Dá-me uma hora!

Dá-me uma hora!

 

HENRIQUE MENDES

 

 

 

Dedicatória:

 

A todos os que, encantados com os detalhes,
percorrem as trilhas dum tempo que fazem seu.

Henrique Mendes

 

Prefácio

 

Escrever um prólogo leva consigo um compromisso. Por um lado, porque é a apresentação de um livro ao qual o autor dedicou muito tempo para elaborá-lo e que merece a minha melhor leitura e dedicação.

Por outro lado, porque o autor que me confiou a tarefa é sobretudo um amigo e companheiro na estrada da poesia, desde há muito tempo, e me crê capaz de fazê-lo.

Este livro é uma expressão e visão de Henrique sobre um tema inesgotável: o amor. E fá-lo apesar de ter sido advertido a não tomar o amor como fonte de inspiração, pondo à frente dos olhos do leitor poesias e prosas poéticas cujo resultado gera emoções em matizes os mais variados, saudades e esperanças, e de alguma forma nos faz sentirmo-nos parte de suas histórias em muitas passagens.

Os vários grupos de textos estão companhados de uma introdução pelo autor, às vezes mais curta, outras mais extensa e trabalhada, que nos expressa as causas que levaram a escrever os parágrafos que se lhe seguem, e nos colocam frente a um espelho onde vemos reflectidos momentos com diferentes tonalidades, de acordo com o passar do tempo e os sentimentos que deram origem ao poema, numa comunhão entre palavras, silêncios, tempo e e sentimentos.

Uma novelista espanhola dizia que “A palavra é a arma dos humanos para se aproximarem uns dos outros”. Para Henrique , a palavra é uma ferramenta importante, sempre cuidada e polida, que nos aproxima ao seu estilo próprio de escrita, e apenas nos pede uma hora para adentrarmos esse mundo. Eu convido-os a essa hora de leitura, e asseguro que é amena e merecedora.

Leonor Aguilar

*

Uma razão para este eBook?

Bem…

Um dia,  alguém me apontou um dedo que eu não esperava  e cravou-me no peito esta acusação terrível:

– Nunca escreves versos de amor !

A frase atingiu-me como uma chicotada dada sem dó. E confesso, doeu-me. Pior ainda, surpreendeu-me!

Acredito que o amor é dos temas mais presentes em tudo o que escrevo, embora  não pense nisso como sendo versos apenas, mas poesia duma forma mais ampla.

Que me perdoem os que dizem que não existe prosa poética da mesma forma que não existe verso prósico. Concordo com ambos, acreditando que existe um espírito poético que, com sorte, se manifesta de diversas formas. Nessas duas, e em todas aquelas nas quais formos capazes de lhe dar corpo, tradicionais ou não – do soneto à lista telefónica.

Sabendo o que escrevo, resolvi pôr-me a caminho, sem ponto de chegada. Dei-me uma hora para procurar os meus “versos de amor”.

Dêem-me uma hora e tentem lê-los.

Poema de amor      

Quando houver como,
vou escrever um poema de amor
que seja da cor da noite.
Onde não apareçam as palavras alvas
dos  entendidos e dos cantadores,
para eternizá-lo naquelas  purezas
em que ninguém mais acredita.
Onde não haja tampouco
aquela sapiência juanesca
gritada em ecos nos palácios,
nem desesperos de virtudes arrebatadas,
imoladas nos altares
de solidões inconfessáveis.
E que o meu poema não tenha
nenhuns desses heróis antigos,
incansáveis combatentes
estafados em justas inúteis,
defendendo honras ténues,
que eles mesmos perdiam…

Quero-o escuro,
cor da noite cúmplice,
onde uma pitada de medo
possa acrescentar gostosos  perigos
àqueles longínquos passos inocentes,
que ninguém mais cogitou escutar.

E quero-o sujo do barro dos caminhos,
e impregnado dos segredos das sombras
de todas essas esquinas
onde  esperas intermináveis
temperaram sentimentos fortes,
com maravilhosos devaneios.

E espero ainda que tenha todos os ruídos
do papel dobrado, amarrado com fitas,
onde vagos vestígios de cheiros
ainda evoquem o perfume e os anseios
de esborratadas e sempre eternas juras.

Que meu poema
contenha o sonho e a vertigem,
o sobressalto e a insónia,
as memórias de lábios e de mel,
os brilhos de todas as intenções,
e a cumplicidade dos deuses,
para que nunca seja definitivo,
e eternamente se renove em fervor…

Poemas 

São como fotos, os meus poemas.
Tentam captar momentos,
todos eles únicos, de um tema
ou de um sentimento
que o substitua

Se fossem perfeitos,
teriam não só a imagem
mas a cor e os cheiros,
o toque e o sabor ,
o sentimento
e a aspereza quase táctil
da realidade…

Mas são só poemas,
a sua verdade é só a minha,
e a minha arte
é apenas um passo pequeno,
fugaz e miúdo,
em todo esse chão por percorrer.

São só oemas, e estão
tão longe dessa perfeição
que, escrevê-los,
apenas entorpece a dor
de não já saber mais
como fazê-los melhores,
e realça o travo amargo
do limite descoberto.

Mas eles são a mancha
amorosamente roxa
no meu braço nu.

A veia  repetidamente furada
rumo ao fim.
São o meu maior vício!

São um presente que,
vaidoso que sou,
partilho com os outros
– mas me dou a mim!

*

“Daqui de hoje te digo,

desta outra ponta do tempo,

de como tratei por tu noites longas

e dias sem sentido.

 

Posso contar-te, com a isenção dos felizes,

dos  mil livros que comecei, debruçado

sobre  mesinhas de cafés tranquilos,

estacionados na luz certa do momento.

 

Ou posso falar-te de bairros sem tempo,

nem pressas, horários, marcações,

nem qualquer outro compromisso

que não fosse estarem ali.

Neles aguardava o tempo passar,

enquanto esperava as vantagens da idade

e os comboios que tardavam,

as pessoas que queria perto,

os sorrisos que não via, e tudo o mais,

o conjunto dos detalhes preciosos 

e coisas que ainda me faltava aprender. 

Esperava tudo,

e guardava-me em  memórias. 

Engatinhava em textos curtos.”

Eram uma espécie de agenda que fazia,  tentando captar e guardar as emoções e os sentimentos envolvidos.

Com o tempo, esbateu-se a ideia de um livro, na concepção típica do termo.

Os textos curtos, cada vez mais singelos, foram ganhando espaço e conquistando um entusiasmo que eu nem saberia classificar.

Com eles fiz fotos de momentos. Retoquei-as. Percebi que as pintava como quadros e que isso era, em si mesmo, um acto criativo.

 Às vezes parecia-me poético e de extremo enlevo. Outras tantas me pareceu dorido e completamente afastado do que eu imaginava que fossem a poesia ou o sentimento poético.

Os textos foram-se sucedendo, num ritmo irregular e avassalador, cumprindo sempre o seu objectivo maior: dar-me prazer.

Fiz o que quis. Tentei um pouco de tudo o que me lembrei de tentar.

