TIVE MUITA SORTE!

TIVE MUITA SORTE!

por Henrique Mendes (Portugal)

Cuento en portugués y en español

 

 

Eu tive muita sorte. Já tinha desistido de continuar viagem, por causa da neve, e estava fazendo manobras na estrada muito estreita, tentando virar para retomar o caminho de casa, quando o meu carro se avariou.

Tentei resolver o problema e improvisar alguma coisa para seguir viagem, mas nada resultou. Fiquei ali parado, longe de tudo, numa estrada mais que secundária onde ninguém passava, sem poder fazer muito mais do que ver a neve caír.

Sem o motor funcionar não tinha forma de me aquecer, e com aquele vento terrível assobiando nas árvores geladas também não tinha forma de acender uma fogueira, mesmo que tivesse um isqueiro ou fósforos, coisas que não tinha.

Fechei-me dentro do carro, sabendo que na bagagem não tinha roupas mais quentes, nem um cobertor que pudesse valer-me, mas pelo menos estava resguardado do vento. O vidro dianteiro já começava a estar coberto pela neve, e lá num cantinho remoto do meu espírito começava a esboçar-se a ideia de que minha vida estava em perigo.

Foi então que me pareceu ver ao longe, por entre a neve que caía sobre o vidro, uma luz que se movimentava, e pouco depois surgiu realmente um carro que se foi aproximando devagar. Era um velho táxi, grande e muito antigo.

O condutor era um velhote simpático de barba muito branca, que se ofereceu para me levar mesmo não estando de serviço. Ia a caminho da cidade para onde eu tinha desistido de ir, o que me servia perfeitamente. De lá eu  mandaria rebocar o meu carro, no dia seguinte.

Perguntei se ele achava que conseguiriamos seguir viagem naquele temporal, e ele riu baixinho, dizendo que estava habituado a dirigir na neve e que o velho carro era de confiança. Só que eu teria de ir sentado no banco de trás, como era costume nos táxis daquela região. Ao lado do condutor, o assento ficava ocupado por um suporte que continha mapas e outras coisas necessárias á profissão.

E foi assim que seguimos viagem. Ofereceu-me um café, que trazia numa grande garrafa térmica, e, percebendo que eu estava com fome insistiu que eu comesse antes uma sopa que trazia também, numa outra garrafa térmica.

-É comida muito simples!- desculpou-se – Mas na hora certa, basta uma sopinha quente para fazer um homem feliz!

Concordei imediatamente, claro.

-Feliz fico eu em aceitar! – agradeci – E fico muito grato! É uma grande idéia, trazer sopa quente numa viagem destas.

Ele concordou com um movimento de cabeça, com simplicidade.
-A vida boa é feita de boas ideias! Este é um costume nosso, lá no norte. Coisa que se aprende com a prática. Todos os anos é assim, viajo muito na neve e já estou habituado. Sempre trago sopa e café.

-É muita gentileza sua, ajudar-me assim! Eu estava numa situação muito dificil e o senhor nem sequer me conhecia. Podia não ter parado…

-Ah! meu jovem, fico contente por poder ajudar. Todos precisamos ajudar, quando está ao nosso alcance !

-Lá isso é verdade…  E mais ainda nesta época de Natal, não é ?

-Ora aí está ! Sem dúvida que sim ! O Natal é outra grande idéia !!!

-Ideia ? – perguntei, estranhando o que dizia. Olhei para ele ao volante, dirigindo com enorme cuidado, e acenando com a cabeça para sublinhar o que dizia. Com a pouca luz que havia dentro do carro, eu conseguia ver apenas os seus olhos brilhando no retrovisor, por detrás duns pequenos óculos que usava, e a sua barba branca. O resto do seu rosto ficava meio difuso, sem que pudesse vê-lo claramente.

-Sim, uma grande ideia. Uma fantástica ideia, na verdade! – teimou.

-Bom, é uma festa religiosa…

-Claro que é ! – concordou – Mas é muito mais que isso, é uma grande oportunidade! Junta as pessoas para além da religião, não é ? Veja bem,  junta adultos e crianças numa causa comum, criando uma quadra bonita cheia de amor e fartura…

-Concordo. Isso é verdade!

