116 – Portada

 

“Cada día, cada año es una bendición. 

Cada luz de día recibida.

Cada enseñanza de vida.

Cada experiencia llevada por la vida
es una bendición.

Cada amor entregado y recibido
es una bendición.

Cada error cometido y tropiezo en el camino
da oportunidad por cada día conseguido
el reparo y la esperanza de seguir.

Con eso te deseo que cumplas
muchos años más
lleno de bendición y felicidad.”

116 – Cosecha

 

 

DIOS MIO  – Jorge Sierra

ANSIOSO DE TU AMOR. – Jorge Sierra

ME LO TRANSMITEN TUS BESOS. – Jorge Sierra

NADA ME QUISO DEJAR. – Jorge Sierra

REGRESSANDO SEMPRE – Henrique Mendes

JAMAS HAN DE CALLARME. – Jorge Sierra

NADA ME QUISO DEJAR. – Jorge Sierra

Rambo Fly – Leonor Aguilar

TU LUCES COMO UNA REINA. – Jorge Sierra

ME VOY – Jorge Sierra

EL NIDO – Jorge Sierra

Reflexos – Flor Brasil

 

 

 

Encontrei o Poeta

Encontrei o Poeta

por Soraya Souto (Brasil)

 

 

Ontem, caminhando pela praia, encontrei o Poeta.
Ele vinha devagar, deixando que vento agitasse seus cabelos e a areia brincasse com seus pés descalços.
Não sorriu, mas aceitou minha mão e seguimos juntos, dedos entrelaçados, caminhando lado a lado, dividindo aquele fim de tarde de céu rubro e brisa fresca.
Meu coração batia acelerado, pressentindo toda a agitação interior que ele trazia consigo.
Quando as estrelas chegaram, deitamo-nos na areia úmida para admirá-las. Acima do som do mar, ouvi a sua voz:
_ Já não consigo escrever sobre as estrelas, nem as decifrar, por isso não consigo acrescentar nada às noites escuras e solitárias. Passo os dias à espera delas, mas quando a noite chega apenas a angústia toma o meu coração. São tantas, e tão diferentes entre si, que minha escrita já não consegue dar-lhes voz.
_ Então vamos ficar aqui – respondi – sob esse céu, saciados apenas com a visão que elas oferecem.
Ali, no silencio, senti que as ondas chegavam, tocando de leve nossos pés. Seu riso fraco chegou aos meus ouvidos.
_ Quando eu era criança- disse –  fitava o céu à espera que uma estrela cadente cruzasse e realizasse meus pedidos. Fiz tantos, e grande parte realmente se concretizou.
_ Acredita então nas estrelas, Poeta?
Ele não respondeu de imediato, e quando falou tinha os olhos brilhantes e vidrados.
_Acredito nas estrelas e nos sonhos que elas guardam. Na esperança que os corações têm de atingi-las, e também na infinita distância de onde me observam.
Um tremor percorreu sua mão. Apertei mais forte seus dedos, lembrando-lhe que estávamos juntos, e eu sempre o apoiaria. O Poeta nunca me pareceu tão frágil, por isso tentei encontrar as palavras certas para aquela conversa.
_E por que precisa tanto delas?
_Para descrever a luz quando o mar se aproxima, e o reflexo que faz brilhar a areia da praia. Sem elas não se vê o arrepiar na pele, provocado pela brisa, ou o amor refletido no olhar do amante que espera. Sem elas meus versos ficam presos à terra, sem sonhos nem voos.
Virei-me para fitá-lo, e percebi as lágrimas que corriam pelo rosto tenso. Me ocorreu que elas também vinham em ondas, como aquele mar.
Senti um frio percorrer minha pele até à garganta, impedindo minha voz. Me faltaram palavras perante aquela dor.
Alí perto soaram acordes de um violão, e minutos depois uma voz iniciou uma canção. Era uma balada de amor, vinda de uma das casas ao longo da praia, e por alguns momentos ficamos ambos a ouvi-la, quietos e pensativos.
Ao final, ele voltou a falar.
_ Até mesmo a música precisa das mensagens das estrelas, percebe? Sem a poesia os corações padecem e se tornam infecundos…
Era possível perceber as aflições do espírito que faziam com que ele respirasse forte, como um gemido surdo.
Foi então que nossos dedos se soltaram, e o Poeta se levantou.
Não disse adeus, apenas me fitou com a ternura com que os poetas trazem nos olhos, e partiu sem olhar para trás.
Vi seu vulto afastar-se e lamentei a solidão que agora nós dois sentíamos, mas que não podíamos evitar. Ele tinha uma angústia dolorosa, difícil de descrever e, incapaz de suportá-la, perdoei sua partida.
Ao vê-lo já longe, pensei no preço que pagamos por não sermos apenas um, mas sim todos os que somos capazes de viver e interpretar. Uma eterna luta que atormenta aqueles que leem as estrelas ou escutam as ondas do mar.
As suas palavras marcaram meu coração com a mesma força, e da mesma forma com que a poesia sempre costuma fazer, em noites como aquela.

A seguir soñando…

A seguir soñando…

 

 

por Sandra Sierra Gasca (México)

Tengo un sueño, un solo sueño, seguir soñando: soñar con la libertad, soñar con la justicia, soñar con la igualdad y ojala ya no tuviera necesidad de soñarlas.

Soñar a mis HIJOS, grandes, sanos, felices, volando con sus alas, sin olvidar nunca el nido.

Soñar con el amor con amar y ser amado dando todo sin medirlo, recibiendo todo sin pedirlo

Soñar con la paz en el mundo,en mi país….en mí misma y quien sabe cual es más fácil de alcanzar.

Soñar que mis cabellos que relean y se blanquean no impidan que mi mente y mi corazón sigan jóvenes y se animen a la aventura, sigan niños y conserven la capacidad de jugar.

Soñar que tendré la fuerza,la voluntad y el coraje para ayudar a concretar mis sueños en lugar de pedir por milagros que no merecería.

Soñar que cuando llegue al final podré decir que viví soñando y que mi vida fue un sueño soñando en una larga y plácida noche de eternidad…

A VARANDA DE VIDRO

A VARANDA DE VIDRO

En portugués y español – por Henrique Mendes (Portugal)

 

Os passarinhos costumavam entrar  na varanda para comer, e apanhavam minhocas nos vasos e migalhas no chão enquanto saltitavam alegremente dum lado para o outro, felizes e contentes.