 

Desencontros        

Costumava sentar-se  num pedregulho enorme, mais alto que o muro do jardim, e dali, solitariamente, observar o final do dia, vendo o sol rodar por entre as árvores até sumir completamente, lá longe, por detrás do mar.

De lá, olhando para baixo, podia ver o velho jardim abandonado e, nesse dia, sentiu-o diferente.

Até o regato que o cruzava já não era a mesma velha presença de sempre, triste e murmurante, um lúgubre contador de  velhas histórias, contadas e recontadas durante dias e noites sem fim.

Imediatamente notou a presença  de uma mulher dentro do jardim, e, do lado de fora do muro, um homem. Não querendo ser visto, ficou muito quieto,  condenando-se a presenciar algo a que não queria assistir e  tornando-se um espectador involuntário de um quotidiano que não era o seu.

Aos poucos,  a luz dourada do final da tarde e  o insólito da situação criaram um momento especial, um momento mágico, que o levou a identificar-se com esses dois estranhos que agora observava.

Ela, extasiada, parecia sentir pela primeira vez a presença amiga do regato bordado a prata, e aqueles doces gritos de vida que eram as flores, a dádiva que o mundo do belo lhe oferecia em cada folha amarela e solta, rodopiando no ar até cair a seus pés.

E os sons, todo esse mundo inebriante dos sons, parecia apontar para coisas ignoradas, trazendo até ela cantigas de amigo no murmúrio das águas, carícias no suave hálito do vento.

Tudo, de uma forma absoluta e irredutível, parecia conduzi-la para dentro de si própria, para formas insuspeitadas de volúpia e ternura, para sensações e necessidades que  não sabia entender.

Sentada junto à água espelhada, receando ter-se atrasado mas esperando, assistia fremente e angustiada à passagem do tempo, vendo as flores que o regato transportava de vez em quando, trazidas já do outro lado do muro ao fundo do jardim, sob o qual as águas pareciam nascer…

E fora, do lado de outro lado desse muro estava ele. Mago sem cartola nem diploma, em pé e absorto, segurava um cigarro apagado entre os dedos e olhava o relógio distraidamente, certo de ter chegado demasiado cedo.

Tenso, encostado a uma árvore tombada junto do regato, e como que marcando os minutos, de vez em quando estendia lentamente um braço para trás de si e, colhendo uma flor, atirava-a para a água.

Depois ficava a segui-la com os olhos, observando o seu deslizar lento – demasiado lento – até ela desaparecer por baixo do muro que ele, passado um pouco, cheio de incertezas, iria transpor.

De ambos os lados do muro a tarde conivente esvaía-se,  preguiçosa…

 

*

Nunca estive no comando desse deambular, nascido dum improviso que surgiu sem que o esperasse, e que sempre me causou surpresas. 

Muitas delas vinham desse percurso errático, fruto de descobertas anotadas na margem de cadernos. Guardanapos. Qualquer papel… 

Outras que vinham de mim mesmo, das mudanças que ia sofrendo. Dos medos que nasciam por me ver iniciando a longa caminhada solitária de quem escreve. 

Não é aventura pequena, enfrentar a planície branca do papel imaculado. 

As hesitações foram muitas, e muitos os momentos em que parei e desejei ter começado outra coisa qualquer, causadora de menos dúvidas :

 

QUANTOS?      

Quantos poetas já fui?
E quantos deixei de ser?
Quantas, as vezes que escolhi,
entre o café da manhã
e as luzes do amanhecer?

( e quantos males temi
nesse afã? )

Quantas voltas já dei,
em mim mesmo,
e mais além?
Em quantas partes dividi a esmo
o quotidiano, e o futuro também?

( e quantos projectos esqueci,
nessas crises de antanho?)

Quanto deixei por fazer,
nesse receio de ser Poeta?
Quantas mágoas por sofrer,
planícies por cavalgar,
tendo o pão como meta?

( e quanto, do mundo por amar,
amei sem saber? )

*

Meu maior medo sempre foi o de não ter histórias para contar. As histórias dos outros, escritas ou não, pareciam-me tão diferentes do que seriam as minhas, se alguma vez as contasse…

As deles eram substanciais, concretas e datáveis. Falavam de pessoas e coisas que se enquadravam nos parâmetros de vida de quem contava, na sua realidade, no seu contexto.

As minhas jamais seriam assim, se ganhassem forma.

Por isso caminhei de forma errante nesse universo das palavras, até que consentiram em ser minhas, às vezes.

Caminhava, olhando em redor:

 

Madrugada

 

Caminhávamos como donos da rua,
àquela hora tão cedo.
Os carros, os táxis que passavam,
todos chegavam num repente,
ganhando maiores dimensões
em espalhafatosas surpresas
de luz e de ruído.
Duravam apenas o tempo
de focar os olhos,
depois, sumiam no fim das ruas,
entre fumaça e salpicos
das poças de água.
A noite continuava ainda,
fria e escura,
tardando a acordar.
Quem subia nos ônibus e bondes,
comprava bilhete-operário, mais barato,
pensado para os que começavam cedo,
em fábricas e padarias, e eram
como o sangue invisível da cidade.
Nessas horas de então,
o frio era mais frio,
e a chuva parecia que molhava mais,
caindo sem parar na frente dos faróis.
Mas não havia solidão,
e, por algum motivo já longínquo,
falava-se baixo e pouco,
talvez para não acordar ninguém.

A cidade por onde passávamos, passava
nas janelas laterais, conhecida,
iluminada por um momento apenas, fugaz.

E nas saídas dos prédios, nas portas onde
os casais que se beijavam em despedida,
separando-se, ia-se tecendo aos poucos
a regra da madrugada,
que não conhece pares, nem grupos
– apenas indivíduos, num esquema maior,
que lhes dá sentido e razão de ser,
mas  que os mói,  exaure e devora.

A cidade passava, conhecida,
nas nossas janelas brilhantes,
exibindo os seus  detalhes
como se nos saudasse a cada dia,
em alegrias de chegada.

E nós passávamos por ela, sempre,
em paixões de primeira vez…

Música antiga

Afinal, de onde veio a ternura?
Essa convicção subtil
de que nos desejamos o melhor,
mesmo quando o desajuste dos dias
nos proíbe caminhos comuns ?
Esse  conhecimento instintivo
Da verdade do outro que, sabemos,
nos sabe e nos adivinha?
Terá nascido  do outro lado
De uma qualquer esquina
onde já éramos nós dois ,
criando em detalhes
as memórias de hoje?

