, si siete hermosos cóndores, como dicen los conocedores, de tres metros al extender sus alas y aproximadamente metro y medio de largo.

La guía le gritaba que debía abordar, solo faltaba ella, pero se encontraba extasiada porque fuera del mirador, exactamente arriba de ella, antes de partir, tres volaban en círculo, era como una especie de despedida magnífica. Para cualquiera,  era una impresión muy fuerte, así que Guadalupe lloró, la emoción era grande.

Pasaron algunos días y debía regresar a su país. Decidió que la ultima mañana, se aislaría de todo para disfrutar del hermoso jardín del lugar donde se hospedaba. Su equipaje ya estaba en recepción. Ni siquiera iría al restaurante, comería frutas frescas y frutos secos, chocolate y agua.

No había nadie, se sentó frente a un hermoso y frondoso árbol cubierto de flores y de pronto como por arte de magia, apareció un gran colibrí, y raro que estuviera parado en la copa del árbol sin moverse, además de que no era muy colorido como normalmente son, pero tras él llegó una cantidad enorme de colibríes de todos colores. Estaba gratamente impresionada, volaban con la rapidez que los caracteriza, subían, bajaban, iban y venían. Y el espectáculo solo era para ella, ¡qué magnífico!!

Decidió grabar para mostrar a sus amigos, pues la cantidad era realmente impresionante. Revisó y no había nada, fue extraño, pensó que lo había hecho mal, intentó dos veces más y pasó lo mismo. En ese momento, le hablaron, ya debía irse, el chofer esperaba, no había tiempo, miró hacia el árbol y ya no había nada.

Camino al aeropuerto llamó a Eli y le comentó. Y la respuesta fue… No era para compartir, era un regalo solo para ti. ¡Feliz viaje, amiga!

Madrugada…

Madrugada…

por Dorothy Carvalho – Brasil –

 

 

Madrugada
A madrugada a mim se dá em lenta solidão.
Solidão que me é cara, pois é quando tiro a vida a limpo.
Revejo minha condição da ave que nunca aporta.
Esplêndidos sons noturnos, enquanto vou alinhavando.
Cortando e medindo a vida na leveza dos que tiveram pedras nas sandálias,
agora quietas e tristes, neste que é o meu chão.
Sempre reparei na tristeza dos calçados sem a força inebriante dos donos.
Mas, é só na madrugada que minha acuidade se aprimora, e, repara detalhes.
E sei que sou assim, qual vampira que ao raiar o sol, se recolhe.
Manhãs de sol são meninas mui traquinas e barulhentas.
Enquanto que a madrugada..esta senhora bem trajada, séria, concisa.
Senhora bondosa e silenciosa que me entrega uma certa chave,
com a qual adentro recintos vários do intrigante mundo noturno.
E se anômalo é meu caso de amor pelo silêncio e a introspeção.
A madrugada trás como lenitivo, uma uva para o enquadramento à bagunça lá de fora.
O sol se acha, já nasce estiloso e narciso.
Em rompantes, e põe todos os reinos ao seu dispor para saudá-lo.
Portentoso e espalhafatoso com sua fralda amarelo gema.
Até aceito seus afagos sob minha pele. Mas, que não passe das nove horas,
que é quando ele ainda engatinha nas diabruras.
Ou, às dezessete horas, quando ele já dá sinais de cansaço.
Trocamos algumas idéias. Coisas de pequena monta.
E, a noite é tão gentil, que silenciosa e graciosa chega aos pouquinhos.
Não sem antes namorar o cansadão.
É quando eu fico rubra ao ver dela a delicadeza.
Pois nos oferta ao olhar, seu doce encantamento de fêmea no ato Divino da entrega.
E o céu é um véu de várias tonalidades.
O sol se vai e ela cuida o universo de cá para o retorno do esposo tão incompatível.
E se faz madrugada.
E suavemente, sem que percebamos ela se faz manhã..e se vai..prenhe do Rei!
Então, vou regar as plantinhas…

Entre gatos e vivências

Entre gatos e vivências (crônica)

por Soraya Souto (Brasil)

