A VARANDA DE VIDRO

A VARANDA DE VIDRO

En portugués y español – por Henrique Mendes (Portugal)

 

Os passarinhos costumavam entrar  na varanda para comer, e apanhavam minhocas nos vasos e migalhas no chão enquanto saltitavam alegremente dum lado para o outro, felizes e contentes.

A varanda rodeava toda a casa e, vendo como os passarinhos gostavam de brincar por ali, os donos da casa colocaram dois bebedouros para eles. Foi um sucesso, e em pouco tempo o lugar ficou famoso. Vinham passarinhos de longe, brincando uns com os outros, para comer e beber.

Eram de todas as espécies e de todas as cores, e coloriam o mundo enquanto batiam as asinhas e tomavam uns banhos agitadíssimos que espirravam a água longe.

Mas sempre que alguém se aproximava e entrava na varanda, os passarinhos fugiam com medo, sem perceber que ninguém pretendia  fazer-lhes mal.  Tristes com isso, os donos da casa resolveram fechar  com vidro as enormes varandas, deixando lá dentro os passarinhos.

Primeiro, foi um desespero. Os passarinhos não sabiam o que fazer, e voavam contra o vidro.  Muitos batiam com força e morriam. Muitos morreram.  Depois, aos poucos, alguns se habituaram a viver naquele espaço fechado por paredes que não se viam. E os filhotes que eclodiram dos seus ovinhos, já cresceram conhecendo os limites invisíveis daquele luigar perfeito que eram as varandas.

Havia muitas espécies de plantas, tinham água e comida, e não havia predadores. Mesmo os gatos da casa ficavam sempre do lado de fora, escondidos entre as plantas que cresciam encostadas à parede invisível.

Claro que os passarinhos de dentro olhavam com muita curiosidade os passarinhos que vinham pousar nos galhos dos arbustos do jardim, e acabavam chilreando uns para os outros em irmandades de passarinho.

Também aos poucos se habituaram a conviver assim divididos, sem que nenhuns deles entendesse muito bem o que era aquela enorme vidraça que era algo assim como uma parede que não se via, e que os separava quando tentavam estar juntos. Apenas isso.

Assim mesmo, todas as manhãs, naquela hora em que os passarinhos decidem que o dia deve começar,  havia dois que sempre se buscavam e ficavam, um de cada lado no seu galho, piando, amigos de longa data.

Um deles era gordinho, com penas luzidias e lustrosas. Vivia dentro de uma casinha que alguém tinha escavado num pedaço de tronco de uma árvore velha, e que agora ficava num dos cantos da varanda.

O outro, do lado de fora, era mais magro mas muito mais forte, mais agitado, nervoso, sempre com as penas mais rebeldes eriçadas pelo vento. Vivia de olho nos insectos que passavam ao seu alcance, preocupado com comida, e aproveitava as gotas que pingavam da torneira do jardim para poder beber, disputando o lugar com os outros passarinhos ao redor da poça que se formava no chão. E claro que não entendia as queixas do seu amigo que vivia dentro da varanda.

-Tu tens tudo! – dizia-lhe – Não entendo o teu piar triste. Nunca precisas dormir na chuva, nem ficar preocupado com os gatos que nos querem comer. Não sabes o que é passar fome nem sede, e tens um ninho bem protegido. Queixas-te de quê, afinal ?

-Ah! – suspirava o passarinho de dentro – Eu queria poder voar mais longe, para onde eu quisesse. Brincar no meio das flores e apanhar insectos saborosos. Aqui, não posso. Conheço poucos cantos…

-Mas eu já te vi cantar, quando estás alegre! – argumentou o passarinho de fora.

-Sim! E também sei um canto  para quando estou triste. E outro para quando tenho medo do gato que fica só me rondando, tentando entrar.

-E só sabes esses ? Não sabes o canto de andar perdido ? Nem o canto de chamar os amigos, quando se encontra comida ? Nem o canto para acasalar ?

-Esse de acasalar, eu conheço. Conheço mais ou menos. Somos poucos, não é ? Então as femeas daqui atendem ao meu chamado mesmo que eu cante muito mal. Precisam de mim, e acabam por conformar-se…

-Hummm… Acho que entendo!- piou o passarinho do lado de fora- Mas tens tantas coisas boas, que eu queria ter…

-Mas a minha vida é desinteressante. Ninguém me dá valor, basta estar aqui. Não vivo melhor se caçar insectos. Nem de um belo canto nupcial eu preciso, já viste ? Basta comer os grãos que nos dão e estar aqui, enfeitando o mundo à força…

-É por isso que te calas, quando os teus donos se aproximam?

-Claro ! É a minha vingança de passarinho! Apenas me dão o necessário para eu estar aqui. Não me deixam ser livre, nem fazer tudo o que eu poderia fazer. Obrigam-me a ser menos do que eu sou, mas ninguém consegue obrigar-me a colaborar, e é por isso que a vida aqui é tão triste. Quando eles chegam perto, todos nós, passarinhos, nos calamos em protesto!