( lembro na rua as pedras quentes,
lisas de muitos passos,
onde nos sentávamos um palmo acima do chão,
levitando eternos e intocáveis, nas nossas crenças,
ensaiando rudimentos de algum artesanato.
Acreditávamos no amor, porque éramos o amor
assumido em gestos, vivido em estilo,
colhido em beijos de tamanha candura
que tornaram insuficientes
todos os outros beijos dos nossos dias, quando,
de lábios irrequietos, procuramos essências
nos remansos onde fomos curar fadigas
e terminar gestos inacabados.
Dessas esquinas, dessas pedras quentes,
trouxemos as nossas histórias, os nossos medos,
e também as nossas alegrias mais profusas.
Por lá vibramos cumplicidades, amores,
pudores e desejos desconhecidos,
e aprendemos a escutar a vida,
a acompanhá-la com sons de violão e ocarinas,
cigarros partilhados no carro,
e em passeios a pé, reparadores…
De então vieram todos quantos hoje estão aí,
disfarçados em status e roupas de rigor,
explorados pelos tempos modernos
já esquecidos dessas histórias pregressas
para onde,  num instante, regressas
quando me olhas, de olhos desencantados.
De alguns nos perdemos,
A outros nem queremos encontrar,
mas a todos somos capazes de reconhecer.
Vimos tudo, fizemos tudo,
acreditamos em todas as coisas,
e gastamos s nossa ingenuidade
olhando ao nosso redor.
Alguns experimentaram demais,
e já nem se fala deles.
Outros tocam até hoje,
variações das mesmas músicas
que tocávamos na praia
ao redor duma fogueira.

Reconhecemo-los.
Conhecemo-los pelos nomes.
Reconhecem-nos quando nos vêem.
Mas só isso.
O resto é compromisso. )

Mas é daí, desse outro lado
De uma qualquer esquina,
sentados no chão,
e do som desse  violão antigo
tocado  na praia
à volta duma fogueira…
É daí, dessas pulseiras e colares
que fabricamos tanto, que nos conhecemos.
O que sobrou de nós
foi essa ternura desencantada,
nos olhos com que nos olhamos.
Mas eternamente terna.
Ou ternamente eterna, não importa.

Mas reconhecemo-nos…
*

Quando penso nisso, acho normal que assim seja. Não há percursos lineares. Nem há uma forma única de nos aperfeiçoarmos num determinado tipo de actividade. Cabe a cada um descobrir a sua forma particular e única.

Talvez literariamente seja isso o estilo, embora haja definições provavelmente mais  rigorosas e primorosas também.

Nunca busquei um estilo como sendo algo necessário. Nunca busquei a escrita como uma forma de catarse ou de sublimação.

Hesitações houve muitas.

E creio que não terei conseguido o que pretendia, que era contar histórias. Não da forma que tinha imaginado.

Mas acredito que, depois de tudo, tenham sido as histórias a contar-me a mim:

 

As três pérolas

 

As montanhas, muito escarpadas, e os longos caminhos subindo sempre, tão cheios de perigos, faziam com que os povos daquelas aldeias na base da montanha, bem pertinho do mar, tendo sustento fácil  nas águas e na terra plana, simplesmente não subissem até lá acima.

Às vezes encontravam-se com as gentes lá do alto, quando viajavam por mar até aos outros povoados que ficavam do lado de lá da ilha e da grande montanha, para onde era fácil aos que viviam lá em cima descer quando queriam.

Mas no resto do tempo, viviam nas suas aldeias, tranquilamente. Olhando para cima, viam a grande lua no céu, magnífica, e na sua simplicidade achavam que era uma grande pérola. Os que viviam mais em baixo, erguiam para ela os seus olhos e os seus pensamentos e sonhos, fascinados com tanta beleza, e fantasiavam como deveria ser maravilhoso viver num lugar que fosse tão alto, mas tão alto, que a pérola jamais se escondesse por detrás de nenhuma montanha. Esse era o sonho de todos.

E como era bela, aquela pérola. Que enorme e que preciosa. Todos gostariam de tê-la, mas todos sabiam também como era impossível. Sabiam que no topo da montanha estariam mais perto, poderiam vê-la durante toda a noite, mas ainda assim não conseguiriam chegar-lhe.

Foi então, em algum momento que ninguém saberia já precisar, que começaram a surgir uns rumores sobre a existência de uma outra grande pérola escondida na selva, numa clareira mágica onde havia um pequeno lago. E as gentes lá do alto da montanha abeiravam-se do precipício para vê-la na selva, por entre as árvores,  muito mais abaixo.

E foi assim que, aos poucos, alguns buscaram descobrir o caminho  até essa clareira na selva, onde havia um lago com uma pérola bastante menor que a outra no céu, mas que podia ser alcançada.

Podia ver-se, nos olhos de quem adentrava o bosque assim tão profundamente, uma espécie de reverência crescente que já dizia tudo, e que ia aumentando com a compreensão de que esse lugar, onde ia chegando, era sagrado.

E  na entrada da clareira, perante aquele raio de luz crua onde oscilavam sugestões de todos os tipos, cintilando ora em brilhos de estrelas, ora em pó de fadas, olhavam para cima e viam-no rasgar a penumbra verde-folhagem  do lugar e a cair precisamente sobre o pequeno lago de águas transparentes, revelando, enorme e enigmática sobre a areia alva do fundo, uma magnífica pérola em repouso.

Talvez não houvesse em nenhum outro lugar uma luz assim, que tão bem revelasse a perfeição daquela pérola singular, evidenciada de uma tal forma, com tal pureza, que tudo mais se recolhia a um segundo plano, como se servisse apenas para acolchoar, como num estojo, o lugar onde ela se exibia em seu fantástico repouso.

Era enorme e singela, e estava ali, apenas, sobre a areia muito fina e pura do fundo do pequeno lago, cujas águas frias nada jamais parecia perturbar.  Não havia vento ou folhas errantes, nem poeira buscando outros caminhos, ou sequer um pequeno animal  sedento… Nada jamais fazia estremecer a sua superfície, ou diminuir a sua transparência.

O lugar era antigo, e cheio de lendas, e poucos eram os que conseguiam alcançá-lo, mesmo os que se dispunham a caminhar longas horas pela  floresta muito densa, tentando seguir trilhas praticamente invisíveis.

Mas mesmo pelo caminho, olhando em redor, era possível ir descobrindo vestígios da presença de outros. A vegetação ganhava um tom de verde um pouco mais dourado e, discreta, escondia pequenos objectos um pouco por toda a parte.

Aqui eram potes de barro, com tampa, muito ornamentados. Pratos com o que pareciam ser restos de oferendas. Pequenas caixas. Mais além uma pequena flauta de osso. Pequenas candeias de óleo, agora apagadas. Moedas. Algumas jóias. Algumas das coisas, nitidamente muito antigas.

Dizia-se que, mesmo nas noites mais escuras, havia na clareira aquele brilho especial, como o da pérola no lago, mas isso ninguém conhecido poderia garantir. E que esse brilho aparecia nos olhos daqueles destinados a conhecer a pérola no lago, e também nos olhos dos apaixonados quando se julgam a sós e ficam absortos, pensando na pessoa amada. Não sei.

Sei que , enquanto conversávamos, o velho pescador de pérolas, muito pobre, ainda estava abrindo algumas ostras com a sua faca de folha curta, de cócoras no fundo do barquito encostado  ao meu, no final da tarde que já corria para a noite, enquanto me contava estas velhas historias.

Dizia-me que a escutara pela primeira vez do seu bisavô. E de vez em quando olhava para terra. Não para o céu, como eu esperaria, mas para um ponto no meio da mata, junto à base da montanha. Por indução olhei também, mas não chegou a ser um brilho o que vi, e durou apenas um momento. Assim mesmo, chegou para me fazer interromper o que estava perguntando, e ele percebeu.