A varanda rodeava toda a casa e, vendo como os passarinhos gostavam de brincar por ali, os donos da casa colocaram dois bebedouros para eles. Foi um sucesso, e em pouco tempo o lugar ficou famoso. Vinham passarinhos de longe, brincando uns com os outros, para comer e beber.

Eram de todas as espécies e de todas as cores, e coloriam o mundo enquanto batiam as asinhas e tomavam uns banhos agitadíssimos que espirravam a água longe.

Mas sempre que alguém se aproximava e entrava na varanda, os passarinhos fugiam com medo, sem perceber que ninguém pretendia  fazer-lhes mal.  Tristes com isso, os donos da casa resolveram fechar  com vidro as enormes varandas, deixando lá dentro os passarinhos.

Primeiro, foi um desespero. Os passarinhos não sabiam o que fazer, e voavam contra o vidro.  Muitos batiam com força e morriam. Muitos morreram.  Depois, aos poucos, alguns se habituaram a viver naquele espaço fechado por paredes que não se viam. E os filhotes que eclodiram dos seus ovinhos, já cresceram conhecendo os limites invisíveis daquele luigar perfeito que eram as varandas.

Havia muitas espécies de plantas, tinham água e comida, e não havia predadores. Mesmo os gatos da casa ficavam sempre do lado de fora, escondidos entre as plantas que cresciam encostadas à parede invisível.

Claro que os passarinhos de dentro olhavam com muita curiosidade os passarinhos que vinham pousar nos galhos dos arbustos do jardim, e acabavam chilreando uns para os outros em irmandades de passarinho.

Também aos poucos se habituaram a conviver assim divididos, sem que nenhuns deles entendesse muito bem o que era aquela enorme vidraça que era algo assim como uma parede que não se via, e que os separava quando tentavam estar juntos. Apenas isso.

Assim mesmo, todas as manhãs, naquela hora em que os passarinhos decidem que o dia deve começar,  havia dois que sempre se buscavam e ficavam, um de cada lado no seu galho, piando, amigos de longa data.

Um deles era gordinho, com penas luzidias e lustrosas. Vivia dentro de uma casinha que alguém tinha escavado num pedaço de tronco de uma árvore velha, e que agora ficava num dos cantos da varanda.

O outro, do lado de fora, era mais magro mas muito mais forte, mais agitado, nervoso, sempre com as penas mais rebeldes eriçadas pelo vento. Vivia de olho nos insectos que passavam ao seu alcance, preocupado com comida, e aproveitava as gotas que pingavam da torneira do jardim para poder beber, disputando o lugar com os outros passarinhos ao redor da poça que se formava no chão. E claro que não entendia as queixas do seu amigo que vivia dentro da varanda.

-Tu tens tudo! – dizia-lhe – Não entendo o teu piar triste. Nunca precisas dormir na chuva, nem ficar preocupado com os gatos que nos querem comer. Não sabes o que é passar fome nem sede, e tens um ninho bem protegido. Queixas-te de quê, afinal ?

-Ah! – suspirava o passarinho de dentro – Eu queria poder voar mais longe, para onde eu quisesse. Brincar no meio das flores e apanhar insectos saborosos. Aqui, não posso. Conheço poucos cantos…

-Mas eu já te vi cantar, quando estás alegre! – argumentou o passarinho de fora.

-Sim! E também sei um canto  para quando estou triste. E outro para quando tenho medo do gato que fica só me rondando, tentando entrar.

-E só sabes esses ? Não sabes o canto de andar perdido ? Nem o canto de chamar os amigos, quando se encontra comida ? Nem o canto para acasalar ?

-Esse de acasalar, eu conheço. Conheço mais ou menos. Somos poucos, não é ? Então as femeas daqui atendem ao meu chamado mesmo que eu cante muito mal. Precisam de mim, e acabam por conformar-se…

-Hummm… Acho que entendo!- piou o passarinho do lado de fora- Mas tens tantas coisas boas, que eu queria ter…

-Mas a minha vida é desinteressante. Ninguém me dá valor, basta estar aqui. Não vivo melhor se caçar insectos. Nem de um belo canto nupcial eu preciso, já viste ? Basta comer os grãos que nos dão e estar aqui, enfeitando o mundo à força…

-É por isso que te calas, quando os teus donos se aproximam?

-Claro ! É a minha vingança de passarinho! Apenas me dão o necessário para eu estar aqui. Não me deixam ser livre, nem fazer tudo o que eu poderia fazer. Obrigam-me a ser menos do que eu sou, mas ninguém consegue obrigar-me a colaborar, e é por isso que a vida aqui é tão triste. Quando eles chegam perto, todos nós, passarinhos, nos calamos em protesto!

-Mas olha que a vida aqui fora é terrível. Perigosa e muito injusta. Os mais fortes é que se safam. Os mais fortes comem os mais fracos.Pensa nos gaviões! Quantos de nós já eles mataram com aquelas garras poderosas ? Nunca nos matam a todos para que nos possamos reproduzir, e eles sempre tenham quem caçar e quem comer…

-E achas que aqui dentro é melhor? A nós roubaram-nos tudo. Agora já somos apenas o que sobrou de nós.  Dantes, alegravamos o mundo, agora enfeitamos o espaço de alguém.

-Isso é verdade! – concedeu o que estava no exterior.

-Já nem seríamos capazes de viver aí fora, junto com vocês, nem fugir dos gaviões ou esconder nossos ovos das cobras que atacam os ninhos. Esquecemos os nossos cantos… E não temos fôlego para voar longas distâncias, nem para brincar no meio das flores do campo nas manhãs de primavera. Até na morte somos diferentes…

-Na morte ? Não entendo. Morte é morte…

-Sim, mas vocês morrem sendo comida para alguém. Nós morremos e somos deitados no lixo, não servimos para nada. Somos um colorido que desapareceu da varanda, não mais.

Sempre era esta a conversa dos dois amigos. E assim foi naquele dia, até que as núvens se juntaram prometendo uma tempestade muito forte, e o passarinho de fora teve de voar procurando abrigo. Depois veio a noite, e o vento do temporal, e um galho foi lançado pela  ventania quebrando os grandes vidros da varanda em mil pedacinhos.