Tenho duas gatas, Tica e Bela, a primeira mãe da segunda.
Foram separadas pouco tempo após o nascimento da Bela, e a partir de então viveram muito tempo em ambientes completamente diferentes. Enquanto a Tica envelheceu sem limites de espaço, tendo outros filhotes, se fortalecendo e conservando hábitos de caça e de defesa, Bela, sua cria, foi confinada em ambiente menor, com janelas gradeadas, em ambiente totalmente controlado.
Agora, depois de anos, voltei a reuni-las, e o caos se alojou aqui em casa. Passo o dia evitando que se matem, separando brigas e as afastando uma da outra.
Fico pensando se terá sido a minha interferência, ao separa-las, que fez com que a mãe e sua cria agora não se reconheçam mais e não possam mais viver juntas.
Não sei como se processam as emoções dos felinos, mas por um momento trago a experiência para o lado “humano”.
Será que ao sermos levados pela vida para direções inesperadas, nos transformamos a ponto de desfazer laços que julgávamos fortes?
Imagino que sim, em alguns casos.
Creio que laços emocionais são construídos e alimentados dia a dia, e quando deixamos de cultiva-los se enfraquecem e, muitas vezes, são completamente eliminados. Mesmo que algum dia retomemos a proximidade física, talvez as experiências vividas tenham sido transformadoras e definitivas, e não nos deixem retornar a um ponto anterior.
No entanto, quando compartilhamos, em algum momento, sentimentos fortes e maduros, as ligações parecem não se desfazer. De certa forma, as nossas memórias, vivências familiares e companheirismo de grandes amigos são impermeáveis ao tempo e distância, mesmo quando percebemos as sutis diferenças introduzidas por uma ou outra mudança de itinerário.
Por mais que a vida nos empurre e nos transforme, ainda somos capazes, na fração de um abraço ou em um toque das mãos, de refazer a conexão que nunca foi rompida no coração.
Pode ser que minhas gatas se habituem e passem a viver pacificamente, aceitando a presença uma da outra. A natureza tem mecanismos de adaptação surpreendentes.
Quanto a nós, ainda temos que aprender a fortalecer e aprimorar laços de amizade, solidariedade e convivência, por exemplo.

¿REENCARNACION Y KARMA?

¿REENCARNACION Y KARMA?

por Martha Larios – México –

 

Estamos enlazados por un vínculo muy fuerte,
Fuimos unidos hasta que la muerte nos separó,
Más este vínculo se mantuvo vigente.
Y nos sustrajimos de nuestro triste pasado,
Para reencontrarnos en el tiempo presente
Gilberto Angel Rodríguez Sánchez
(Fragmento Poema Reencarnación del amor)

Era el amanecer de una mañana airosa y fría de febrero. Margarita estaba en su mullida cama, cubierta con un cobertor abrigador, se estiraba tratando de despertar totalmente después de un sueño que la dejó muy pensativa, y del cual no podía recordar todos los detalles. Algunas interrogantes daban vueltas en su cabeza. Existe la reencarnación y el karma?

En sueños habían venido a su mente muchos eventos con los que jugaba. Todo era muy extraño. Fue como haber repasado parte de su vida mientras dormía.

Ahora que era adulta, como era ya costumbre, se había reencontrado con el hombre que tanto le gustaba cuando era una jovencita. Habían platicado de tantas cosas que tal vez, eso había provocado esa revolución mental. Y es que era muy reflexiva y analítica, no podía dejar de tener presente todo eso. Así que fue hilando la historia.

Nacieron en el mismo lugar, con diferencia de cinco años de edad. Vivieron parte de su juventud ahí mismo. Se hablaban poco, porque eran tímidos, pero siempre se miraban y saludaban, se gustaban pero nunca lo decían. Ahora se preguntaba por qué? Así debía ser? Tal vez, porque todo en el universo tiene un ritmo perfecto.

Todavía jóvenes, vivieron en lugares alejados, por lo que se veían muy poco, pero a través de amigos, sabían uno del otro y siempre se enviaban cariñosos saludos.

