Noel

 Noel

por Soraya Souto (Brasil)

 

 

Já é quase Natal, e a fábrica trabalha a todo vapor.

Nos últimos meses tenho me dedicado a ler os pedidos das crianças, e agora falta pouco para atendê-los. Este ano Alabaster, o administrador da correspondência, me apresentou, além das cartas, milhares de e-mails. Foi uma inovação das crianças, e precisei da ajuda dos elfos mais jovens para entender algumas palavras. Alguns pedidos acrescentaram relatos pessoais e fotografias da decoração de Natal em suas casas. Uns poucos resolveram detalhar mais, e anexaram links das lojas onde viram brinquedos e livros para que eu olhasse. Foi cansativo, mas é muito importante atender a todos.

Hoje observei durante todo o dia a movimentação frenética dos meus auxiliares. O sincronismo da produção foi admirável: alguns montaram, outros separaram, e os mais jovens embalaram os brinquedos que entregarei neste Natal. Agora estão começando a levar tudo para o trenó, para que eu possa finalmente partir.

Escutei Mamãe Noel terminando o jantar na cozinha. Ela também esteve muito ocupada hoje, cortando fitas e preparando os lindos laços dos presentes. Ela também conferiu todos os mapas que os elfos navegadores prepararam, e mandou instalar um novo GPS no painel do trenó, para que eu não me perca e possa voltar em segurança. Apesar da pressa, e da enorme quantidade de pacotes, ainda encontrou tempo para preparar nossas refeições.

Pude ver pela janela que a maioria das renas se abrigou junto ao velho pinheiro do jardim, fugindo da densa neve que caiu o dia todo. Vi Rudolph, a rena mais antiga, um pouco mais à frente. Me encarava com aqueles enormes olhos castanhos, aguardando o chamado para assumir a liderança das outras.

Aproveitei o pouco tempo que restava para me sentar na poltrona perto da lareira. Had, o velho husky siberiano, me acompanhou e se deitou no tapete, aos meus pés. Este ano não o levarei comigo, para poupa-lo do esforço em noite tão fria.
Comecei a pensar na responsabilidade de visitar tantos lares. Nem todos têm a mesa farta e muitos presentes, mas mesmo assim permanecem repletos de fé e esperança. Muitas vezes, em anos anteriores, percebi a dúvida nos olhinhos espertos das crianças maiores, mas não durava muito, depois que viam que seus pedidos tinham sido atendidos. Quanto aos adultos, sempre me receberam com muita alegria, talvez por recordarem de suas próprias infâncias, e por contarem comigo todos os anos, em noite mágica e abençoada.

Já não preciso descer por lareiras apertadas, ou entrar furtivamente pelas janelas. Sou sempre recebido à porta com abraços carinhosos, independente da moradia. Já estive em mansões e casebres, e até mesmo em becos escondidos em grandes cidades, e o espírito natalino sempre esteve lá, nos corações, nos olhos e sorrisos.

Sei que enquanto todos acreditarem, estarei em seus lares, ano após ano. Este é meu maior estímulo.

Há pouco o alarme do relógio começou a tocar, e me levantei com disposição. Mamãe Noel se aproximou com um novo cachecol que enrolou no meu pescoço. “Seu presente”, ela disse. Me lembrei que não lhe comprara nenhum, e envergonhado lhe envolvi em um abraço. Ela entendeu, tenho certeza.

Abri a porta e vi o trenó já preparado, com Rudolph na posição habitual, à frente. Ela também ganhou um cachecol. “Estamos velhinhos, minha amiga” – falei enquanto acariciava seu pelo – “não podemos nos resfriar”.

Já estava acomodado, e prestes a dar a ordem de partida, quando um dos elfos chegou apressado com um pequeno pacote: eram as rabanadas para comer no caminho…

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