No dia seguinte, o passarinho de fora aproximou-se novamente. Vinha com medo de não encontrar mais o seu amigo. Com toda a certeza ele teria aproveitado e fugido, mesmo sabendo que ia ter de voltar ou morrer.

Mas não. Lá no fundo, dentro da varanda, os seus amigos continuavam pousados nos pequenos poleiros de sempre. Mas estavam de costas viradas para a rua, e desse dia em diante, nunca mais cantaram.

Quem me contou esta história, acrescentou um pouco mais. Disse-me que assim são também os homens.  Alguns, vivem num mundo tão controlado pelos governos, quem já nem entendem mais o mundo, nem seriam capazes de viver noutros lugares. Acabam perdendo a vontade de serem o melhor que poderiam ser – o melhor de si mesmos.

Apenas não cantam, nos desfiles e paradas organizadas para mostrar que existem, felizes e gordinhos.

 

El balcón de vidrio

 

Los pajaritos tenían por costumbre adentrar en el grande balcón para comer, y cogian vermes en los vasos con plantas mientras saltaban alegremente por todas partes, felices y contentos.

El gran balcón rodeaba toda la casa y, viendo que a los pajaritos les gustaba jugar por allí, los dueños de la casa colocaron dos bebederos para ellos. Fue un suceso, y en poco tiempo el lugar se hizo famoso. Venían pajaritos de lejos, jugando unos con los otros, para comer y beber.

Eran de todas las especies y colores, y coloreaban el mundo con sus alitas mientras bebían y se bañaban desparramando lejos el agua. Pero siempre que alguien adentraba el balcón para acercarse, ellos huían inmediatamente sin entender que nadie pretendía hacerles daño. Pesarosos con eso, los dueños de la casa tomaron la decisión de cerrar con vidrios los enormes balcones, dejando adentro los pajaritos. Así podrían vivir sin que nada les faltara y a la vista de todos.

Primero fue un horror. Pajaritos desesperados y sin saber qué hacer, se daban cabezazos contra los vidrios. Muchos lo hicieron. Muchos quedaron muertos. Pero poco a poco algunos se acostumbraron a vivir en aquel espacio cerrado por paredes que no podían verse. Y la generación siguiente, nacida de sus huevitos, crecieron conociendo los límites invisibles de aquel lugar perfecto que eran los balcones.

Había plantas de todos tipos, plantadas en vasos, y los pajaritos tenían agua y comida, y no había predadores. Los gatos de la casa quedaban siempre afuera, intentando esconderse entre las plantas que crecían junto a la pared invisible.

Claro que los pajaritos de adentro miraban con mucha curiosidad a las otras avecitas que venían a posarse en las plantas del jardín, y no dejaban de comunicarse entre ellos, en hermandades de pajaritos.

Poco a poco también se acostumbraron a convivir así divididos, sin que ninguno de ellos pudiese comprender completamente qué eran aquellos enorme vidrios, algo así como un límite mágico que los separaba cuando intentaban estar juntos. Apenas eso comprendían.

Así mismo, todas las mañanas en aquella hora que los pajaritos creen que el día debe empezar, dos de ellos siempre se buscaban y quedaban piando entre ellos, uno adentro y otro afuera, amigos del alma.

Uno de ellos era gordito y con plumas lustrosas. Vivía dentro de una casita que alguien había hecho en un agujero de un viejo tronco de árbol que ahora quedaba acostado en uno de los cantos del balcón.

El otro, del lado de fuera, era más delgado pero mucho más fuerte, más agitado y nervioso, siempre con sus plumas rebeldes erizadas por el viento. Quedaba siempre atento a los insectos que pasaban cerca de él, preocupado con la comida, y muchas veces los cazaba en un corto vuelo fatal. También aprovechaba el agua que goteaba del grifo, y disputaba duramente con los otros pajaritos en rededor de la poza de agua que se formaba en el suelo. Y claro que este pajarito no comprendía las quejas de su amigo que vivía dentro del balcón.

!-Lo tienes todo!- decía – No entiendo tu piar tan triste. Jamás necesitas dormir en la lluvia, como hago yo. Tampoco necesitas preocuparte con los gatos que siempre buscan cazarnos. No sabes qué es pasar hambre y sed, y tienes un nido perfecto, lindo y protegido. Entonces ¿de qué te quejas, amigo?

-Ah! – suspiraba el pajarito de dentro – Yo quería poder volar más lejos, para donde quisiera. Y me gustaría jugar en medio de las flores, buscando insectos sabrosos. Aquí no puedo. Y casi no sé cantar, conozco pocos cantos…

–  ¡Pero yo te he visto cantar, cuando estás alegre! – argumentó el pajarito de fuera.

– ¡Sí, de acuerdo! Claro. Y también sé un cántico para cuando estoy triste. Y otro para cuando tengo miedo del gato, que queda rondando por aquí…

–  ¿Y esos son todos qué sabes? ¿No sabes el cántico de andar perdido por ahí ? ¿Ni el otro para llamar los amigos cuando encuentras comida? ¿Ni el cántico para agradar a las hembras ?

– Bueno, ese para agradar las hembras creo que lo conozco más o menos. Somos poquitos aquí dentro. Por eso las hembras acuden a mi llamado lo mismo que cante mal, ¿no? Me necesitan y hay que conformarse…

-Hummm… ¡Creo que te entiendo! – pió el otro pajarito. Pero piensa bien, tienes tantas cosas que a mi me gustaría mucho tener…

-Sí, pero mi vida no es interesante. Nadie me da valor, basta que quede aquí sin hacer nada. No vivo mejor sin cazar insectos. Ni siquiera necesito de un bello cántico nupcial, ¿entiendes? Basta quedarme aquí ornamentando el mundo a la fuerza…

–  ¿Y por eso te callas cuando se acercan tus dueños?

-Seguro que sí. Es mi venganza de pajarito. Apenas me dan el necesario para que esté aquí. No me dejan ser libre, ni hacer todo lo que podría hacer. Me fuerzan a ser menos de lo que soy, pero nadie puede hacerme colaborar, y por eso la vida aquí es tan triste. Cuando ellos se acercan todos nosotros, los pajaritos, nos callamos en protesta.