La familia de él, de Medio Oriente y curiosamente, ella ya visitó ese lugar, siente que no solamente fue, sino que ya había vivido ahí antes, pues todas las tradiciones, costumbres, alimentos, y otras cosas no le eran desconocidas. En su interior, sabía que El ya había sido su pareja allá.

El ha regresado al mismo pueblo donde vivieron su infancia, y se han reencontrado sin la timidez que los caracterizaba. Así que ahora se entienden muy bien. Todo encaja a la perfección, de hecho son muy parecidos en sus gustos. Cada vez se sorprenden más de que les agrade lo mismo. Aunque nunca han estado juntos, tienen los mismos detalles, gustos, actitudes, opiniones, etc.

Sienten una atracción y un amor tan grande, como si fuera de toda la vida. O las vidas?.

Siguieron su vida personal e independiente. Sin pensarlo, y sin explicaciones, decidieron reencontrarse cada cierto tiempo. Se llaman, comen, beben, charlan, juegan, bailan, se aman, disfrutan su compañía. Es normal para ellos.

Los años han transcurrido con normalidad, pero cada vez con mayor entendimiento.

De pronto el sonido del teléfono la volvió a la realidad, y estirándose en su cama tuvo un último pensamiento al respecto. Dios…Volveremos a estar separados o juntos la próxima vida? Será como el hilo rojo del que hablan los orientales?

APOÉTICAS 1

APOÉTICAS 1

por Henrique Mendes (Portugal)

 

Quem contava sobre ela era minha avó, aproveitando aquelas  noites longas de fogão de lenha e neve lá fora. E contava como se fosse uma lenda que já vinha lá dos tempos mais antigos, quando princesas e príncipes  faziam parte das histórias, e as lendas nasciam dos pequenos gestos mágicos de quem as contava.

Quando falava dela, Vó sempre dizia como ela era bela, primeiro. E só depois contava sobre como ela deslumbrava a quem a via, por causa daquele jeitinho tão seu, tão frágil, de ser especial. É que ela mostrava-se única, e sobressaía entre todas as outras .”– “E olhem que eram uma multidão que a rodeava!” apontava Vó, não querendo  que isso passasse despercebido.

Mas depois, logo acrescentava que todas eram só um pouquinho menos sublimes que ela, apesar de serem lindas… Claro que, assim, ela ia ganhando aos poucos, cada vez mais, a fama de ser maravilhosa.

E era, sim. Era única e bela, e enchia os olhares de todos com esperanças até então adormecidas. Dava mais cor ao dia de quem nela punha os olhos, e se perdia  de amores. E ninguém resistia a esse seu encanto.

E era só quando chegava a este ponto que Vó contava o resto. Parecia quase uma explicação que nascia assim, das nuances semínimas da sua voz tranquila – voz de Vó, voz de contadora de histórias.

Ela dizia que o destino tinha interferido, e eu acreditava. Devia ser verdade, posto que o destino sempre interferia nas histórias de Vó, e naquela não ia ser diferente.

Por isso, quando Vó continuava a história e contava que já era do destino daquela beldade ser assim, tão bela e tão especial, ninguém estranhava. Menos ainda estranhávamos quando ela acrescentava que, porque isso já estava no seu destino antigo, acabou acontecendo que a bela foi amada como nenhuma outra.

Claro que Vó sempre tentava encontrar algum tipo de conclusão, ou de moral, na história. Por isso comentava o excesso desse amor.
“-Era amor demais!”- dizia. “-Tudo o resto, todos os outros, ficava num segundo plano, um pouco distante e ofuscado pelo brilho desse sentimento entre a bela e o seu par!”

Vó  explicava que, à sua maneira, ele também era muito bonito.  Forte e incisivo,  e rodeava a bela de atenções, defendendo-a dos perigos circundantes. Era mais agressivo que ela, mas discreto e tenaz na sua forma de sempre estar perto.

Dizia que eram inseparáveis, duma forma tão conhecida e tão perfeita, que acabou gerando invejas e ciúmes, como é costume acontecer nas histórias dos grandes amores, quando são por demais conhecidos e perfeitos.