-E existe no mundo todo, não é ? Então é uma época em que as pessoas estão empenhadas em coisas boas,  com pensamentos de paz…

-Também concordo! E é tão linda, a história do Pai Natal, que noutros lados se chama Papai  Noel, Santa Claus, e tantos outros nomes… É uma pena que haja gente preocupada em tentar explicar às crianças que ele não existe !

-Aí está outra grande ideia, o Pai Natal!  Claro que há quem tente explicar às crianças que ele não existe, e estrague com esse excesso de racionalidade aquilo que só a fantasia consegue trazer ao mundo. Que mal faz, se as crianças acreditarem e isso as fizer pensar num mundo melhor ?

-Claro!- disse eu – Vão ter tempo para perceberem naturalmente que se trata de uma fantasia, mas uma boa fantasia, que defende valores morais que são importantes.

– Sim, e também valores económicos fabulosos. No mundo há fabricas que trabalham o ano todo para produzir brinquedos, enfeites de Natal, postais ilustrados com temas de Natal, roupas de Natal…

– Sim…

-Dizem que é um grande negócio, como se isso fosse uma coisa condenável… Mas há muita gente que tem emprego nessas fábricas que fazem coisas para o Natal. Muita gente come, mora, veste-se á conta desse imenso negócio que é o Natal.

-Sem dúvida… Mesmo que não sejam coisas feitas para o Natal, todos os presentes que as pessoas trocam nesta época movimentam a economia dos seus países, e  isso gera bem estar e prosperidade. Isso também é verdade!

-Olhe o meu caso! – disse ele – Estou vindo trabalhar nessa época, apesar do frio e da minha idade, porque há muita gente por todo o lado precisando do meu táxi. Não faz sentido ?

– Faz, sim… Na verdade, eu também estou vindo para a cidade por causa do Natal !- disse eu lentamente, enquanto olhava para os olhos dele no retrovisor, brilhantes e empolgados… A barba brnca também brilhava no escuro. Só o rosto continuava sem ser perfeitamente visível.

Ele riu-se baixinho.

-Está vendo que eu estou certo ? Então o amigo também vem para a cidade por causa do Natal? E o que é que faz, se não é indiscrição ?

-Bem, eu escrevo… Um jornal contratou-me para escrever uma série de crónicas sobre o Natal, e também um conto para mobilizar as pessoas em torno das festas natalinas…

-Que maravilha! – maravilhou-se ele – E já começou a escrever ?

– Não. Ainda não… Só quando estiver já instalado, na cidade.

-Então precisa descansar um pouco! – sentenciou.

Concordei com ele. Encostei-me confortávelmente no assento, saboreando o conforto quente do carro. A sopa quente tinha-me reconstruído por dentro, devolvendo-me a tranquilidade e a sensação de segurança.

Enquanto observava o interior do carro, impecavelmente cuidado, fui-me deixando embalar pelo ruído monótono dos pneus rodando devagar e abrindo caminho na neve que havia no chão.

As músicas de Natal que o rádio tocava baixinho também contribuíram para o meu relaxamento, e aos poucos tudo foi ficando difuso. Senti que ia adormecer, cedendo à fadiga e às emoções daquela viagem.

No meu espírito foram-se impondo alguns simbolos. O deslizar na neve… A música e os guizos de Natal… O imenso presente que me tinha sido dado pelo velhote, oferecendo-me ajuda quando eu mais precisava. A comida pródiga, partilhada… E o conforto… A segurança quente do carro, e a sensação de paz que convidava ao sono…

-Lembra-se daquele conto que eu ia escrever ? – perguntei-lhe ainda.

-Sim, lembro. Um conto de Natal!

-Pois é… Creio que se escreveu sózinho! – disse eu lentamente. Depois adormeci rápidamente, escutando a sua risada baixa e ainda um pouco intrigado com aquela barba branca sem rosto, no espelho retrovisor do carro.

Feliz Natal !