-Pero no te olvides que la vida aquí afuera es terrible. Es peligrosa y muy injusta. Los más fuertes son los que se salvan. Acá, los mas fuertes comen los más débiles. Piensa en los halcones. ¿Cuántos de nosotros mataron con sus garras poderosas? No, no  matan a todos para que nos podamos reproducir y tengan siempre qué comer.

-Sí, ¿pero crees que aquí dentro es mejor? A nosotros nos robaron todo. Ahora somos apenas lo que restó de nosotros. Antes, éramos la alegría del mundo. Ahora adornamos el espacio de alguien, no más que eso.

-Eso es verdad…

-Piensa que ya no podríamos vivir fuera de aquí, junto con ustedes. No sabríamos cómo escapar de los halcones, o cómo esconder nuestros huevitos de las cobras que invaden los nidos…. Olvidamos nuestros cánticos…y no tenemos aliento para volar largas distancias, o jugar entre las flores del campo en las mañanas de primavera. Mismo en la muerte somos diferentes…

-¿En la muerte? No entiendo. Muerte es muerte…

-Sí, pero ustedes mueren siendo comida para otros. Nosotros morimos y nos ponen junto con la basura de la casa, pues no servimos a más nada. Somos un colorido que desapareció del balcón, no más…

Siempre era esta la plática de los dos pajaritos. Y así fue en ese día, mientras las nubes empezaron a concentrarse con la promesa de una gran tempestad, y por eso, el pajarito de afuera tuvo que buscar donde abrigarse. Después llegó la noche y el viento muy fuerte, y una rama fue lanzada contra los vidrios del balcón, destruyendo algunos.

Al día siguiente el pajarito de afuera se acercó otra vez. Venía con miedo de no encontrar más a su amigo. Seguramente habría aprovechado para escapar, a pesar de saber que iban tener que volver o morir. Pero no pasó así. Dentro del balcón, sus amiguitos estaban posados en sus ramas acostumbradas. Apenas habían vuelto las espaldas para el exterior, y después de ese día no volvieron a cantar.

Quien me contó esta historia, agregó un poco más. Me dijo que también así son los hombres. Algunos viven en un mundo tan controlado por los gobiernos que ya no entienden más el mundo que los cerca, y no serían capaces de vivir en otros lugares. Pierden las ganas de ser lo mejor que podrían ser – lo mejor de ellos mismos.

Apenas no cantan en los desfiles y paradas organizados para mostrar cómo existen y están felices y gorditos…

UN CANTO EN LA NOCHE –

UN CANTO EN LA NOCHE

por Martha Larios (México)

 

 

Y cuando llegue el día del último viaje, 
y esté al partir la nave que nunca ha de tornar, 
me encontraréis a bordo ligero de equipaje, 
casi desnudo, como los hijos de la mar
Antonio Machado

 

Era la tarde del 2 de noviembre, Día de Muertos, gran celebración Mexicana. Como cada año, el grupo cultural se apresuraba a preparar el escenario, que en esa ocasión sería un zompantli, que es una especie de pared, hecha de cráneos humanos de varios tamaños y formas, de papel maché o reciclado pintados de blanco con un marco de flores de cempoalxochitl, como en nuestros ancestros hacían antes de la invasión española.

Eran varios amigos de diversas edades, que con tiempo se organizaban para realizar un evento a a los seres queridos que se han ido, tanto de ellos, como de los que a pesar del frío se venían para acompañar y disfrutar de una noche mágica.

Era un foro abierto al arte, así que siempre, había sorpresas inesperadas, pues no había un programa establecido, solo el inicio, que consistía en dar la bienvenida a las almas tocando instrumentos prehispánicos, como flautas de barro, huehuetl (tambor de madera y piel de algún animal), teponaztli (instrumento horizontal de madera hueca con dos lenguetas decorado con figuras de animales que solo produce dos sonidos muy agradables, al tocarse con baquetas de madera,  o simplemente haciendo sonar un gran manojo de ayoyotl (semillas) o capullos de mariposa, llamados actualmente huesos de fraile, contra los rieles de la vía del ferrocarril y en voz alta, se invitaba a las almas de los seres queridos de los presentes a asistir a la fiesta dedicada a ellos.

Todos, llevábamos algo para la ofrenda de esa noche, sal, agua, frutas, velas, papel picado, flores de cempoalxochitl, delicioso pan de muerto de sabores como canela, guayaba, naranja, etc., tamales, dulce de camote morado elaborado con diversas frutas, platillos y postres que solo se preparan para estas fechas.

Como mencioné antes, nunca se sabría qué habría a continuación, pues se convocaba a poetas, cuenta-cuentos, bailarines, danzantes, músicos, a quien quisiera pasar al escenario. Acudían personas de todas las edades, con gran entusiasmo a participar de la fiesta. Solo tenían que llegar y anotarse y era tan apreciado y exitoso, que empezaba desde la tarde y terminaba al amanecer. Esa noche habría una gran sorpresa, pues ni los organizadores sabían.

Se realizó con misticismo y alegría. Todo fue un éxito, como normalmente sucedía. Estábamos a punto de irnos, cuando llegó un joven, preguntando si podía ocupar el escenario,  diciendo que cantaría, y desde luego se le autorizó inmediatamente, faltaba muy poco para que terminar, además no podíamos verlo pues estaba muy obscuro. Eran las dos de la mañana, y los organizadores pensamos que sería magnífico como cierre. Pues solo faltaba usar la mojiganga, que es una figura grande de de cartonería, y dentro de ella va una persona para moverla, que desde luego para esta celebración es la famosa Catrina. Y compartir la ofrenda con los asistentes.

Al acercarse a la luz, el joven nos impresionó, era extremadamente delgado, más alto que la estatura promedio de la zona, media aproximadamente 1.90 mts., cara afilada, manos largas como de pianista, blancos como la cera, ojos hundidos, podría decir que eran obscuros como la noche y no se les veía fin.  Su vestimenta era muy peculiar, la cabeza no parecía tener cabello y estaba cubierta por una especie de pañoleta de manta de cielo negra anudada en la nuca y colgaba de lado hasta casi la cintura. Usaba una camisa de corte extraño y único, una falda-pantalón cruzada al frente y botas altas para montar, todo en negro, lo que hacía que se viera muy elegante y plásticamente perfecto.

