Ana

ANA

por Anajara Lopes (Brasil)

 

 

Ana morava numa rua dos sonhos. Num bairro que tinha nome de santa. Os cabelos eram curtos, o rosto de traços fortes, olhos pretos, de silhueta singela e um andar um pouco encurvado, envergonhado.

Quando levantava o rosto dava para ver uma pequena lágrima escorrer pela face porque o sol com seus raios ultravioletas atravessavam a retina da menina. Ela pensava que o calor que emana do astro fazia nascer uma fonte. Ela ficava imaginando como seria essa fonte, o mar, o sal do mar. Como seria uma cachoeira, o doce da cachoeira.

Vitória, sua melhor amiga, lia para ela histórias, muitas histórias de imaginação, com horizontes ao fundo. A linha do mar de encontro ao céu. As nuvens vermelhas, azuis, presságios, sentimentos descritos em forma de poesia.

Comprou um quadro verde e ensinou Ana escrever o seu nome. Puxava delicadamente sua mão fechando os dedos para beijar o giz e num movimento de “sobe, desce e corta” desenhava a primeira letra do seu nome. Em seguida “sobe, desce e sobe” formava delicadamente a letra N e depois Ana sorria porque era só repetir os primeiros movimentos e pronto: ANA – para todos que quisessem ver –

Vitória com sua amizade fazia Ana se sentir viva. A amiga contava como eram as cores do arco-íris. Que ele era formado de água e luz. E mais, as cores eram vibrantes e ao mesmo tempo suaves, fulgentes e sublimemente encantadoras como um tapete no céu.

Ana passava muitas horas no período da tarde pensando em tudo que a amiga havia lhe ensinado e sorria por dentro por ter tido tal privilégio – o de aprender – Ela sabia o valor do encantamento do saber – Queria mais, muito mais.

O maior divertimento dela era ouvir os passos dos meninos que iam para a escola de manhã. Da cama ouvia o tac…tac…tac… dos sapatos passando na calçada. Aquele barulho imitava as batidas do seu coração, ainda em repouso.

Ana ficava imaginando como seria a luz. Ouvia dizer sobre a velocidade da luz. Isso tudo é tão abstrato! O abstrato era difícil para ela. Aprendeu a fazer comparações. Ela foi feita para fazer comparações com o que ela conhecia. O que com os dedos pudesse sentir. Mesmo que fosse só com o pensamento. Podia imaginar o desconhecido. O desconhecido para ela era o espetáculo natural. A vida em Ana era um espetáculo natural.

O presente mais bonito que Ana ganhou foi uma caixinha de música onde dançava uma linda e suave bailarina, que ela não podia ver.

(Visited 39 times, 13 visits today)