– Você também viu, agora mesmo, não foi ? – e o seu riso desdentado era cúmplice e não permitia negativas. – Quando se olha do alto da montanha para baixo, também se pode ver, ás vezes, pelo meio das árvores. E é uma pérola grande, posso dizê-lo sem dúvidas. Uma vez subi até lá acima de propósito, para nunca mais ter dúvidas… Sim… É grande!!!

Surpreendido, tudo o que consegui fazer foi interrogá-lo mais.

– Então é verdade, tudo o que dizem ?- perguntei, olhando no rosto. O velho, olhando-me também, sorria uma resposta. Entretanto o dia já se fora, e ficara quase noite. E o seu sorriso tornara-se mais largo. Nos seus olhos, duas pérolas brilhavam agora, olhando para mim.

– Meu filho, eu sou só um velho ignorante que apanha pérolas. Escolhi não viver lá em cima na montanha, porque não suportava ver a maior das pérolas tão perto de mim e, ainda assim, não poder alcançá-la. E tampouco quis ficar num desses povoados na base da montanha, e viver correndo atrás dum brilho por caminhos na selva, que a própria natureza vai mudando de lugar,  e onde  alguns  homens já se perderam para sempre… Não…

O velho fez uma pequena pausa, sem falar nada. Depois, emocionado, retomou o que dizia:

-Por isso vivo lá, na minha cabaninha na praia, e aqui neste  barquinho velho. E tenho todas as três pérolas ao mesmo tempo.

O velho estendia o braço e apontava com a mão.

– Tenho aquela gigante, lá em cima, que a montanha esconde depois de um tempo, se a olhares muito. Tenho a outra, que a selva  abriga no lago, e que às vezes brilha para mim um sorriso rápido por entre a escuridão da mata, como você viu também, há pouquinho. E tenho estas pequenitas aqui – mostrou uma, erguendo mais a outra mão – que as ostras me vão oferecendo, uma de cada vez, e que, para mim, não valem quase nada…
*

A mim, as escolhas impuseram-se sempre, conscientes ou não, e o tempo foi passando.

Os textos que produzi – vejo-o hoje sem qualquer rigor cronológico muito especial – revelam que não fiz uma opção de fundo por poesia ou prosa, nem por este ou aquele daqueles formatos mais característicos.

Continuei sempre a registar momentos.

Mantive-me fiel a eles, recorrendo a quaisquer ferramentas que me servissem para os retratar, ou colher, guardar, enaltecer.

Hoje, acho que me mantive rente ao que queria, sem saber que era isso. E estou contente. Sempre falei de amor, não necessariamente entre pessoas.

 

E como fazê-lo sem falar de memórias?

 

Havia um cais

Havia um cais.
Ficava lá depois da última praia.
Depois do último molhe de pedras amontoadas,
que amansavam às ondas o seu avanço.

E nós esperávamos, ainda longe,
que chegasse a hora certa.
Depois caminhávamos às pressas,
e ríamos quando a espuma que vinha
já nos chegava aos pés.
E sempre acabávamos a correr muito,
com a água cada vez mais perto,
apertando-nos contra as rochas
num contra-relógio juvenil,
insano e perigoso.

E quando o areal ia terminando,
e já não havia mais lixo
senão aquele que o mar trazia,
nem se viam outras pegadas
que não fossem as que deixávamos
-sabíamos que o momento ficava sério.

Parecia que gritavam avisos, as ondas,
e havia grasnados de protesto
nos ninhos das rochas mais altas,
das falésias cheias de sol.

Mas então já não podíamos voltar atrás,
era o mar que nos empurrava para o cais,
de medo escondido nos olhares
e nos risos nervosos com que desafiávamos
o momento, apesar de não haver outros
tão alegres nesse mundo,  onde julgávamos
que Deus nos deixava ousar destinos.

Por fim chegávamos,
já com a água espumando nas coxas,
sabendo que não havia  outro caminho.
Ninguém nos seguiria, mas quem viesse
precisaria esperar que vazasse
essa maré que só agora começava a encher.

E se isso  fazia de nós prisioneiros,
voluntários e contentes,
também nos tornava donos do tempo
por todo um dia de marés.

Sim, havia um cais.
Tinha um sossego que era todo seu,
mesmo com os gritos das gaivotas
e o marulhar das águas,
o cheiro húmido do sal nas rochas
e o ruído distante da cidade que teimava
em fazer-se ouvir.

Ouviam-se nas tábuas velhas
vozes que vinham do fundo,
onde ondas rolavam pedras.

Apaixonados,
pensávamos que eram beijos
ou segredos entre mar e seixos,
e tudo o que rimasse
com abraços escondidos
das águas com os pilares.

E havia também um ranger antigo
de madeira que se espreguiçava ao sol,
sorria ao sol e, estalando de quente,
nos embalava  os sonhos lentos
de quem só pensa em céu azul,
sem nuvens e sem pressas,
e naqueles beijos fantásticos
que só troca
quem é dono do tempo,
e maior do que a vida
– e pouco se importa com as marés…

Entre gaivotas

 

Na areia
onde as ondas se espraiavam
marulhando rumores do mar,
viam-se sombras passarem,
das gaivotas por cima de mim.
Voavam canções no vento,
que o sol não nos deixava olhar
mas que se liam no areal,
como se ele fosse uma tela
onde a vida projectasse
sonhos de gaivota
em cânticos de luz,
só para se poderem ver…

E nesse manso movimento,
entre os nossos passos
perseguindo sombras,
e as suas asas
abertas nas alturas,
havia um tempo,
um desfasamento,
que a brisa usava
para apagar a história
-que os nossos pés escreviam
e o mar escondia-
da nossa vida
entre gaivotas.

*

Há nos meus escritos, mesmo nos de hoje, elementos inegáveis que transcenderam o tempo, e que são fruto de uma memória emocional que, passo a passo, desconheci.

O tempo foi sempre o meu aliado mais precioso, e o meu carrasco também.  Vou e quase volto, em espirais intermináveis, que sempre me forçam a passar perto e quase reviver momentos e  lembranças.

E se, por um lado, isso torna mais lenta a minha progressão na escrita, a verdade é que descobri que estou sem pressa.

E que adoro este quase repisar, não importa em que modalidade de escrita o faça.

 

As palavras que se expliquem. Ou não!

Na verdade, que importância tem?

 

Ou silêncios

 

Queria que fossem as palavras, a fazê-lo.
Que falassem das emoções e dos anseios,
do tempo  esculpido  em horas de pedra.

Que trouxessem à memória e à claridade
as profundezas mais guardadas dos baús.

Que exorcizassem  todos os mal entendidos,
e expurgassem o mundo de todas as dúvidas.

Que simplesmente tivessem
o peso do que dizem, e se revelassem
o produto de escolhas felizes.

Queria que fossem as palavras, a fazê-lo,
mas não objecto a que sejam os silêncios.

Desde que,  depois deles,  haja histórias
a partilhar na intimidade cúmplice de alguma fogueira.

Desde que mantenham  as mesmas certezas
daquelas palavras que algum motivo
conseguiu impedir.

Desde que façam parte daquele hino
que à vida se canta o tempo todo…

 

Isso é amor !