Con gran seguridad, subió al improvisado escenario y se empezó a escuchar un sonido tremendamente fuerte, intenso y cascado, resonaba en la noche la inconfundible voz de Lucha Reyes, la cantante Mexicana, quien había muerto en 1944. Una sola canción fue suficiente para dejarnos a todos impactados y con la boca abierta. Apenas podíamos creerlo.

En ese momento, por una extraña razón y sin ninguna explicación lógica, vino a mi mente el poema de Octavio Paz  “Óyeme como quien oye llover, ni atenta ni distraída, pasos leves, llovizna, agua que es aire, aire que es tiempo, el día no acaba de irse, la noche no llega todavía, figuraciones de la niebla al doblar la esquina, figuraciones del tiempo en el recodo de esta pausa, óyeme como quien oye llover, sin oírme, oyendo lo que digo con los ojos abiertos hacia adentro, dormida con los cinco sentidos despiertos, llueve, pasos leves, rumor de sílabas, aire y agua, palabras que no pesan: lo que fuimos y somos, los días y los años, este instante, tiempo sin peso, pesadumbre enorme, óyeme como quien oye llover, relumbra el asfalto húmedo, el vaho se levanta y camina, la noche se abre y me mira, eres tú y tu talle de vaho, tú y tu cara de noche, tú y tu pelo, lento relámpago, cruzas la calle y entras en mi frente, pasos de agua sobre mis párpados, óyeme como quien oye llover, el asfalto relumbra, tú cruzas la calle, es la niebla errante en la noche, es la noche dormida en tu cama, es el oleaje de tu respiración, tus dedos de agua mojan mi frente, tus dedos de llama queman mis ojos, tus dedos de aire abren los párpados del tiempo, manar de apariciones y resurrecciones, óyeme como quien oye llover, pasan los años, regresan los instantes, ¿oyes tus pasos en el cuarto vecino? no aquí ni allá: los oyes en otro tiempo que es ahora mismo, oye los pasos del tiempo inventor de lugares sin peso ni sitio, oye la lluvia correr por la terraza, la noche ya es más noche en la arboleda, en los follajes ha anidado el rayo, vago jardín a la deriva -entra, tu sombra cubre esta página-”

El extraño personaje, bajó y se fue rápidamente, sin decir nada, y sin esperar el aplauso, el cual se quedó congelado en medio de esa noche, de lluvia, frío y obscuridad.

Nunca supimos quien fue, estábamos tan impresionados que nadie se movió, ni lo siguió para preguntar.

Poco a poco y en silencio, todo mundo empezó a irse, ya no hubo fin de fiesta como se acostumbraba, y seguramente ese recuerdo quedó para siempre en nuestra mente. Y la pregunta flotaba en el aire enrarecido, ¿Acaso fue un vistazo rápido al más allá?

O MEU AMIGO PIPOCAS

O MEU AMIGO PIPOCAS

por Henrique Mendes (Portugal)

 

Pede-me Leonor para falar de um dos meus cães. Imediatamente me veio à cabeça o Pipocas, mas como falar dele ? O seu diminuitivo era Pocas, e fomos inseparáveis desde o dia em que nos conhecemos numa petshop.

Na loja havia havia um pequeno recinto onde brincavam uns doze cachorrinhos cocker spaniel. Divertido com as suas travessuras, baixei-me para acariciá-los. Quando me levantei, um deles veio pendurado na minha gravata e recusava-se a largá-la. Era o Pocas. Preto, barrigudinho, com uma pequena mancha branca no peito.

Enquanto o comprava descobri que tinha um longo pedigree, e que se chamava realmente Kodak, mas isso eram apenas detalhes de um acontecimento maior: -Tinhamo-nos conhecido e agora ele era meu. Pelo menos, isso era o que eu achava.

Mas óbviamente ele tinha algo a dizer sobre o assunto e, logo nesses primeiros momentos, ficou claro que ele achava que eu que agora lhe pertencia, para ter e cuidar. E, talvez para marcar bem o seu ponto de vista, foi todo o caminho até casa sentado no meu colo, enquanto eu dirigia o carro – meio pendurado, mas sem me soltar  a gravata.

Depois, quando chegamos e o coloquei no chão da sala, finalmente soltou-me. Mas foi apenas para avançar rosnando e correndo de lado, muito trapalhão, sobre a Estrelinha, uma cocker spaniel dourada já quase adulta, com uma estrela branca na testa,  que, surpreendida por se ver assim atacada por aquela ínfima criatura, fugiu.

Então ele deu-se por satisfeito e regressou para o meu colo com aquele ar muito orgulhoso de quem tinha afastado um inimigo. Claro que voltou a  abocanhar a minha gravata que, nessa altura, já estava toda marcada dos seus dentes afiadíssimos. Acabei por oferecer-lha, e ele corria por todo o lado arrastando-a atrás de si, brincando, tropeçando nela e caindo, mas sem nunca a soltar.

Rápidamente entendeu que a Estrelinha não era inimiga nem representava  nenhum perigo para mim. Tornaram-se grandes amigos, e logo nessa primeira noite ele já dormiu enroscado entre as patas dela. Com a minha gravata na boca, evidentemente.

Como o Pocas era muito pequenino e sempre perseguia os atacadores dos meus sapatos, eu receava pisá-lo. Então coloquei-lhe ao pescoço um pequeno guizo que ia sinalizando a sua posição. Graças a isso percebi que ele ia várias vezes por noite ao meu quarto apenas para ver se eu estava bem. Eu acordava com o ruido do guizo e lá estava ele, sentado nos quartos traseiros como se fosse um cão adulto, olhando-me com toda a atenção. Depois voltava para a cama da Estrelinha. A dele, nunca a usou.

Os anos passaram, e o Pocas cresceu. Não foi preciso ensinar-lhe nada, a Estrelinha encarregou-se disso. Não subia para os sofás, não fazia barulho dentro de casa, e buscava o canto certo do jardim para fazer as suas necessidades.  Creio que nunca ladrou a ninguém, excepto quando ficava no carro e entrava em modo de cão de guarda. Nessa altura, se alguém se aproximava demais, ou se mexia no carro, ele transformava-se numa fera, com os dentes muito grandes e muito brancos batendo nos vidros do carro – e era realmente intimidante.