“-E foi por isso…- sentenciava Vó, com um dedo empinado- Foi por isso que o destino interveio. Tamanho amor não podia ficar assim, só em felicidade. É que quase sempre o amor precisa de algumas contrariedades para ser apreciado!”- insistia ela.

E foi por isso que um poderoso feiticeiro que vivia do outro lado do reino, se zangou com os dois e desistiu de tomar para si a bela. Cansado de tentar abraçá-la, mas sempre impedido pelo seu par, o feiticeiro lançou sobre os dois uma maldição terrível, que fazia com que sempre estivessem próximos pelo amor, mas que nunca chegassem realmente a estar juntos.

Quem escutava Vó, principalmente as crianças como eu era então, arregalavam muito os olhos quando ela falava assim de feiticeiros e maldições. Mas até mesmo os adultos se deixavam impressionar, e ficavam de respiração suspensa,  revoltados com tanta maldade. A tensão na velha cozinha crescia até atingir um ponto quase insuportável.

E então Vó, em voz mais doce que nunca, explicava que estava apenas contando mais uma história, e que ninguém precisava sofrer com isso.

Na primeira vez, apesar de ser muito menino ainda, lembro que alguém perguntou: “- Vózinha… Essa história é verdadeira?”. E logo ela respondeu muito lentamente:

-Claro que sim. É a história da rosa e do espinho, que não podem viver um sem o outro, mas que nunca chegam a estar juntos. – E a mão de Vó apontava para as rosas na jarra sobre a mesa da sala, acompanhada por todos os nossos olhares…

 

  • * * *

 

Quien contaba sobre ella era mi abuela, aprovechando aquellas noches de fogón de leña y frío en la calle. Y lo contaba como si fuera una leyenda que  venía desde los tiempos más antiguos, cuando príncipes y princesas aún hacían parte de casi todas las historias, y las leyendas nacían de los pequeños gestos mágicos de quien las contaba.

Bu siempre decía cómo ella era muy bella, primero. Y sólo después contaba sobre cómo deslumbraba a quien la veía, por cuenta de aquella forma tan suya, tan frágil de ser especial. Es que se mostraba única y sobresalía entre todas las otras.  ”– ¡Y miren ustedes que era una multitud, quienes la circundaban!” apuntaba Abuela, no dejando que eso pasara sin notarse.

Pero después ya acrecentaba que todas eran sólo un poquito menos sublimes que ella, a pesar que de que eran lindas… Claro que, así, ella iba ganando poco a poco, cada vez más, la fama de ser maravillosa. Y sí, lo era.

Era única y bella, y llenaba los ojos de todos con esperanzas hasta entonces adormecidas. Daba más color al día de quien en ella ponía los ojos, y se perdía de amores. Nadie alcanzaba a resistir a ese su encanto.

Y era solamente cuándo alcanzaba a este punto que Abu contaba el resto. Parecía una explicación que nacía así, de los matices mínimos de su voz tranquila – voz de abuela y de contadora de historias.

Ella decía que el destino había interferido, y yo le creía. Debía ser verdad pues el destino siempre interfería en la historitas de Abu, y en aquella no iba a ser diferente.

Por eso, cuando Abu seguía con su historia y contaba que ya era de lo destino de aquella beldad ser así, tan bella y tan especial, a nadie le extrañaba. Menos aún extrañábamos cuando ella acrecentaba que, porque eso ya estaba en su destino antiguo, acabó ocurriendo que la bella fue amada como ninguna otra.

Claro que Abu siempre intentaba encontrar algún tipo de conclusión filosófica, o de moraleja en la historia. Por eso comentaba el exceso de ese amor.

“¡Era demasiado amor!”-decía. ”Todo el restante, todos los otros, quedaban en un segundo plano, un poquito distante y ofuscado por el brillo de ese sentimiento entre la bella y su pareja.”

Abu explicaba que, a su manera, él era muy bonito también. Fuerte e incisivo, y siempre rodeando a la bella con atenciones,  la defendía de los peligros circundantes.  Era más agresivo que ella, pero muy discreto  y tenaz en su forma de siempre quedarse cerca.