Ali mesmo, na parede,
a ampulheta antiga mostra em amarelos de latão

outras faces do tempo.
Fala de quando havia tempo,
e mãos disponíveis para virá-la.
Disponibilidade para o sentimento.
Luz de velas, nos castiçais dourados.
E os sons, cheiros e sabores
que, hoje, são de época…

Baixinho, um cravo tocando, tecnológico,
envolve-me como um beijo lento,
e a noite, lá fora, querendo impor-se,
aprofunda-se, argumentando brilhos.

Falta-me uma bebida forte,
e uma pena grande,  vermelha,
na mão suja de tinta,
saindo duma manga pregueada,
obscenamente alva,
eternamente elegante…

Do lado da ampulheta,  severo,
um astrolábio também brilha,
em cânticos de latão e charme
feito de memórias…
Por detrás do cravo, insuperável,
conta-me das ondas antigas
e dos horizontes cinzentos do mar.

Das alturas do astro-rei
anotadas nos pergaminhos,
em sons crepitantes de escrita
e arranhados de pena, insubstituíveis
neste contexto de memórias
confortáveis, quase minhas.

Mais além,
os meus cachimbos raros
olham-me em ardumes de língua,
dispostos a esperar, condescendentes,
crendo-me servil…

E eu aqui, de mãos crespas,
nos gestos da escrita.
Vendo-me em todas as histórias
que compõem a minha história,
em repetições inevitáveis de anseios
e ínfimos afagos doloridos,
tão íntimos como pequenos desconfortos…

Falta-me mais, muito mais,
do que uma bebida forte.
Falta-me o ritmo ardente da África,
cantando em dialectos, ao amanhecer.

Falta-me o silêncio dos peixes,
em cores distorcidas
no vidro líquido.

Faltam-me as velas
e o vento caçado,
fazendo força contra a cana do meu leme.

E o deslocamento sem som
espirrando salpicos salgados,
nos meus olhos focados longe.

Tão longe,
que a saudade disso
não é isso …

-Isso é amor !

Onde ? 

Onde o guardei, ao gesto repousado da tua mão?
No quotidiano evanescente das doces memórias,
por entre os sentimentos e as pequenas histórias,
ou naquele ermo gelado onde  escondo a solidão?

Há nele um remate, algo de conclusivo, serenidade.
Talvez  aquilo com que se desfecha um momento,
o cariz inapelável do que se deixa escrito no tempo,
ou a raiz daquilo que o tempo transforma em idade…

Como pensar que, lembrado, possa estar perdido ?
Que, num passo a passo, a vida tenha continuado,
tenhamos escrito as marcas dum futuro já traçado,
e deixado para trás, congelado, o momento vivido?

 Sendo assim

Perco-me nas palavras.

As palavras
empurram pressionam
e desprendem-se
soltam-se
ganham vida
às vezes
outros rumos
que não os meus
só seus

Às vezes
são-me fiéis
dizem o que quero
dizem-me
traduzem-me
dão-me aos outros
dão-me os outros
trazem-mos enfim
sendo assim

às vezes
fogem-me
as palavras
rebeldes
areia entre os dedos
fugas e medos
jogos e fúrias
riem de mim
sendo assim

Às vezes
noutras bocas
as minhas palavras
encontradas
servindo bem
indo além
como quem diz
fica feliz
sendo assim.

( às vezes
perco-me nas palavras
mas sempre fico feliz )

*

 Pesquisei razões e motivos. Ausência e abundância. Teci conjecturas e teorias. E muitas foram as vezes em que ensaiei uma visão de topo.

 

E quem nunca o fez ?

 A partir de que ponto já nos sentimos tão  sábios que deixamos de nos fazer perguntas?

 Com quais detalhes, um dia deixados à margem, deixamos de aprender ?

 Quando deixa o quotidiano de nos encantar ?

 Detalhes, minúcias, pormenores, registos e apontamentos, sempre. Sempre!

 A vertigem insaciável do papel em branco…

 

Bom é isto!

 

Bom é isto!
Quando de quase tudo
recolhemos os pequenos detalhes
que, assim espalhados pela imensidão  dos tempos,
por si sós, não são nada.
Mas que, somados,  se agigantam
e nos mostram muito além
dos meros episódios do que fizemos
naqueles momentos menos cruciais,
antes das palavras.

Não que, depois das palavras, brilhem outras estrelas
numa outra abóboda de sonhos…
– se bem que, para isso,  há os que são Poetas !

Não que, depois das palavras,
se tornem mais claras as intenções dos deuses,
la nos ermos de algum Olimpo,
jogando num imenso tabuleiro celeste
aquilo que imaginamos serem destinos… Não…

Não…
Mas bom…é isto!
Quando nos juntamos num pedaço só,
e nos damos ao luxo de ser um pedaço só.
Uno, monolítico, e convicto como um pedaço só.

E dizemos coisas, sofremos coisas, sentimos coisas
dessa forma especial  e singela,
a cada momento mudada, sofrida, remediada,
adequada ao instante como um acorde insubstituível
tornado necessário à harmonia perfeita.

Sim… Bom é isto…

Um espaço de ser,
onde palavras nos recriam, no que dizemos,
vez após vez, simbioticamente,
repetitivamente,
como passos tantas vezes dados
que acabam criando um caminho !
( e quem sabe se alguém, um dia, o seguirá …)

Ou talvez um caminho,
tão liso, tão nítido e claro, puro,
evidente, no seu rumar desconhecido,
( e quem sabe se alguém, um dia, o seguirá…)
que se torna um convite ao caminheiro
– e  àquelas  primeiras pegadas,
experimentais  mas já firmes,
que, para todo o sempre, lhe marcarão a alma a fogo,
e lhe porão nos olhos um fulgor de eternidade…

Sim… Bom, é isto !

Foi por isso

 

Foi por isso que fiquei. Precisava paz.
Na outra margem
iriam continuar por muito tempo
os meus passos revigorados
até que um outro rio os detivesse
em algum momento, já quase
a perderem-se em novas águas.
E talvez daí ainda ponderassem
uma outra margem distante,
onde um outro coqueiro inclinado
daria início a mais mistérios verde-sombra,
ciliares a mais praias de areias brancas
-que acabaria reclamando para mim
apondo-lhes o meu nome
em caracteres antigos,
numa runa escrita com o calcanhar.
Foi por isso que fiquei.
Para que não me vissem do espaço,
como um aleijão em todas as praias,
os satélites.
( Marquei a paisagem com uma flâmula vermelha
num apelo ondulante aos deuses desse vento
que tão bem conhece o som da minha voz.
E entoei baixinho um cântico de morte
cada vez mais fraco, até que o silêncio
dissesse mais do que eu sabia… )

*

Compondo o quotidiano, junto com tantos outros detalhes, há o fascínio intenso da intimidade.

 Há nela toda uma poesia intrínseca, subtil, muitas vezes subliminar, que vai muito além do corpo e do momento.

 Tem uma voz própria. Um encanto feito de expectativas e de desejos,  de encontros e desencontros.

 Várias vezes busquei essa voz usando as características únicas desse momento, circunscrevendo-o a um ambiente jamais descrito mas impondo-se sempre, onde desejo e ternura se envolvem e fundem.

Todo o erotismo é pessoal.