Ele e a Estrelinha tiveram uma linda ninhada de sete crias, uns pretos como ele, outros dourados como ela. Todos lindos, barrigudinhos e saudáveis, com uma energia e uma curiosidade avassaladoras. O Pipocas revelou-se um pai formidável, com uma paciência a toda a prova.

Como a casa tinha sido construída em socalcos, havia várias escadas dentro e fora, no jardim. Isso era um problema para os bébés, claro. Por isso o Pocas agarrava-os pela pele do pescoço e levava-os, um a um, escadas acima e escadas abaixo, sempre que era necessário. Foi assim até eles conseguirem fazê-lo sozinhos. Demorou!

Com o passar dos anos, atravessámos juntos um divórcio. A Estrelinha  ficou com a dona, e nós dois buscámos outros ares. Daí em diante, ele passava muito tempo dentro do meu carro, acompanhando-me enquanto eu visitava clientes, numa permanente busca por sombras onde estacionar.

Também ia-mos juntos ao café onde, logo de manhã, eu tomava a primeira refeição do dia em pé, de frente para o balcão. Ao meu lado, sentado sobre as patas traseiras, o Pocas copiava os meus gestos, e ficava olhando os bolos através do vidro. Acabámos descobrindo um bolo de arroz, quase sem açucar, que o dono do café passou a trazer para ele tal como trazia para mim as coisas que eu costumava comer: sem perguntar. Ele comia duma vez só, quase sem mastigar, e continuava olhando o balcão, compenetrado e tranquilo.Os outros clientes viam e achavam graça. Diziam que éramos iguaizinhos.

Aos poucos tornámo-nos conhecidos, ali e na praia, onde o Pocas se especializou em abordar as moças que apanhavam sol deitadas de barriga para baixo. Normalmente estavam sem a parte de cima do bikini, que tinham tirado e deixado sobre a toalha, ali do lado.  O Pipocas aproximava-se com aquele ar de quem quer meter conversa, simpático, deixava-se acariciar sem problemas, e ainda ganhava umas batatinhas fritas de vez em quando. Depois,  quando faltavam as batatas ou quando ele achava que estava na hora, abocanhava o pedaço do bikini e fugia para junto de mim.

Um amigo meu, que costumava estar presente, ria-se e elogiava-o: ” Good- boy!”, dizia enquanto o coçava detrás das orelhas, como ele gostava. Não sei se foi isso que o incentivou, mas era muito frequente  a presença de moças embrulhadas em toalhas, reclamando enquanto apanhavam o biquini todo enrolado e cheio de areia, parecendo um croquete.

Todos os meus amigos adoravam o Pocas por causa das moças que ele trazia até junto de nós, mas elas também. Claro que lhe davam restinhos de sorvete, e ele adorava o pessoal todo. A propósito de sorvete, lembro das vezes que, correndo os olhos pela praia, fui encontrar o Pocas sentado em frente a uma criança, comendo o sorvete a meias com ela. Mas educadamente, que é que julgam ??  Agora lambes tú, agora lambo eu! Não roubava o sorvete das criancinhas nunca. Claro que os pais, normalmente, quando se apercebiam do que se passava, compravam outro sorvete para os seus filhos e deixavam o primeiro para o Pocas comer sozinho. E nessa altura sim, quando percebia que era só para ele hesitava um pouquinho e depois comia tudo de uma só vez.

Quando mais tarde voltei a casar, morava em apartamento. Receei que ele se tornasse demasiado cioso do espaço e não acolhesse bem a nova dona, que nao estava habituada a ter cão dentro de casa. Mas, ao contrário, ele rápidamente arranjou uma forma de se deitar sobre os pés dela ( e não mais os meus…) trazendo com ele uma bola de borracha rosa pink que ela lhe tinha oferecido algum tempo antes. Depois disso, passou a ser ali o lugar habitual dele dormitar enquanto viamos televisão.

Adoptou de tal maneira a nova dona que durante uma semana em que ela esteve doente, ele deitou-se no quarto, perto da cama, e deixou de comer, desanimado e desgostoso. Aos poucos, recuperaram ambos.

Mas aos poucos o tempo passou. O Pocas começou a não ser capaz de saltar sozinho para dentro do carro, depois começou  a não me acompanhar, quando eu me movimentava dentro de casa. Por fim começou a ficar parado em pé, arquejando. O seu coração fraquejou, com a idade, e não houve o que fazer. A morte aproximou-se a passos largos, rápidamente.

Por fim, tivemos de dizer adeus, num momento pungente em que ele foi pesando nos meus braços até chegar ao fim. Escolhi para ele um lugar que eu sei que seria do seu agrado, bonito e inacessível, junto das ruínas duma ponte antiga, que ficou parada no tempo, entre auto-estradas.  Sempre que passo de carro consigo ver de longe, por um instante, flores e borboletas, e passarinhos brincando em liberdade, e torna-se fácil imaginá-lo brincando por ali com uma velha gravata na boca.

Vizinhança

Vizinhança 

por Soraya Souto (Brasil)

 

 

Ele soube que teria problemas com a vizinha logo na primeira semana na nova casa.
Naquele domingo, depois de poucas horas de sono, foi acordado pela voz de um locutor de rádio que parecia estar muito longe dali:

“_ Bom dia amigos do campo, bom dia gente da cidade! Vamos levantar e tomar um cafezinho!”

Então, como fundo musical ao cumprimento, o canto estridente de um galo.

Ele colocou a cabeça sob o travesseiro, na tentativa de voltar a dormir. Foi inútil. Depois de alguns segundos, com o volume ainda mais alto, uma música que ele desconhecia o despertou definitivamente.

Levantou-se, abriu parte da cortina, e espiou a casa vizinha ao lado. Através da janela também aberta viu que uma senhora, cabelos brancos e gestos alegres, circulava pela cozinha. Cantarolava junto com a música no rádio e, ao se virar, seus olhos se encontraram.

Ela abriu um sorriso bondoso, e acenou para ele.

“_ olá vizinho! Lindo dia, não acha?”