 

  •  *  *  *

 

He tenido mucha suerte. Ya había desistido de continuar el viaje, a causa de la nieve, y estaba haciendo maniobras en la carretera muy estrecha, tratando de girar para retomar el camino a casa, cuando mi coche se rompió.

He intentado resolver el problema e improvisar algo para seguir el viaje, pero nada resultó. Me quedé allí parado, lejos de todo, en una carretera más que secundaria donde nadie pasaba, sin poder hacer mucho más que ver la nieve caer.

Sin el motor que funcione no tenía forma de calentarme, y con aquel viento terrible silbando en los árboles helados tampoco tenía forma de encender una hoguera, aunque tuviera un encendedor o fósforos, cosas que no tenía.

Me encerré dentro del coche, sabiendo que en el equipaje no tenía ropa más caliente, ni una manta de la que pudiera valerme, pero al menos estaba resguardado del viento. El cristal frontal ya empezaba a estar cubierto por la nieve, y allí en un rincón remoto de mi espíritu comenzaba a esbozar la idea de que mi vida estaba en peligro.

Fue entonces que me pareció ver a lo lejos, entre la nieve que caía sobre el cristal, una luz que se movía, y poco después surgió realmente un coche que se fue acercando lentamente. Era un viejo taxi, grande y muy antiguo.

El conductor era un anciano simpático de barba muy blanca, que se ofreció para llevarme incluso no estando de servicio. Yo iba camino a la ciudad hacia donde había desistido de ir, lo que me servía perfectamente. De allí mandaría remolcar mi coche al día siguiente.

Le pregunté si creía que podíamos seguir el viaje con aquel tiempo, y él se rió bajito, diciendo que estaba acostumbrado a conducir en la nieve y que el viejo coche era de confianza. Sólo que tendría que ir sentado en el asiento trasero, como era costumbre en los taxis de aquella región. Al lado del conductor, el asiento quedaba ocupado por un soporte que contenía mapas y otras cosas necesarias para la profesión.

Y así fue como seguimos el viaje. Me ofreció un café, que traía en una gran botella térmica, y, percibiendo que tenía hambre insistió que yo comiera antes una sopa que traía también, en otra botella térmica.

– ¡Es comida muy simple! – se disculpó – Pero a la hora correcta, basta una sopa caliente para hacer a un hombre feliz!

Estuve de acuerdo inmediatamente, claro.

-¡Feliz me quedo de aceptar! – gracias – ¡Y estoy muy agradecido! Es una gran idea, traer sopa caliente en un viaje de estos.

Él accedió con un movimiento de cabeza, con sencillez.
– ¡La vida buena está hecha de buenas ideas! Esta es una costumbre nuestra, allí en el norte. Cosa que se aprende con la práctica. Cada año es así, viajo mucho en la nieve y ya estoy habituado. Siempre traigo sopa y café.

-¡Es muy gentil de su parte ayudarme así! Yo estaba en una situación muy difícil y usted ni siquiera me conocía. Podía no haber hecho nada…

Oh! mi joven, me alegro de poder ayudar. ¡Todos necesitamos ayudar cuando está a nuestro alcance!

-Lo que es verdad … Y más aún en esta época de Navidad, ¿no es así?

-¡Oh ahí está! ¡Sin duda que sí! ¡La Navidad es otra gran idea!

– ¿Qué? – pregunté, extrañando lo que decía. Lo miré al volante, dirigiendo con enorme cuidado, y agitando con la cabeza para subrayar lo que decía. Con la poca luz que había dentro del coche, conseguía ver sólo sus ojos brillando en el retrovisor, detrás de unas pequeñas gafas que usaba, y su barba blanca. El resto de su cara quedaba medio difusa, sin que pudiera verlo claramente.

– ¡Sí, una gran idea. Una fantástica idea, de hecho! – Contestó.

– Bueno, es una fiesta religiosa…

– Por supuesto que lo es! – Contestó otra vez- ¡Pero es mucho más que eso, es una gran oportunidad! La gente se une más allá de la religión, ¿no es así? Mire,  adultos y niños juntos en una causa común, creando una hermosa fiesta llena de amor y abundancia …

-Concuerdo. ¡Eso es verdad!