 

Fim de dia

 

Chego sem saber que aqui estavas,
cansado do meu dia,
sabendo-me descrente de tudo
o que não seja dormir.

Quando entro no quarto,
e um resto de sol coado em cortina
te revela derramada sobre a cama,
avermelhada, dourada,
renasço em outros humores,
mas com a certeza de estares dormindo.

Dou por mim imaginando banhos,
agitando martinis, acendendo velas
para um jantar de vinho e queijos,
à média luz.

Dou por mim pensando no que fazer
enquanto me vou despindo,
e saio do banho já preparado
para te surpreender, e te dar
o despertar libertino, memorável,
que adormeceste esperando.

E tu ali, nua sobre a cama,
em total ignorância de mim
e do agito que matou o meu cansaço,
pareces-me subitamente frágil,
pequenina, mais garota travessa
que mulher ladina…
– Quase inocente !

De seios esmagados contra o colchão,
ganhas novas curvas e relevos,
e as tuas nádegas, nessa posição,
sobre o lençol escuro e brilhante,
eternizam-se como numa pintura antiga,
e gritam-me chicotadas aos sentidos.

Chego mais perto,
ainda sacudindo um resto de água,
para um beijo quase casto sobre os cabelos,
numa quase-esperança de que despertes,
e me poupes o remorso de te acordar.

Beijo-te suavemente, cheirando-te,
enquanto te viras e me olhas
por um momento, sem me veres,
já de regresso ao teu soninho gostoso.

E nesse olhar, que foi tão rápido,
brilharam estrelas escuras, só para mim,
prometendo prazeres e loucuras
que a fadiga da espera apenas adiou.
No teu sono, ainda me aguardas
– sem saberes que já cheguei.
E que te amo, pelas promessas
que fizeste, sem saberes que fazias…

 Emergência

 

Cubículo.

Tempo. Escasso.
Urgência. Abraço.

Fome. Vontade. Anseios.
Peito. Pressão. Calor. Seios.

Beijos. Profundos. Quentes.
Roupa. Lã. Carícias. Dolentes.

Coxas. Firmes. Delícias. Abertas.
Pressões. Encostos. Afloras. Apertas.

Mãos. Roupa. Fechos. Alças. Cetins.
Curvas. Quentes. Meios. Fins.

Porta. Medo. Gente. Pouca.
Encosta. Costas. Fria. Louca.

Botões. Calças. Tropeços. Apressados.
Unhas. Costas. Dedos. Molhados.

Olhos. Brilho. Escuro.
Tato. Húmida. Pronto. Duro.

Vertigem. Urgente. Sexo.
Encaixe. Relaxe. Amplexo.

Combate. Embate. Gemido.
Grito. Refreado. Contido.

Pernas. Torres. Raízes.
Modos. Jeitos. Matizes.

Boca. Aberta . Arfando.
Clímax. Momento. Eternizando.

Risos.
Sisos.

Rua. Cidade.
Diferente. Realidade.

PELE QUENTE

 

Hoje caminho pelas sombras
como se enterrasse mais a cabeça entre os ombros
e avançasse contra a ventania do fim da tarde
sem querer perder o meu chapéu.

Aos poucos, a chuva ensopa-me a teimosia
e gela-me o corpo.
Fujo para casa, como um animal qualquer,
buscando o conforto da toca…

As vozes que me chegam, soam em surdina
como se as ouvisse ao longe,
repetindo antigos detalhes
de um outro dia qualquer.

E o meu corpo, age em gestos artificiais,
como se fosse eu, e não ele,
a marcar o ritmo dos meus passos leves.

As horas que, lentamente, me aconchegam,
são feitas de esperas maiores que as palavras.
São pausas no movimento do dia.
Algo que foi suspenso por um átimo,
aguardando o meu retorno à normalidade.

Mas o tempo vai passando, devagar,
e a vida, aos poucos,  retoma as cores do frio.

( Há um restinho de cerveja no copo, escura,
preconizando sabores acres.
Uma bola de Natal brilha na parede,
desactualizada, irreverente em seu fio felpudo.
Do outro lado dos vidros embaçados,
um bonde crepita sob os fios
e espalha faíscas de cores eléctricas
pelas ruas da cidade.
Na madeira preta do balcão,
artefactos brilhantes
sorriem inquietos dourados
como outrora… )

Puxo um pouco mais o cobertor,
e lembro-me de como era, ficar assim…

Nós dois enrolados, o velho coberto vermelho,
a lã vermelha picando nas costas nuas,
a espuma de cerveja entre os teus seios,
e a gripe demorando a passar…

Chocolate

 

Eu vi quando a gota de chocolate se formou, no bolo que ela acabara de morder, à minha frente, do outro lado da mesa.

Deslizou para o canto da boca, devagarinho, um traço castanho riscando o vermelho brilhante do baton.
De mãos ocupadas, a desconhecida procurou limpá-la com uma lambida engraçada.

Vendo-me a observá-la, encolheu a língua e ficou muito vermelha, enquanto a gota prosseguia desenhando o seu caminho castanho pelo queixo dela abaixo.

Instintivamente, peguei num guardanapo de papel e tentei impedir o pior, mas não deu tempo, e a gota de chocolate escorreu até que, finalmente, pingou para  dentro da sua camisa branca, alastrando por debaixo dela, escurecendo, e lentamente desenhando um seio…

Então, eu percebi que ela me olhava, olhando para ela, e , confesso, foi a minha vez de ficar sem graça. Mas não havia mais o que fazer e, sem outra saída, procurei sorrir, algo encabulado, de guardanapo na mão à altura do seu queixo, olhando aquele seio de chocolate que se revelava.

Foi nesse momento que os seios dela se empinaram e pareceram aumentar de volume, captando definitivamente a minha atenção. Quando a olhei nos olhos, já um brilho irreverente, divertido,  substituíra a anterior expressão de embaraço por uma outra totalmente diferente, de puro desafio feminino.

Rimos os dois. Conversamos muito, nessa tarde, e comemos ainda vários bolinhos de chocolate, talvez na vaga esperança de que mais alguma gota nos aproximasse …

Acabámos amigos, rindo bastante, e quando saímos para a rua fria, lá fora, juntos, eu levava na mão uma caixa cheia de bolinhos de chocolate, ainda quentinhos, e no peito, toda a esperança do mundo.

Tardando 

Ergue-se das pedras do chão.
Levanta-se com as brumas,
ao dissiparem-se pela manhã,
e estende-se. Espraia-se
num insustentável fascínio
de mistérios vários,
que alonga as horas
e faz do tempo um cúmplice,
mais do que um aliado,
ou parceiro nas batalhas
doces do amor.

Nasce das fontes primárias
desse sangue espesso
que me corre nas veias,
em convulsões antigas,
de desejo forte.

Surge em actos de vontade,
nos embates do querer
contra a barreira amorfa
dos outros.

Progride em detalhes
feitos de consentimento,
e nos pequenos nadas
das texturas suculentas
com sabores subtis
de quase todas as coisas…

Descubro-lhe os segredos
em pequenos passos
que já foram mais inseguros,
como se raízes mais grossas
cravadas no tempo
escorassem melhor
o velho tronco
em cuja casca rugosa
as histórias se acumulam
para o enrijecerem…

Todos os dias,
o meu dia
tarda a apresentar-se
como é…

*

Os meus versos, a minha escrita, o espírito poético que possa eventualmente encontrar-se nas minhas palavras, de que vos falo. 