-Mas olha que a vida aqui fora é terrível. Perigosa e muito injusta. Os mais fortes é que se safam. Os mais fortes comem os mais fracos.Pensa nos gaviões! Quantos de nós já eles mataram com aquelas garras poderosas ? Nunca nos matam a todos para que nos possamos reproduzir, e eles sempre tenham quem caçar e quem comer…

-E achas que aqui dentro é melhor? A nós roubaram-nos tudo. Agora já somos apenas o que sobrou de nós.  Dantes, alegravamos o mundo, agora enfeitamos o espaço de alguém.

-Isso é verdade! – concedeu o que estava no exterior.

-Já nem seríamos capazes de viver aí fora, junto com vocês, nem fugir dos gaviões ou esconder nossos ovos das cobras que atacam os ninhos. Esquecemos os nossos cantos… E não temos fôlego para voar longas distâncias, nem para brincar no meio das flores do campo nas manhãs de primavera. Até na morte somos diferentes…

-Na morte ? Não entendo. Morte é morte…

-Sim, mas vocês morrem sendo comida para alguém. Nós morremos e somos deitados no lixo, não servimos para nada. Somos um colorido que desapareceu da varanda, não mais.

Sempre era esta a conversa dos dois amigos. E assim foi naquele dia, até que as núvens se juntaram prometendo uma tempestade muito forte, e o passarinho de fora teve de voar procurando abrigo. Depois veio a noite, e o vento do temporal, e um galho foi lançado pela  ventania quebrando os grandes vidros da varanda em mil pedacinhos.

No dia seguinte, o passarinho de fora aproximou-se novamente. Vinha com medo de não encontrar mais o seu amigo. Com toda a certeza ele teria aproveitado e fugido, mesmo sabendo que ia ter de voltar ou morrer.

Mas não. Lá no fundo, dentro da varanda, os seus amigos continuavam pousados nos pequenos poleiros de sempre. Mas estavam de costas viradas para a rua, e desse dia em diante, nunca mais cantaram.

Quem me contou esta história, acrescentou um pouco mais. Disse-me que assim são também os homens.  Alguns, vivem num mundo tão controlado pelos governos, quem já nem entendem mais o mundo, nem seriam capazes de viver noutros lugares. Acabam perdendo a vontade de serem o melhor que poderiam ser – o melhor de si mesmos.

Apenas não cantam, nos desfiles e paradas organizadas para mostrar que existem, felizes e gordinhos.

 

El balcón de vidrio

 

Los pajaritos tenían por costumbre adentrar en el grande balcón para comer, y cogian vermes en los vasos con plantas mientras saltaban alegremente por todas partes, felices y contentos.

El gran balcón rodeaba toda la casa y, viendo que a los pajaritos les gustaba jugar por allí, los dueños de la casa colocaron dos bebederos para ellos. Fue un suceso, y en poco tiempo el lugar se hizo famoso. Venían pajaritos de lejos, jugando unos con los otros, para comer y beber.

Eran de todas las especies y colores, y coloreaban el mundo con sus alitas mientras bebían y se bañaban desparramando lejos el agua. Pero siempre que alguien adentraba el balcón para acercarse, ellos huían inmediatamente sin entender que nadie pretendía hacerles daño. Pesarosos con eso, los dueños de la casa tomaron la decisión de cerrar con vidrios los enormes balcones, dejando adentro los pajaritos. Así podrían vivir sin que nada les faltara y a la vista de todos.

Primero fue un horror. Pajaritos desesperados y sin saber qué hacer, se daban cabezazos contra los vidrios. Muchos lo hicieron. Muchos quedaron muertos. Pero poco a poco algunos se acostumbraron a vivir en aquel espacio cerrado por paredes que no podían verse. Y la generación siguiente, nacida de sus huevitos, crecieron conociendo los límites invisibles de aquel lugar perfecto que eran los balcones.

Había plantas de todos tipos, plantadas en vasos, y los pajaritos tenían agua y comida, y no había predadores. Los gatos de la casa quedaban siempre afuera, intentando esconderse entre las plantas que crecían junto a la pared invisible.

Claro que los pajaritos de adentro miraban con mucha curiosidad a las otras avecitas que venían a posarse en las plantas del jardín, y no dejaban de comunicarse entre ellos, en hermandades de pajaritos.

Poco a poco también se acostumbraron a convivir así divididos, sin que ninguno de ellos pudiese comprender completamente qué eran aquellos enorme vidrios, algo así como un límite mágico que los separaba cuando intentaban estar juntos. Apenas eso comprendían.

Así mismo, todas las mañanas en aquella hora que los pajaritos creen que el día debe empezar, dos de ellos siempre se buscaban y quedaban piando entre ellos, uno adentro y otro afuera, amigos del alma.

Uno de ellos era gordito y con plumas lustrosas. Vivía dentro de una casita que alguien había hecho en un agujero de un viejo tronco de árbol que ahora quedaba acostado en uno de los cantos del balcón.