Não respondeu. Fechou a cortina com rapidez, resolvido a ignorar a pessoa. Estava visivelmente aborrecido. Mas ao longo daquele dia foi observando sua vizinha pelas janelas e acompanhando a sua rotina. Era algo que não conseguia evitar, por mais que estivesse irritado com o barulho que ela fazia, e com o cachorro que latia freneticamente, cada vez que o via espiando a casa.

Naquela manhã de domingo ela parecia ocupada, entre panelas e portas do armário, que abria e fechava a todo instante. Viu quando preparou a mesa para o almoço e foi para a entrada da casa. Ali ficou por muito tempo, afagando o cão e com olhos fixos no portão, como se esperasse alguém.

Ele foi testemunha da sua decepção, visível no rosto triste, quando depois guardou os pratos postos, dobrou o forro florido da mesa e o guardou na gaveta. O rádio continuava em alto volume, mas ela já não acompanhava as canções, e logo o desligou.
No fim da tarde percebeu quando ela, arrumada e penteada, pegou uma pequena bolsa e saiu de casa. O cãozinho ficou no portão, obediente à ordem de sua dona.

Algum tempo depois ouviu o portão sendo aberto. Chegou à janela a tempo de ver o pequeno terço lhe caindo das mãos, ao tentar abrir a porta de entrada. Foi à missa, pensou. Ao acender as luzes ela o viu à janela, mas desta vez não fez qualquer gesto, e desviou o olhar.

Ele acabou se acostumando a levantar muito cedo todos os dias, despertado pelos ruídos na cozinha vizinha, e o cheiro do café que atravessava as janelas. A senhora era pontual, e antes mesmo do sol nascer era possível ver as luzes acesas e janelas abertas na pequena casa.

Quando ele voltava, ao final do dia, sempre a via alimentar o cachorro e apagar as luzes. Depois tudo silenciava, e só então ele se deitava para dormir.

Aos amigos, ele contava das noites curtas, da senhora inquieta e do rádio que o incomodava. Reclamava da vizinha, e dizia querer se mudar o quanto antes.

Mas para si, embora não admitisse, sentia simpatia pela senhora solitária. Assistiu angustiado a todos os domingos de espera por convidados que não chegaram, e esperava paciente as chegadas após as missas semanais. Achava divertido ouvi-la cantar sozinha, e até já reconhecia algumas músicas.

Algumas vezes, quando sabia que ela não estava, ia até o portão para afagar o cãozinho e admirar o jardim bem cuidado, com a pequena calçada de pedras. Depois voltava para casa e se perdia em lembranças da infância e de sua própria família, agora distante.

Assim se passaram várias semanas. Ele a observando à distância sem, no entanto, tentar um contato. Ela quieta e metódica, mas consciente do vizinho que estava sempre à janela.

Determinado dia, ao chegar do trabalho, ele viu a casa toda fechada. O cachorro também não estava por perto, e não notou qualquer movimento. Foi assim durante vários dias, e ele passou a sentir a ausência da vizinha.

Acordava no horário habitual e ficava no escuro à espera da música, do latido ou do ruído das panelas, mas nada se ouvia. Sentiu falta dos aromas de café e biscoitos. Vigiava as janelas e portão, mas nada mudava.

Foi tomado por uma preocupação crescente. Se lembrou que sequer sabia o nome da senhora, ou de qualquer pessoa que pudesse lhe informar. Começou a compará-la com a mãe, a avó, as tias que não via desde que se mudara do interior.

Passou a dormir mal, acordava ao menor ruído na rua e se levantava várias vezes durante a noite, para olhar pela janela. Passava os dias irritado e cansado, ansioso para voltar para casa.

Só então percebeu como a simples presença dela, na casa ao lado, lhe trazia a sensação de pertencer a algum lugar, de proximidade com alguém, mesmo com os limites que ainda tinham. A falta dela provoca uma sensação de abandono como nunca sentira.

Então, certa manhã de domingo, ainda sonolento, ouviu o latido. Pulou da cama em um salto e abriu as janelas. A senhora tinha voltado!

Podia vê-la andando pela cozinha, abrindo e fechando gavetas como sempre fazia. Sentiu uma grande alegria, e um alívio por perceber que ela parecia bem e animada.

Ficou por ali, indo e voltando à janela, até que ela o viu. Sorriram um para o outro. Quando ela lhe acenou alegremente, ele a cumprimentou de volta.

“Saudades de você!” – ela falou

“Senti sua falta!” – ele respondeu, já resolvido a ir até a casa vizinha.

Feliz se apressou no banho, se vestiu e correu até o portão da vizinha. Sem pensar muito bateu na porta. Escutou o arrastar de sandálias, e a porta se abriu. Ela sorria, como se soubesse que ele viria, e lhe ofereceu ambas as mãos, com carinho.
“_ Bom dia! Acabei de preparar um cafezinho, venha…”

Ela arrumou as xícaras enquanto ele tirava os biscoitos do forno, como se fosse um hábito entre eles.

Antes de começarem a refeição ele atravessou a cozinha e ligou o rádio, pois já estava na hora do programa que ela gostava. Ele imitou o canto do galo para faze-la rir, e se deliciou ao vê-la cantar algumas canções.

Ficou por ali até o final da tarde, depois a acompanhou à missa e a trouxe de volta.

Foi assim por muitos outros domingos, e essa é a história que ele conta até hoje, quando se lembra de sua querida vizinha.

Las cuatro estaciones de Verdi

 

Las cuatro estaciones de Verdi

 

 

Cuando decimos Las cuatro estaciones siempre pensamos en Vivaldi, pero este ballet no tiene absolutamente nada que ver. A los parisinos presentes en su estreno no les debía suceder lo mismo, porque la música de Vivaldi en esos momentos no era precisamente popular.

La partitura es la música de ballet de la ópera de Verdi “I Vespri Siciliani”, con interpolaciones breves de otras dos óperas de Verdi, “I Lombardi” y “Il Trovatore”. El ballet es sin trama. Pero sigue el escenario de Verdi para sugerencias alegóricas de las diferentes estaciones en un divertissement de una escena del salón de baile. El ballet Las cuatro estaciones se encuentra en el acto III, y viene después de la gran escena entre Montfort y Arrigo. Después de ese intenso diálogo entre ambos hay una fiesta en el palacio del gobernador Montfort.