Eran inseparables, de una forma tan conocida y tan perfecta que eso terminó por generar envidias y celos como ya es costumbre que ocurra en las historias de los grandes amores, cuando son demasiado conocidos y perfectos.

“-Y fue por eso-decía Abu con su dedo apuntando arriba- que el destino ¡ha interferido! Es que tanto amor no puede quedarse así, solo con felicidad. ¡Es que casi siempre  el amor necesita de algunas contrariedades para ser apreciado!” – insistía ella.

“-Y fue por eso que un poderoso hechicero que vivía del otro lado de la montaña se enojó con los dos y desistió de  tomar para sí a bella. Fatigado  de intentar abrazarla, pero siempre impedido por su pareja, el hechicero lanzó sobre los dos una maldición terrible que hacía que siempre estuviesen uno cerca del otro, pero nunca alcanzasen a estar verdaderamente juntos.

Quien escuchaba a Abuela, principalmente los niños como yo era entonces, abrían mucho los ojos cuando ella hablaba así de hechizos y de maldiciones. Pero incluso los adultos quedaban todos con sus ojos muy abiertos y con respiración suspendida, enojados con tanta maldad. La tensión en la vieja cocina crecía hasta llegar a un punto casi insoportable.

Pero entonces Abuela, con la voz más dulce que tenía, explicaba que estaba apenas contando un cuento y que nadie necesitaba sufrir con eso. En la primera vez, a pesar de todavía ser muy niño, recuerdo que alguien  preguntó: “-Abuelita… Es verdad, esa historia?” Y de pronto ella contestó despacito:

-Claro que sí. Esta es la historia de la rosa y de la espina, que no pueden vivir uno sin el otro, pero que nunca llegan a estar juntos… – Y la mano de abuela se movía apuntando a las rosas en una jarra sobre la mesa, seguida por todas nuestras miradas…

Bolero de Ravel

Bolero de Ravel

 

 

 

Bolero es una pieza creada por el compositor francés Maurice Ravel en 1928 y estrenada en la Ópera Garnier deParís el 28 de noviembre de ese mismo año. Este ballet, compuesto y dedicado a la bailarina Ida Rubinstein, vio la luz con la orquesta dirigida por Walter Straram y la coreografía de Bronislava Nijinska.

Bolero, una pieza que con pocos notas (dos temas), que se repiten sucesivamente, pero que el compositor orquestó de tal forma que ha llegado a ser una de las obras más famosas de la  historia de la música.

El Bolero nace de la combinación de dos rasgos muy característicos de Ravel: la pereza a la hora de ponerse a escribir y su pasión por marcarse retos y superarlos. Con tal de no ponerse a componer una obra estructurada y así ahorrarse tiempo y cabeza, prefirió componer un tema y repetirlo varias veces, pero  con una gran orquestación, como era habitual en Ravel. El reto consistió en crear una obra a partir de unos mínimos elementos: un patrón rítmico de 2 compases y una melodía de 32 compases que se repiten una y otra vez en una tonalidad que sólo modula al final.
Cuentan que en el estreno de la obra en París, una mujer gritó: – “¡Al loco, Al loco!” – y Ravel, sonriendo, declaró que esa mujer había comprendido perfectamente la obra. En efecto, hay que estar muy “loco” para escribir una obra con esas características y lograr que en ningún momento la reiterada repetición temática sea tediosa, más bien todo lo contrario, y para tener tanta fe en un triunfo creativo

Pese a que Ravel dijo que consideraba la obra como un simple estudio de orquestación, el Bolero esconde una gran originalidad, y en su versión de concierto ha llegado a ser una de las obras musicales más interpretadas en todo el mundo.

