Noite de natal

Noite de natal

por Alcione Maria Campos (Brasil)

 

 

 

Moro numa cidade pequena, interior de Goiás. Aqui não se tem muita diversão, as festas que acontecem são quase sempre religiosas. Estou cansada de ficar em casa, só cuidando das crianças. Tenho uma menina que vai completar quatro anos em janeiro e um garotinho de um ano e oito meses.

Este ano decidi participar dos festejos do Natal. Nossa paróquia tem uma turma muito animada, que se dedica aos cuidados com a igreja e às obras sociais. Fiz boas amizades e estamos planejando uma linda festa de confraternização, logo após a Missa do Galo.

Cuido sozinha da casa e dos meus filhos. A Márcia, minha menina, freqüenta a escolinha e o Davi, meu bebê, se adaptou bem, passando um período na creche Canarinho. Eu e meu marido decidimos matriculá-lo quando completou um ano, assim ele pode se  socializar e eu tenho as tardes para descansar ou fazer algumas atividades que me trazem prazer.
Estou animadíssima para o Natal.  A nossa igreja, apesar de não ser grande é muito bem cuidada.

Levamos quase uma semana, trabalhando todas as tardes para montar um lindo presépio, orgulho dos paroquianos.  Cada uma de nós cuidou com antecedência de plantar arroz em potinhos de margarina, para fazermos  a grama em volta  da gruta. Buscamos areia fina do rio para o caminho dos Reis Magos, montamos a gruta com papel de sacos de cimento, amassados e salpicados de purpurina.

Os homens cuidaram da parte elétrica, nunca  a estrela esteve mais brilhante.  Todos colaboraram, cada um dando o melhor de si. As senhoras ofereciam seus mais belos vasos para o cenário do presépio. O clima era de amizade e alegria.  Ficou tudo lindo. E a visitação começou cedo. A igreja vivia cheia, todos queriam ver o famoso presépio.

Faltando uns quinze dias para a tão esperada comemoração, reunimo-nos mais uma vez para planejarmos  a  missa do galo e a ceia. Decidiu-se que esta seria no salão da casa paroquial.   O padre teve a incumbência de avisar aos paroquianos, todos estavam convidados.

Naturalmente  deveriam levar alguma colaboração, escolhida no cardápio previamente montado pela comissão organizadora. Assim haveria comida de sobra e não oneraria a ninguém.

Mandei fazer um belo vestido azul, minha cor preferida, quero estar linda no dia. Tudo caminha para um feliz desfecho, não fosse uma preocupação que não me deixa.  Como farei com as crianças? Não posso levá-las e ninguém vai querer perder a festa para ficar com elas. Foi meu marido que sugeriu:

-Maria Anita, por que não buscamos a Francisquinha para ficar com as crianças?
-Francisquinha, como não pensei nela ainda?

A solução era perfeita. É uma senhorinha muito simples, de seus cinqüenta e poucos anos, que ama  crianças, pois fora babá de muitas na família e que depois de ter mais idade continuou morando na casa da minha sogra, na fazenda. Assim decididos, fomos buscá-la para passar as festas na cidade.

As crianças logo se encantaram com ela, era risonha, brincava com meus filhos como se fosse uma criança também.

Na véspera, fui  preparar  um bolo de  frutas  para a ceia.

Francisquinha estava toda alegre com a Marcinha, da cozinha eu ouvia as risadas das duas. Fui ver o que as alegrava tanto. Descobriram suas imagens distorcidas refletidas nas bolas da árvore de natal e cada uma se desdobrava nas caretas para conseguir a mais interessante.

Tudo pronto,  sentei-me no sofá para relaxar um pouco, queria estar descansada para o evento. Pusemo-nos a conversar, falamos da fazenda, das pessoas  conhecidas , das festas, e eu disse a ela o quanto estava feliz por tê-la ali aqueles dias e que ela ficasse tranqüila porque as crianças  dormiam cedo.

Preparei-lhe uma cama no quarto delas e disse-lhe que o papai Noel passaria aquela noite e deixaria debaixo da árvore um presente para os meninos e um para ela também.

Adormecidas as crianças, fui me aprontar.  Cabelos escovados e brilhantes, maquiagem sutil, o vestido caindo-me com perfeição. O olhar de admiração e promessas do Luís me dizia tudo, tornei-me leve e feliz, como há muito não sentia.

Quando saí do quarto, deparei-me com a Francisquinha acabrunhada num canto do sofá.

-Vai deitar,  Francisquinha,  já é tarde.
– …

Estranhei aquela mudez repentina, mas não dei importância. Quando pus a mão na maçaneta da porta, ela correu na minha direção, aflita:

– Não vá, D. Maria Anita. Eu não vou ficar sozinha aqui não.
– Como não, que você está dizendo? Por quê?

Colocando as mãos em concha no meu ouvido, sussurrou: – eu sou donzela, D. Maria Anita, não posso ficar aqui sozinha e receber a visita do Papai Noel, não sei o que esse  velho vai fazer comigo…

– Mas o Papai Noel na verdade não existe, é só uma lenda…
– Hum, hum, existe sim, eu vi ele na televisão…

De nada adiantaram minhas explicações, meus argumentos.  A velhinha bateu o pé na defesa de suas razões.    E foi assim que mais uma vez eu perdi a missa do galo e a ceia.

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