-Y existe en todo el mundo, ¿no? Así que es un período en que las personas se dedican a cosas buenas, pensamientos de paz …

– También estoy de acuerdo! Y es tan linda, la historia de Pai Natal, que en otros lados se llama Papá Noel, Santa Claus, y tantos otros nombres… ¡Es una pena que haya gente preocupada en tratar de explicar a los niños que Él no existe!

– ¡Ahí está otra gran idea, Papá Noel! – Dijo el viejito. – Por supuesto, hay quien intenta explicar a los niños que él no existe, y estropea con ese exceso de racionalidad aquello que sólo la fantasía logra traer al mundo. ¿Qué mal hace, si los niños creen y eso les hace pensar en un mundo mejor?

-¡Claro! -le dijo yo- van a tener tiempo para percibir naturalmente que se trata de una fantasía, pero una buena fantasía, que defiende valores morales que son importantes.

– Sí, y también valores económicos fabulosos. En el mundo hay fábricas que trabajan todo el año para producir juguetes, adornos de Navidad, tarjetas de felicitación con temas de Navidad, ropa de Navidad …

– Sí …

-Dicen que es una gran cosa, como si esto fuera algo reprobable … Pero hay mucha gente que tiene empleo en esas fábricas que hacen cosas para la Navidad. Mucha gente come, vive, se viste a  cuenta de ese inmenso negocio que es la Navidad.

-Sin duda… Aunque no sean cosas hechas para la Navidad, todos los presentes que las personas intercambian en esta época mueven la economía de sus países, y eso genera bienestar y prosperidad. ¡Eso también es verdad!

-¡Mira mi caso! – dijo – Estoy viniendo a trabajar en esta época, a pesar del frío y de mi edad, porque hay mucha gente por todas partes necesitando mi taxi. ¿No tiene sentido?

– Sí, sí… ¡En realidad, yo también estoy viniendo a la ciudad a causa de la Navidad! – dije lentamente, mientras miraba sus ojos en el retrovisor, brillantes e interesados… La barba blanca también brillaba en la oscuridad. Sólo el rostro seguía sin ser perfectamente visible.

Él se rió bajito.

– ¿Está viendo que estoy en lo cierto? ¿Entonces el amigo también viene a la ciudad debido a la Navidad? ¿Y qué hace, si no es indiscreción?

-Bueno, escribo … Un periódico me contrató para escribir una serie de crónicas sobre la Navidad, y también un cuento para movilizar a las personas en torno a las fiestas navideñas …

-¡Que maravilla! – se maravilló – ¿Y ya empezó a escribir?

– No. Todavía no… Sólo cuando esté ya instalado, en la ciudad.

-¡Quieres descansar un poco! – sentenció.

Concordé con él. Me senté cómodamente en el asiento, saboreando la comodidad caliente del coche. La sopa caliente me había reconstruido por dentro, devolviéndome la tranquilidad y la sensación de seguridad.

Mientras observaba el interior del coche, impecablemente cuidado, me fui dejando embalar por el ruido monótono de los neumáticos rodando lentamente y abriendo camino en la nieve que había en el suelo.

Las canciones de Navidad que la radio tocaba bajito también contribuyeron a mi relajación, y poco a poco todo fue quedando difuso. Sentí que iba a dormirme, cediendo a la fatiga ya las emociones de aquel viaje.

En mi espíritu se fueron imponiendo algunos símbolos. El deslizamiento en la nieve… la música y los guiños de Navidad… El inmenso regalo que me había dado el viejo, ofreciéndome ayuda cuando más necesitaba. La comida deliciosa, compartida y confortable… la seguridad del coche caliente, y la sensación de paz que invitaba al sueño…

– ¿Recuerdas esa historia que yo iba a escribir? – le pregunté todavía.

-Si me acuerdo. ¡Un cuento de Navidad!

-Bueno eso… ¡Creo que se escribió sola! – dije lentamente. Después me dormí rápidamente, escuchando su risa baja y aún un poco intrigado con aquella barba blanca sin rostro, en el espejo retrovisor del coche.

¡Feliz Navidad !

 

 

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