Ravel, cuya reputación superaba ya las fronteras de Francia, acababa de terminar su Sonata para violín y piano y había firmado el contrato más importante de su vida para realizar una gira de conciertos de cuatro meses en los Estados Unidos y Canadá.  Poco antes de partir, la empresaria y bailarina rusa Ida Rubinstein, le encargó que compusiera un “ballet de carácter español” que ella misma, con cuarenta y dos años, contaba representar con su propia compañía. Ida Rubinstein era en ese momento ya una rica empresaria que había decidido montar con su dinero su propia compañía de ballet y competir con el mismísimo Serge Diaghilev. Para ello había ideado una temporada con encargos a Ravel y a Stravinski —con quienes mantenía una buena amistad— y a otros compositores como Honegger, Milhaud, Sauguet y Auric que junto a otros artistas se beneficiaban también de sus obras de mecenazgo
.
Ravel tenía muchas obligaciones que atender, y para cumplir el encargo sin demasiado esfuerzo, acordó con su colaboradora que podría orquestar seis piezas extraídas de la suite para piano Iberia del compositor español Isaac Albéniz, en un proyecto inicialmente bautizado como Fandango. Pero iniciado el trabajo, y a su regreso de la gira norteamericana, fue advertido de que los derechos de orquestación de Iberia, propiedad de la editorial Max Eschig, habían sido cedidos en exclusiva a otro compositor español, Enrique Fernández Arbós.

Esta noticia fue recibida por Ravel con preocupación. Comprendiendo la vergüenza de Ravel, Arbós le propuso, generosamente, la cesión de sus derechos sobre Iberia, pero Ravel, todavía disgustado, pensó en abandonar el proyecto, y dado que ya se había hecho a la idea de no trabajar demasiado porque no quería componer sino sólo orquestar, decidió hacer algo experimental, un ballet para orquesta que solo utilizaría un tema y un contra-tema repetidos y en el que el único elemento de variación provendría de los efectos de orquestación que sustentarían un inmenso crescendo a lo largo de toda la obra.

Ravel acabó la obra acordada y en un principio le llamó “Fandango”, como estaba destinado. Pero al parecerle que el ritmo de su obra era más rápido que un fandango, prefirió escoger otra danza tradicional andaluza, el bolero. Una vez cambiado el titulo, dedicó su obra a su amiga Ida Rubinstein.

El experimento resultó un éxito y desde entonces su gloria ya no tuvo límites. A Ravel le llamaban de todo el mundo para que dirigiera su Bolero que, aunque se estrenó efectivamente como un ballet, en la Ópera de París el 20 de noviembre de 1928 por Ida Rubinstein, muy pronto se desprendió de su envoltorio coreográfico para mostrarse con la más absoluta crudeza en las salas de concierto. En contra de los pronósticos poco optimistas del propio Ravel el Bolero se impuso en los programas de las orquestas y desde los conciertos pasó a los medios de difusión, a los más característicos del siglo XX, primero la radio y luego el cine, que ha tratado el Bolero con todos los matices posibles, desde las parodias de Cantinflas hasta las elucubraciones erótico-filosóficas de la actriz Bo Derek.

En el estreno de su producción de ballet, a la ópera en noviembre de 1928, Ida Rubinstein bailó el papel de una bailarina de flamenco que está ensayando pasos sobre una mesa en un bar, rodeado de hombres cuya admiración se convierte en obsesión erótica. Ravel no estaba muy de acuerdo, su propia concepción era una escena al aire libre delante de una fábrica donde los trabajadores saldrían a bailar juntos, mientras se jugaba la historia de un torero muerto. por un rival celoso. Se llevó a cabo de esta manera, en la Opera, en una ocasión después de la muerte de Ravel.
1960 por Béjart (1927-2007), que entró en el repertorio de la Opera de París en 1970, no está inspirada en la versión inicial, hecha en 1928 para la bailarina Ida Rubinstein.

Fue en las tabernas “todavía sin contaminar por el turismo” de los “pueblecitos griegos de los años 50, recorridos a pie”, donde el maestro marsellés descubrió “la esencia de ese movimiento entre Oriente y Occidente”, según explicó él mismo en su día. A partir de 1979, en los montajes de Béjart, el papel de la gitana originaria, que el coreógrafo Bronislava Nijinska colocó sobre una mesa en una taberna andaluza para mayor “embriaguez sensual de la asamblea masculina”, era ocupado a veces por un hombre, recordó la Opera de París.