El telón se eleva para el dios Janus, que introduce las personificaciones de las estaciones. En la sección Invierno ocho mujeres en tutús tiemblan, como las cuerdas de Verdi en el pozo. En términos formales, esta sección es realmente un pas de trois muy interesante con un equipo de respaldo.  Entre sus fascinaciones están la frecuencia con la que los artistas bailan juntos y sus frecuentes cambios de ritmo.

La sección “Primavera” fue llamada “Verdi Variations” cuando fue presentada como parte de “A Sketchbook”.  En ese momento, no tenía connotaciones estacionales, e incluso ahora su fuerte se basa en sus valores de pura danza. Los aspectos cómicos para un conjunto de cuatro hombres se destacan más hoy, y el humor es conceptual.

Verano sugiere un concepto  con un motivo Oriental en la música, corroborado con una atmósfera de harén de danza del vientre para un conjunto de seis mujeres. El buen juicio de uno lleva a desconfiar de esta sección, y sin embargo es posiblemente la más atrevida.  El final es una metáfora para la pasión del verano.

“Otoño” es una Noche de Walpurgis reeditada. Esta bacanal no es probablemente el tipo de ballet en el que Mikhail Baryshnikov esperaba encontrarse fuera de la Unión Soviética.  La velada de los celebrantes masculinos y femeninos se carga con el fervor de la estampida, la bacante y el fauno  se adueñan de la coreografía.

 

Las cuatro estaciones de Vivaldi

Las cuatro estaciones de Vivaldi

 

 

Las cuatro estaciones es un grupo de cuatro conciertos para violín y orquesta del compositor italiano Antonio Vivaldi. Es la obra más conocida de Vivaldi. Inusual para la época, Vivaldi publicó los conciertos con unos poemas de acompañamiento (posiblemente escritos por el propio Vivaldi) que describían qué quería representar en relación a cada una de las estaciones. Proporciona uno de los ejemplos más tempranos y detallados de lo que después se llamaría música programática o descriptiva, música con un elemento narrativo. Por ejemplo, el “Invierno” está pintado a menudo con tonos ocuros y tétricos, al contrario el “Verano” evoca la opresión del calor, incluso una tempestad en el último movimiento.

Vivaldi se esforzó en relacionar su música con los textos de los poemas, traduciendo los versos poéticos directamente en música. En la sección media del convierto Primavera, cuando las cabras duermen, su perro ladrando queda marcado por la sección de viola. De la misma manera se evocan otros acontecimientos naturales.

Hay cierto debate sobre si los cuatro conciertos fueron escritos para acompañar a los cuatro sonetos o si fue al revés.​ Aunque no se sabe quién escribió estos sonetos, hay una hipótesis que sostiene que Vivaldi mismo los escribió, considerando que cada soneto está dividido en tres secciones, claramente correspondientes a un movimiento en el concierto. Cualquiera que fuese quien escribió los sonetos, Las cuatro estaciones pueden calificarse de música programática, música instrumental que pretende evocar algo extra-musical​ y una forma artística que Vivaldi pretendía demostrar que era suficientemente sofisticada para ser tomada en serio.​

Además de estos sonetos, Vivaldi proporcionó instrucciones como “El perro que ladra” (en el segundo movimiento de “La primavera”), “Languidez causada por el calor” (en el primer movimiento del “Verano”), y “los borrachos se han quedado dormidos” (en el segundo movimiento del “Otoño”). Las cuatro estaciones se usaron en la película de 1981 Las cuatro estaciones junto con otros conciertos para flauta de Vivaldi.

PRIMAVERA

Llegó la primavera y festejándolo
La saludan los pájaros con alegre canto,
Y las fuentes con el soplo de los cefirillos
Con dulce murmullo discurren entretando:
Vienen cubriendo el aire con negro manto
Y rayos, y truenos, elegidos para anunciarla
Callando así estos, los pajarillos;
Vuelven otra vez a su canoro encanto.

Largo
Y así, sobre el florido y ameno prado,
Al caro murmurar de bosques y plantas
Duerme el cabrero con el fiel can al lado.

Allegro
De la pastoral zanfoña al son festejante
Danzan ninfas y pastores en el techo amado
A la brillante llegada de la primavera.

VERANO

Bajo dura estación por el Sol encendida
Languidece el hombre, languidece el rebaño, y arde el pino;
Suelta el cuco la voz, y cuando la entienden
Cantan la torcaz y el jilguero.
El Céfiro dulce sopla, pero en disputa
Se mueve Bóreas de improviso a su lado;
Y llora el zagal, porque suspendida
Teme a la fiera borrasca, y su destino.

Adagio e piano – Presto e forte
Roba a sus miembros laxos el reposo
El miedo al relámpago, y los fieros truenos
¡y de las moscas, y moscones, el tropel furioso!

Presto
¡Ah, que son sus temores verdaderos!
Truena y fulmina el cielo y granizoso
Trunca las cabezas de las espigas y los granos altera.

OTOÑO

Celebra el rústico, con bailes y cantos
La feliz vendimia y el alegre placer
Y del licor de Baco encendidos tantos,
Acaban con sueño su gozo.

Adagio molto
Hace cada uno saltos y bailes y cantos
El aire que templado da placer,
Y la estación que invita a tantos
De un dulcísimo sueño al bello gozo.

Allegro
Cazador que al alba sale a la caza
con cuernos, escopetas y jaurías salen fuera
Huye la fiera, y la rastrean;
Ya sorprendida, y agotada por el gran ruido
de escopetas y perros, herida amenaza,
Lánguida, con huir, pero abrumada muere.

INVIERNO

Helado tiritar entre la nieve plateada
al severo soplo del hórrido viento
correr batiendo los pies en todo momento;
Y por el soberbio castañetear los dientes;

Largo
Estar junto al fuego, tranquilos y contentos,
Mientras afuera la lluvia moja a ciento.

Allegro
Caminar sobre el hielo, y a paso lento
Por miedo a caer avanzar con cuidado;
Ir firme, resbalar, caerse al suelo
De nuevo ir sobre el hielo y correr rápido
Sin que el hielo se rompa, y se desmenuza;
Sentir que sale de las puertas herradas
Siroco, Bóreas, y todos los vientos en guerra
Esto es el invierno, pero tal, que alegría nos trae.