Também não é o dos blogs e dos comentários, dos livros publicados ou  daquela outra parte ligada aos resultados, ao numero de publicações e de leitores. Não tem a ver com sucesso nesse plano, mas com diversão e crescimento. 

Tem a ver com tudo o que não deixei de lado e com tudo o que ganhei. Os contos de Natal que continuo escrevendo. Os amigos que fiz graças à escrita, no mundo inteiro. 

Tem a ver com os novos espaços, arenas de entendimento, que me foi necessário criar para ser apenas o que sou:

Espaço de ser

Criei um novo espaço,  feito em condições
nas quais nem sequer depositava esperanças.
Criei caminhos, que se abriram em emoções…
-despertas umas, adormecidas outras tantas.

E nesse espaço as palavras eram de uma doçura
onde não havia vantagens nem outros prémios.
Apenas um remanso, em caminhos boémios…
Despidos de enfeites, cruzados em vontade pura

que aconteceu além de hesitações e medos
e dos projectos de amanheceres vários,
das tecnologias nas pontas dos dedos
palavras-passe, endereços, códigos binários…

Criei um novo espaço condicional, feito de tempo
onde a vida não se escoasse rapidamente,
inflado dos segredos das coisas e do seu alento,
um lugar além dos outros, onde ser eternamente

Um lugar onde a vida sempre me achasse
quando estivesse em alguma eventual procura
de memórias, e onde um futuro aindase mostrasse
como uma certeza, em palavras de ternura.

Alter-ego

 

Sempre há um tempo
( um momento congelado entre tantos )
para se riscar na poeira acumulada pelos silêncios
( como quem o traça em fluidos golpes de esgrima )
o caracter antigo e de simplicidade inexcedível
( de outra forma iria destoar )
com que nos assinamos realmente.
( embora a areia mostre outros passos ensaiados ).

Sempre há um tempo
( o suspense dolorido entre duas batidas de coração )
em que a distância é como uma estrada ao longe
( onde nos vemos passar acenando gestos de adeus )
por onde desfilam os vultos de todos os outros
( demoramos a ver que não somos apenas nós )
olhando-nos num gesto de soslaio apressado
( repletos dessa mesma inveja que sentimos )
que só nos avalia a serenidade exterior
(ah ! como é doce a tranquilidade dos outros )
enquanto rumam a lugares onde não queremos ir.
( embora assolados por vagas de desejos ).

Sempre há um tempo !
( embora às vezes falte tanto…)

Quando chegares

Quando chegares para almoçar
irei abrir-te a porta, e saudar-te-ei
como se fosse normal ter-te aqui,
para que não te sintas uma visita.

Apenas me importa que sejas, amigo ou amiga,
parte de um preciosíssimo instante.

E único,  como sempre o devem ser
os amigos e as amigas e, com eles,
os preciosos instantes.

Iremos comer naquela varanda olhando o rio
e ficaremos santamente bêbados e alegres,
abençoados pela tarde que passa, terna,
prolixa  em cores tintas de vinho e sol
reflectidas nessas águas que se vão indo…
Indo! Afastando pedaços de espelhos e de céu,
e de nuvens que, passado um pouco, já não estão…

( tal como tu não estarás, dentro em pouco,
e continuarás não estando, até que te sintas convidado  e voltes a este preciso instante, quando
beber vinho na varanda, vendo as águas indo-se,
te torna bendito pelos deuses antigos
que ainda vivem nos finais de tarde
de algumas tardes assim,
de alguns dias,
nos dias de alguns Poetas… )

 Sempre há um momento

Sempre há um momento
-madrugada que seja, ou não, que importa?-
em que  começa todo  esse pulsar de coisa nova,
tudo isso que sabíamos que ia acontecer…

E do lado de lá do rio que então nasce,
-de lágrimas que seja, ou talvez de risos,
ou apenas céu disfarçado de rio, ( que importa?),
tão largo, tão fundo, tão cedo ou tarde já… –
vemos os nossos céus nos reflexos  mais diversos
dessa imensa  água única que vai indo, indo,
e que aos poucos se agiganta e se afasta,
ainda tão próxima ao gesto, ainda tão nossa,
e,  apesar disso, já tão vasta…
que um futuro  recém deixado de o ser
desaba finalmente, decididamente,
já com ares de agora -ou de há pouco, que seja.
Talvez de ontem. Será que importa?-

Cabe num instante do rio, a mudança das nuvens
que levam escondidos na água os mistérios
desses céus  tão maiores que nós.

Cabem os destinos das chuvas e das colheitas,
e os olhos cintilantes das noites traindo
os sonhos distantes que as estrelas têm
quando nos contemplam lá de cima,
abstractamente…

– e, além de tudo isto,
ou  de algo que assim seja,
o que haja, se o houver,
será que importa ?

Chão e Caminho

Às vezes, o tempo
é só essa amplidão deslumbrante.
Uma espécie de silêncio vago
com que nos embotamos,
enquanto desfocamos os sentidos
de quase tudo o que nos rodeia.

Restante fica uma essência,
uma partícula de nós que segue,
indo sempre,  sempre, e que muda,
sobrevive  e se adapta
no improviso mal compreendido
que a vida traz.

Como cumprir destinos ?
Acaso o chão divide com os passos
o peso de ser caminho?

Se fosses instante

Se fosses instante,
só contarias de mim  a história
que o teu manto mínimo cobrisse.

E talvez morresses cedo,
como uma palavra que só começa
e logo se afoga em emoção.

E talvez depois fosses lágrima,
não importando que olhos
te reconhecessem a impermanência.

Ou talvez um pequeno degrau
já bem alto, nessa escadaria imensa
onde equacionamos a eternidade.

Mas se fosses instante,
só contarias de mim uma história
que tivesse o teu tamanho.

Já eu, conto em palavras permanentes
lágrimas e histórias  de eternidades
em emoções de qualquer tamanho…

Soneto do tempo

Se houver na vastidão desse horizonte sem abrigo
outros  caminhos  por onde  soem os meus passos
talvez não seja só a vida, que me leva  nos braços,
e me descubra também cumprindo um fado antigo.

Algo assim como se fosse um destino, só mais forte.
Voz  troante  de dentro, impossível de desobedecer,
indo além da razão, da ponderação, e até do querer
– sortilégio profundo forçando-me  a um outro norte.

E erra quem me escutar algum lamento ou queixa.
Não temo  ser um dos tantos que também  que sou,
nem fujo do destino que me leve para onde eu vou.

E se houver no vento alguma voz, ou alguma deixa,
que importa como se desenrola a peça, ou se acaba?
Se é destino, ou se é fado – ou mesmo se não é nada…

Medo do Tempo 

Por algum tempo tive medo do tempo.

Olhava tudo com aqueles olhos cansados
que só tem quem acha que sabe muito
de si e das coisas.

Deambulei de acordo com a vontade dos momentos.