Un personaje no menos embriagador, con su incansable “balanceo sensual y lascivo” ante una treintena de bailarines absortos en el intenso ‘crescendo’ de Ravel, añadió. Entre los intérpretes masculinos que afrontaron esta pieza destacó, en vida de Béjart, Jorge Donn, y entre los femeninos la bailarina yugoslava Duska Sifnios, que estrenó la obra en los años sesenta.

En la película “Los Unos y los Otros”, Claude Lelouch presenta cuatro historias de vidas marcadas por la II Guerra Mundial que se entrelazan especialmente por la música. El director reúne a los personajes en una escena magistral en la Torre Eiffel, cuando comienza a sonar el Bolero de Ravel y el bailarín inicia un despliegue suave y rítmico de fuerza, de una energía sublime, en conexión con la vida, con la naturaleza, con el universo que nace en lo profundo de su ser y vuela, baila, atrapa.

Lo más curioso de Ravel es que ese reconocimiento de sus colegas y del público no encontró nunca un respaldo oficial. A lo largo de su vida se sucedieron varios “casos Ravel”, que la prensa aireó con escándalo. En su juventud, con sus primeros triunfos en el currículum, se le negó en varias ocasiones la máxima distinción francesa a los artistas menores de 30 años: el Premio Roma. Se le adelantaban músicos de menor talento, pero más respetuosos con las normas académicas; la última vez que le suspendieron en el examen del Premio Roma el jaleo que se armó fue de tales proporciones que le costó el puesto al director del Conservatorio de París, que era miembro del jurado. En sus años de gloria el estado francés intentó reparar esos pecados de juventud y quiso concederle la Legión de Honor, pero una desafortunada serie de desencuentros acabaron por eliminarle de la lista. Y por supuesto los Académicos jamás le aceptaron entre sus filas. No faltaba más, era uno de los fundadores de un grupo de artistas que aceptaron como denominación el término “Apaches”: un insulto que les dirigió un quiosquero de periódicos que se sintió atropellado por aquellos jóvenes que se retiraban con las luces del día, después de una noche de juerga. Eran los mismos que fundaron una Sociedad de Música Independiente para organizar conciertos en los que estrenar sus obras, fuera de los circuitos académicos que les cerraban sus puertas. Una Sociedad que, a despecho de las instancias oficiales, revolucionó la música francesa e hizo de París una vanguardia en los primeros años de este siglo.

La batalla por los derechos de autor

Lo irónico de la batalla por el copyright es que Bolero fue creado por culpa del copyright.

La primera versión que hizo Ravel se llamaba “fandango” y era una orquestación sobre una obra de piano del compositor español Isaac Albéniz. Sin embargo, Ravel no consiguió losderechos necesarios para su versión, por lo que se vio obligado a empezar otra vez de cero. Así nació el famoso Bolero, una bellísima melodía que esconde detrás la siniestra historia de un tango.”

Un manuscrito a bolígrafo de Maurice Ravel es el desencadenante de una sucesión de copyrights que llega al surrealismo y que el Estado Francés ha decidido finalizar con la adquisición por 1,8 Millones de Francos… Actualmente la Biblioteca Nacional de Francia es la depositaria.

Maurice Ravel murió en 1937 sin haber tenido hijos, por lo que los derechos del Bolero pasaron a manos de su hermano Eduard Ravel, quien no los pudo disfrutar con mucha salud puesto que en 1954 tuvo un accidente automovilístico junto con su esposa, del que no salió en buen estado.

Por este accidente se hizo necesaria la contratación de una enfermera,Jeanne Tavernne, que llegó acompañada de su marido, Alexandre Tavernne, un barbero que se dispuso a hacer funciones de chofer para la familia Ravel.

Eduard se fue recuperando y los ingresos por las composiciones de su hermano le estaban generando millones, así que, en un arrebato de patriotismo, declaró que tras su muerte donaría el 80% de los derechos de autor a la Ciudad de Paris. Sin embargo no es eso lo que hizo finalmente, a último momento y para sorpresa de los parisinos, Eduard Ravel cambió el testamento dejándole todo a la enfermera que lo había cuidado.