El otro, del lado de fuera, era más delgado pero mucho más fuerte, más agitado y nervioso, siempre con sus plumas rebeldes erizadas por el viento. Quedaba siempre atento a los insectos que pasaban cerca de él, preocupado con la comida, y muchas veces los cazaba en un corto vuelo fatal. También aprovechaba el agua que goteaba del grifo, y disputaba duramente con los otros pajaritos en rededor de la poza de agua que se formaba en el suelo. Y claro que este pajarito no comprendía las quejas de su amigo que vivía dentro del balcón.

!-Lo tienes todo!- decía – No entiendo tu piar tan triste. Jamás necesitas dormir en la lluvia, como hago yo. Tampoco necesitas preocuparte con los gatos que siempre buscan cazarnos. No sabes qué es pasar hambre y sed, y tienes un nido perfecto, lindo y protegido. Entonces ¿de qué te quejas, amigo?

-Ah! – suspiraba el pajarito de dentro – Yo quería poder volar más lejos, para donde quisiera. Y me gustaría jugar en medio de las flores, buscando insectos sabrosos. Aquí no puedo. Y casi no sé cantar, conozco pocos cantos…

–  ¡Pero yo te he visto cantar, cuando estás alegre! – argumentó el pajarito de fuera.

– ¡Sí, de acuerdo! Claro. Y también sé un cántico para cuando estoy triste. Y otro para cuando tengo miedo del gato, que queda rondando por aquí…

–  ¿Y esos son todos qué sabes? ¿No sabes el cántico de andar perdido por ahí ? ¿Ni el otro para llamar los amigos cuando encuentras comida? ¿Ni el cántico para agradar a las hembras ?

– Bueno, ese para agradar las hembras creo que lo conozco más o menos. Somos poquitos aquí dentro. Por eso las hembras acuden a mi llamado lo mismo que cante mal, ¿no? Me necesitan y hay que conformarse…

-Hummm… ¡Creo que te entiendo! – pió el otro pajarito. Pero piensa bien, tienes tantas cosas que a mi me gustaría mucho tener…

-Sí, pero mi vida no es interesante. Nadie me da valor, basta que quede aquí sin hacer nada. No vivo mejor sin cazar insectos. Ni siquiera necesito de un bello cántico nupcial, ¿entiendes? Basta quedarme aquí ornamentando el mundo a la fuerza…

–  ¿Y por eso te callas cuando se acercan tus dueños?

-Seguro que sí. Es mi venganza de pajarito. Apenas me dan el necesario para que esté aquí. No me dejan ser libre, ni hacer todo lo que podría hacer. Me fuerzan a ser menos de lo que soy, pero nadie puede hacerme colaborar, y por eso la vida aquí es tan triste. Cuando ellos se acercan todos nosotros, los pajaritos, nos callamos en protesta.

-Pero no te olvides que la vida aquí afuera es terrible. Es peligrosa y muy injusta. Los más fuertes son los que se salvan. Acá, los mas fuertes comen los más débiles. Piensa en los halcones. ¿Cuántos de nosotros mataron con sus garras poderosas? No, no  matan a todos para que nos podamos reproducir y tengan siempre qué comer.

-Sí, ¿pero crees que aquí dentro es mejor? A nosotros nos robaron todo. Ahora somos apenas lo que restó de nosotros. Antes, éramos la alegría del mundo. Ahora adornamos el espacio de alguien, no más que eso.

-Eso es verdad…

-Piensa que ya no podríamos vivir fuera de aquí, junto con ustedes. No sabríamos cómo escapar de los halcones, o cómo esconder nuestros huevitos de las cobras que invaden los nidos…. Olvidamos nuestros cánticos…y no tenemos aliento para volar largas distancias, o jugar entre las flores del campo en las mañanas de primavera. Mismo en la muerte somos diferentes…

-¿En la muerte? No entiendo. Muerte es muerte…

-Sí, pero ustedes mueren siendo comida para otros. Nosotros morimos y nos ponen junto con la basura de la casa, pues no servimos a más nada. Somos un colorido que desapareció del balcón, no más…

Siempre era esta la plática de los dos pajaritos. Y así fue en ese día, mientras las nubes empezaron a concentrarse con la promesa de una gran tempestad, y por eso, el pajarito de afuera tuvo que buscar donde abrigarse. Después llegó la noche y el viento muy fuerte, y una rama fue lanzada contra los vidrios del balcón, destruyendo algunos.

Al día siguiente el pajarito de afuera se acercó otra vez. Venía con miedo de no encontrar más a su amigo. Seguramente habría aprovechado para escapar, a pesar de saber que iban tener que volver o morir. Pero no pasó así. Dentro del balcón, sus amiguitos estaban posados en sus ramas acostumbradas. Apenas habían vuelto las espaldas para el exterior, y después de ese día no volvieron a cantar.

Quien me contó esta historia, agregó un poco más. Me dijo que también así son los hombres. Algunos viven en un mundo tan controlado por los gobiernos que ya no entienden más el mundo que los cerca, y no serían capaces de vivir en otros lugares. Pierden las ganas de ser lo mejor que podrían ser – lo mejor de ellos mismos.

Apenas no cantan en los desfiles y paradas organizados para mostrar cómo existen y están felices y gorditos…

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