Achei que, na curva  do rio,
a água cantava contra as pedras,
enquanto se perseguia a si mesma para longe de mim,
canções de despedida que eu não voltaria a escutar.

Caminhei pela cidade
acariciando-lhe aqueles  recantos
que a tornavam especial
aos meus passos errantes,
abrigos de vento e chuva,
cantos para repousar  tranquilo.

Lembro nas costas das mãos
da temperatura das pedras
E sinto ainda na boca
o sabor da água correndo incessante
em antigos chafarizes de bronze.

Olhei aquela rocha lá no alto,
junto ao castelo, e despedi-me
da vista que de lá se tem,
de barcos cruzando rio,
numa luz que não é tão dourada
em mais lado nenhum.

Pouco a pouco fui entendendo
o que procurava entender.
Voltei a encantar-me
com as mesmas pequenas coisas
que o tempo não me deixará repetir.

Haverá gentes fazendo coisas,
cores colorindo instantes,
barcos navegando ondas
ao fim de um qualquer magnífico por do sol,
que eu não voltarei a ver
simplesmente  porque não estarei lá.

Pensei sobre tudo isto, em vagares inusitados.
E medos também.

Depois , a lua apanhou-me descuidado.
Usou a pulsação das  ondas,  a efervescência da areia,
e os piados secretos das aves nocturnas ,
e empurrou-me sem aviso
para memórias de outras noites  ventosas
na praia brilhante, quando quis estar só.

E eu sei como é essa areia gelada.
Os jeans molhados nas pernas.
O crepitar efervescente
quando as ondas se recolhem.
Um silêncio rico de som,
onde os outros não estão.
Eu sei como é…

Então sobreveio uma vontade
feita daquilo que não sei ainda.
Feita daquilo  que não aprendi
em primeira mão.
Daquilo que não fiz.
E o tempo fica menor,
se pensar em quanto é isso tudo.

Retomo devagar os meus passos.
Não repiso.
Observo, guardo.
Cuido.

Estou!

Semeamos

Somos assim, semeadores…
Quem nos olha não vê, nem imagina que exista,
nos gestos com que enchemos os dias,
esse algo mais, composto da subtil essência
com que os dias nos enchem a nós.

Vistos de fora, somos apenas mais uns…
Sentados nos degraus de pedra quente,
no improvável silêncio da noite mais improvável,
nada nos ressalta nem enaltece,
nem ninguém  nos aponta com o dedo,
em estranheza ou  em estranho receio.

E também ninguém sabe,
nem ninguém adivinha, que,
no calor da pedra,
absorvemos a história da escadaria.

Nem é visível, nos nossos passos erráticos,
o carinho com que tornamos nosso
o percurso dos passos com que tantos outros,
lhe subiram os degraus, antes,
ou os desceram rapidamente,
em  fortuitas lógicas de vida,
e que depois se espalharam pela cidade
como se fossem inconsequentes…

Por isso, tantas vezes, não se entendem
os sorrisos vagos , nas nossas faces,
ou os cenhos carrancudos da nossa zanga…

Por isso, tantas vezes, nos criticam
os braços erguendo  alto algum brinde,
sem verem que é o momento único,
que mais ninguém viu ou cantou,
que queremos congelado
antes que passe e se esfume
sem que nada lhe dê voz…

Porque é isso que somos:
-Testemunhas.
E, do nosso testemunho,
semeamos histórias.

Semeamos algum sentido…

O autor

 

 

Tenho por influencias as minhas leituras. Steinbeck, Hesse, Eça, Pessoa, García Marquez, Rilke, Remarque, Camus, Neruda, Sarte, Jennings, Kobo Abe, James Clavell, Pearl Book e muitos outros que não menciono. Sou fascinado pelos autores amaericanos modernos, de prosa, e pelos poetas, contemporâneos ou não , da America do sul e Europa. Faço aqui, este ponto, a minha homenagem e reverencia a alguns autores africanos que agora despontam, contra todas as dificuldades. São gigantes num esforço hercúleo que é necessário apoiar.

Escrevo porque, de alguma forma,  necessito de fazê-lo. Ou seja, creio que escrever é uma  forma atenta de diálogo comigo mesmo, ordenada e sincera. Um registo de pensamentos y sentires que certamente olvidaria, se não o fizesse.  Os meus escritos vão-me escrevendo, definindo, tanto quanto eu a eles. Escrever é uma grande parte do que sou hoje. Será sempre, creio. “Sempre” é talvez tempo demais…

Não sei exactamente quando tudo isso começou. Mas os meus escritos mais antigos, de que tenho originais, foram feitos em cadernos escolares quando tinha um pouco menos de 15 anos. Participei de provas literárias, creio que sempre com prosa. Creio que nunca o fiz com poesia. Alguns de meus trabalhos, contos, ganharam a televisão e trouxeram-me os primeiros ganhos financeiros, modestíssimos  mas de sabor inigualável, com a escrita. Participei de vários e fundei um pequeno jornal na pré-universidade. Não era bom, y ninguém sabia muito bem como levar adiante um jornal impresso em stencil, mas isso não era muito importante. Éramos um grupinho divertido e anárquico de pessoas que respiravam  escrita e  literatura, e o nosso projecto plenamente conseguido era “improvisar sempre !”

Da nossa inabilidade não nasceu nada de significativo, a não ser a sedimentação do nosso amor pelas letras e o nosso amor incondicional à literatura. Y uma fidelidade que se mantém  até aos dias de hoje. Por outro lado, a idade que tínhamos, a revolução no nosso país, e o que fazíamos, colocavam-nos no centro de um turbilhão de informação, politica, social e cultural. Y isso foi marcante e fantástico, assistir de perto aos meandros de uma nova cultura que nascia, e de um novo país que emergia das aguas demasiado tranquilas de uma longa ditadura.

O meu primeiro livro, “Quotidiano subtil” foi publicado em Portugal em 2009 quando ainda vivia no Brasil, e é uma compilação de textos poéticos. O último, tenho-o agora em fase de publicação, é o primeiro de uma trilogia de romances, e uma tentativa de publicação simultânea em três países. Creio ser demasiado cedo para falar dele, a não ser para dizer que existe e se chama “Folha de Água”. Já foi escrito em Portugal. Entre o primeiro e o ultimo há mais dois livros, já vendidos, mas não publicados ainda.

Tenho em Poetastrabajando o meu rincão favorito, muitas amizades, muito esforço feito y por fazer resgatando contos de Natal. Sou muito grato aos  fundadores do site, que hoje são amigos especiais e companheiros nesta viagem fantástica que é a vida.

Quanto a minha vida, não há muito o que dizer, Vivi um pouco por toda a parte, em três continentes diferentes, absorvi influencias de todos esses lugares y gentes, línguas e microcosmos, culturas específicas. A África, no geral, e o Brasil, foram e são quase um vício. Minha esposa é brasileira,  e conhecemo-nos no México – outro país fascinante, com um enorme peso específico na minha vida, e onde tenho amigos formidáveis.

Gosto dos blogs literários, das gentes dos blogs, e sempre tento ajudar os que começam a blogar. Creio que disse tudo. Obrigado aos que me lerem.

 

Henrique Mendes

 

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