La decisión cayó como balde de agua helada al resto de la familia Ravel que enseguida contrató abogados para interponer un juicio. Con mucho dinero en juego y una justicia muy lenta, más de diez años de juicios hicieron que la propia enfermera Jeanne Tavernne muriera sin poder haber echado mano a los beneficios que, por supuesto, seguía generando la música de Ravel, pero que estaban inmovilizados por un tal Jean Jacques Lemoine, el director de la Sociedad de Autores Francesa hasta que terminara el juicio.

Tras años de pruebas, deliberaciones y apelaciones, el tribunal dicta sentencia y deja como único heredero de una cantidad bastante importante de millones a Alexandre Tavernne, el barbero convertido en chofer, marido de la enfermera que había cuidado al hermano del compositor Maurice Ravel.

Poco tiempo después Jean Jacques Lemoine desapareció “misteriosamente” de la SACEM y montó una nueva empresa, cuyo primer cliente fue Alexander Tavernne junto con los millones que había ganado en el juicio.

Jean-Jacques Lemoine y Alexandre Taverne no se conformaron con el millonario botín. Presentaron una demanda contra el editor de Maurice Ravel y consiguieron renegociar los viejos contratos. Ravel había cedido las tres cuartas partes de sus derechos de autor a su editor en lugar de la tercera parte habitual. Lemoine y Taverne volvieron a ganar.

En 1972 Lemoine aumentó aún más su parte del negocio. Creó una empresa, ARIMA, a la que por razones aún sin explicar, Alexandre Taverne y su hija, Georgette Taverne, cedieron la mayor parte de la propiedad de los derechos de autor de Ravel.

A partir de este punto, el reparto del pastel se convierte en un misterio. Según la familia Taverne, la mayor parte del negocio se lo queda Lemoine y ellos no han cobrado ni un euro desde hace años. La empresa ARIMA cambia su sede de paraíso en paraíso fiscal: primero en Gibraltar, después en las Islas Vírgenes. Jean Jacques Lemoine sale de escena y se dedica a disfrutar de su inmensa fortuna en Mónaco, donde –al parecer– aún vive, cerca de cumplir los cien años.
Lemoine no es el único que sacó partido del legado de Ravel. El otro gran beneficiado fue Jean-Manuel de Scarano, propietario de «Éditions Durand», la editorial de Ravel, desde el año 1982 hasta el 2000. Scarano, como presidente del sindicato de los editores de música de Francia, fue uno de los que consiguieron convencer al Gobierno francés de que extendiese la duración de los derechos de autor de 50 años hasta 70 después de la muerte del autor. También lograron que no contasen los 15 años que pasaron entre el inicio de la Primera Guerra Mundial y el fin de la segunda. Por eso el Bolero seguirá generando millones bajo la protección del derecho de autor hasta el 2015, 70 años después del fin de la Segunda Guerra Mundial.

Aparentemente, la familia Taverne sigue cobrando a través de ARIMA, cuya mitad que poseen. Los que no reciben nada son los descendientes directos de Ravel

Yasmin Levy

Yasmin Levy

 

Colección de música de Yasmin Levy del preludio de Russo Dylan Galeas Maynor

Yasmin Levy es una cantante israelí y española que ha dado una nueva interpretación a la música judeo-española medieval, incorporando sonidos más modernos, procedentes del flamenco andaluz, y con el uso de instrumentos tradicionales comoo el violín, el cello y el piano. Debutó con el álbum Romance & Yasmin (2000), que le hizo merecedora de una nominación como mejor artista revelación por la BBC Radio en la categoría de música del mundo. Con su segundo disco, La Judería (2005), ganó otra nominación, esta vez en la categoría culture crossing. En octubre de 2007 lanzó su álbum Mano suave, en el que incluye un dueto con Natacha Atlas. En octubre de 2009 llega su nueva grabación, Sentir, producida por Javier Limón y que incluye una versión de La hija de Juan Simón, de Antonio Molina